lobo e lua

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28.2.10

Desculpas pra não estudar

Tamires B.
BLOGUEIRA CONVIDADA


Arrumei, o dia todo, desculpas pra não estudar...

Será que por causa disso serei a vergonha da família?
Serei apontada como um mau exemplo para as crianças do prédio, que jogarão bombinhas de São João em mim?

Talvez esse seja meu destino, por culpa dessas malditas desculpas! (O fato de que EU as inventei deve ser ignorado)

E quais desculpas seriam responsáveis pela perda de um dia preciosíssimo de estudo para mim, uma pessoa que teve, durante todo o ano, cada minuto como sendo o último em que poderia absorver um pouco de conhecimento inútil à existência, mas essencial a provas sem sentido?

Acuso essas desculpas aqui:

1. De manhã, meu QI é terrivelmente reduzido.

Como uma pessoa conhecedora do meu próprio metabolismo, percebo que 4 horas a mais no conforto de minha cama são essenciais para que eu possa obter um aproveitamento máximo das minhas capacidades, mais tarde, beeem mais tarde. Então, para que levantar às 6 se eu posso levantar às 11? Opa, na verdade 5 horas a mais, e não 4, são essenciais.

2. Olha, não vejo esse amigo há anos...Que mal faz conversar 10 minutos?

Tem quantos anos que não vejo você on? Provavelmente, apenas algumas semanas... Mas essa ausência insuportável de um colega, com quem o máximo de diálogo que mantive envolvia o empréstimo ou não de uma borracha, é suficiente para adiar em uma hora o maravilhoso encontro de dona T. com os livros.

3. Minha amiga terminou uma prova. Agora devo ligar para mostrar solidariedade.

Essa é minha preferida. Uma desculpa envolvida em paradoxos... Por um lado, você se sente uma pessoa melhor, porque está sacrificando seu tempo precioso de estudo com o bem-estar de outrem... Por outro, de 5 em 5 minutos você olha para o relógio e lembra que ela acabou de terminar uma prova e não tem que estudar mais nada, enquanto você... Bem, você tem uma pilha de cadernos fechados te esperando.

4. Eu tenho que cuidar de mim mesma.

Muitas pessoas dizem que, para evitar a loucura, devemos reservar, entre as horas de estudo, um momento para nós mesmos. Arrumar o cabelo, ir à praia, fazer as unhas. Mas isso não vale, NÃO vale, quando você não estudou absolutamente nada. Essa desculpa, além de me levar 50 minutos no salão, me rendeu a próxima desculpa da lista.

5. Vou esperar as unhas secarem antes de começar a estudar.

Mais genericamente falando, essa é a desculpa do tipo: vamos usar algo como marcador de tempo para dar início aos estudos. Algumas pessoas usam o final do telejornal ou o começo do Programa do Faustão como sinal verde para começar a labuta. Eu apostei na secagem das unhas, como se digitar fosse mais seguro para a integridade do esmalte que virar páginas. Vai entender!

Depois dessa última, que foi a que demorou mais, eu acabei desistindo, porque já era tarde... Agora estou me sentindo terrivelmente culpada... Mas não o suficiente pra usar o tempo que gastei escrevendo essa lista e ir decorar fórmulas de PA e PG.

Tomara que eu tome jeito, antes que seja tarde demais.

Tamires B. pode ser encontrada aqui

22.2.10

O niver de Kamilla Barcelos

Pouco depois que o Jornal da Lua chegou à blogosfera, encontramos um pequeno mas muito interessante grupo de blogueiros que logo convidamos para fazer parte de nossa redação. Lá estavam, por exemplo, Maristela Bairros, Patty Alves e Yvonne Dimanche, que, infelizmente, encerraram suas atividades.

Porém, novos blogueiros foram surgindo, como Regina Simões, Nathália Esthevlana (nossa colunista anti-social), Tamires B. (que fará sua estreia aqui no próximo post), Celso Japiassu, Dama de Cinzas, Dani Pedroza e Kamilla Barcelos.

Entre tantos blogueiros, o que nos fez optar pelos citados? E a resposta é simples: todos são grandes humoristas, sabem como poucos usar a ironia e o sarcasmo para refletir sobre uma realidade que raramente nos agrada.

Esta semana, homenageamos a pequena grande humorista Kamilla Barcelos. Que conhecemos desde os seus 16 anos, em 2007. No dia 26 de fevereiro, nossa colaboradora e amiga completa 19 anos. Descobrimos a data por acaso, através do Twitter, anteontem, quando ela deixou registrado que não queria festa de aniversário, mas a mãe insistia em fazer um bolo e convocar a galera.

Acompanhamos os posts de Kamilla desde 2007. E o que podemos dizer é que seu humor continua refinado. É sempre um prazer ir ao Mundo Efêmero e ler suas opiniões sobre os mais diversos assuntos. Porque a realidade é filtrada por uma mente inquieta, observadora, mas que não se abate diante das dificuldades.

Ao contrário, as dificuldades parecem servir de combustível para Kamilla. Que examina a situação e nos mostra o que pensa sobre tudo em posts recheados de um humor originalíssimo.

Por isso, mesmo que ela não queira soprar velinhas, fazemos aqui nossa festa particular para Kamilla, uma blogueira de primeira, que temos a sorte de contar em nosso grupo de colaboradores. Viva a Kamilla! Vivaaaaaaaaaaa!!!!!!!!

14.2.10

Evoé, Baco!

Celso Japiassu
BLOGUEIRO CONVIDADO


A cidade se agita em datas de festas. Natal e Carnaval são os picos desse entusiasmo coletivo que se mistura ao calor do verão para resultar no confuso tempo de compras e de alegria, ambas obrigatórias.

Compras obrigatórias no Natal, alegria obrigatória no Carnaval.

Num, o comércio festeja vendas recordes; no outro, a indústria de bebidas e de outras drogas menos santas superam suas próprias previsões. A indústria de preservativos também festeja o Carnaval.

O trânsito pesado reflete o estado de espírito da cidade. As pessoas saem à rua e se transformam em povo e o povo se transforma em blocos que exalam odor de suor e de cerveja. Cada bairro tem mais de um desses grandes aglomerados humanos inquietos que arrastam multidões em cortejos absurdos.

O ruído produzido por um desses blocos é superior em volume ao estrondo de um trovão sobre nossa cabeça, só que não é passageiro como um trovão.

Suvaco do Cristo, Vem ni mim que sou facinha, Xupa mas não baba, Imprensa que eu gamo, Mulheres de Chico, Se não quer me dar…me empresta, Cutucano atrás, Se me der eu como, Rola preguiçosa, Spanta neném, Berro da viúva, Eu sou eu e jacaré é bicho d’água, Nem muda nem sai de cima, Bafo da onça, Bloco dos cachaças, Bagunça meu coreto, Meu bem volto já, Concentra mas não sai, Empurra que pega, Barangal e Senta que eu empurro são alguns dos comportados e barulhentos blocos que desfilam pela cidade.

Evoé, Baco!

Celso Japiassu pode ser encontrado aqui

3.2.10

Flagrante cumplicidade

Dani Pedroza
BLOGUEIRA CONVIDADA

- E aí, doutora? Como está a minha situação?

- Você conhece o procedimento quase tão bem quanto eu. Quantas vezes já foi preso nas mesmas condições?

- Essa é a sétima vez.

- Pois então. Já sabe tudo o que vai acontecer, não?

- A senhora acha que demora muito a me soltar dessa vez?

- Eu vou primeiro conversar com o delegado, depois começo a fazer previsões.

- As coisas estão feias pro meu lado, né? Pode falar, doutora. A senhora sabe que sou macaco velho.

- Justamente por isso que não entendo você. Tantos anos nessa vida e ainda dá um mole desses?

- Doutora, a senhora pode ser advogada só escrevendo petições? Consegue ficar na segurança de seu escritório entre seus livros? Não tem que dar a cara a bater nas audiências? Se expor?

- E daí?

- E daí que cada profissão tem seus riscos. O risco da minha é a prisão. Faz parte.

- Desde quando estelionato é profissão?

- É a única coisa que sei fazer. É o que eu faço melhor do que os outros. Onde me sinto o melhor. E é o que paga meus desejos, meus vícios, meu sustento.

- Aptidão e satisfação.

- O que foi?

- Nada, só estava pensando alto. Continue.

- Pois é isso, doutora. A senhora usa seu talento e seu esforço pra conseguir sobreviver, eu faço o mesmo.

- Você só esqueceu de um detalhe. Todas as profissões têm uma função social. Elas servem de alguma forma pra contribuir com as outras pessoas, cada um se especializa em alguma coisa e oferece aos outros. Como se fosse um escambo de aptidões.

- Um o quê?

- Escambo, troca.

- Ah sim. Ouvi dizer que antigamente as pessoas trocavam o que plantavam com as outras. Um plantava milho, outro feijão, daí eles trocavam.

- Pois então. Hoje em dia, trocamos aptidões. Um sabe tratar de doentes, outro sabe construir casas, e cada um "vende" o que sabe fazer pra que todos vivam melhor.

- Entendi o raciocínio. Estelionatário não torna a vida de ninguém melhor.

- O que você faz é justamente prejudicar a vida em sociedade, à medida que você engana alguém pra ficar com o que é dele, além de causar um dano àquela pessoa, você gera uma sensação de insegurança e desconfiança nos outros, que começam a sentir que precisam se defender a qualquer custo porque podem ser as próximas vítimas. Isso cria toda uma desordem social, entende?

- A senhora tem razão. Eu não contribuo mesmo pra esse "meio social". Sabe por que, doutora? Porque ele também não me deu nada. Pra mim não existe mundo social, existe mundo cão, onde é cada um por si. Olha, doutora, não sou um cara ruim, sei reconhecer quando alguém me faz um favor. Mas eu não faço parte desse meio social, ele nunca fez nada por mim. E nem eu me sinto na obrigação de fazer alguma coisa por ele.

- Talvez seja principalmente por isso que anos de cadeia não conseguiram te ressocializar. Você nunca foi nem socializado. Mas eu ainda não entendo uma coisa. Como você se deixou pegar de novo?

- Doutora, o destino do estelionatário é a cana. Eu nunca quis juntar dinheiro. A senhora estuda, lê, fica cada vez mais instruída porque é essa a sua maneira de conquistar o seu lugar, de se fazer aceitar e respeitar pelos outros. Eu roubo pra comprar essas mesmas coisas.

- O seu discurso é muito bonito, mas há diversas formas menos prejudiciais a você mesmo e aos outros de conseguir o que quer.

- A sua, por exemplo?

- A minha, por exemplo.

- A senhora põe gente como eu na rua.

- Eu, não senhor. Eu ofereço a pessoas como você o direito de ter uma defesa competente. Há o Ministério Público pra tentar provar que você é culpado se assim entender. E, no fim das contas, quem decide é o juiz.

- O seu discurso é muito bonito, mas...

- rs... Você é muito bom na argumentação... Imagino que seja assim que você consegue enganar suas vítimas.

- Não somos tão diferentes quanto pode parecer à primeira vista, não é mesmo, doutora?

Dani Pedroza pode ser encontrada aqui.

14.1.10

Parabéns!

Chico PF
(Francisco Paula Freitas)


Amigo,

Quando foi, diga a verdade, que passou pela sua cabeça que chegar aos 70 fosse tão rápido?

Se basta uma rápida virada no pescoço, ou um breve fechar dos olhos para, na mesma hora, termos 10, 15 ou 25, isso que o tempo faz me cheira a traição e me deixa bobo. Como é que pode?...

Que o tempo iria passar, sabíamos. Mas não iria ser assim tão ligeiro. Mais: quando chegássemos lá, não era para ter o que se tem agora. Seria algo diferente, igual ao que víamos nos outros, nos velhos da vida que existem quando a gente é pequeno. Neles supúnhamos existir a paz, a calma, o descanso, a bonomia e uma certa felicidade. Dever cumprido, imaginávamos. De certa forma, desejamos isso também. Hoje sabemos, não é verdade.

Aos 70, afinal o que você vê em você? Você vê o que o menino, que insiste em não nos abandonar e que não conseguimos deixar de ser, vê. E lá está ele — o que a toda hora vem para nos salvar — a resolver os problemas e a ver, por trás da nossa cara um tanto vincada, da mesma forma que víamos quando a cara era lisa, era outra. Outra? Então nossa cara já foi outra? É possível, mas só concordamos quando a vemos nos retratos desbotados. E a atual, como é? Essa, a das fotografias recentes, não é, eu garanto. Talvez a do espelho, a da hora da barba a que, preocupados com a lâmina, quase não vemos. Não, também não é essa. Nossa verdadeira cara é uma espécie de sombra, de memória, de lembrança de algo que fica entre a matéria e a vontade.

Somos sempre os mesmos, cara, alma, entranhas, tudo. Mudamos para os outros. Mas os que saberiam enxergar as diferenças, já não podem. Não acompanharam nossa mudança nem qualquer outra coisa. Se foram, nos deixaram a despeito de nós, que não os abandonamos...

Pais, tios e avós. Nós que um dia fomos filhos, sobrinhos e netos, hoje órfãos, fazemos o papel daqueles. Representamos hoje os que se foram, mas temos dificuldade em decorar o papel.

Vemos o tanto realizado, achamos pouco e vem à lembrança uma ou outra pequenina coisa que poderíamos ter feito... Por que tem de ser assim?

Não vou como os simplórios dizer que 70 anos é só o começo, é mais. Bem mais. Mas, cá entre nós, é muito pouco, é quase nada. Feche os olhos e confirme.

Entre os que não ficaram pelo caminho — somos poucos! — cada um vence a seu modo.

Um comprimido para as mazelas e um drinque para brindar a vida, sigamos. Com ceticismo e esperança, ir é o que resta.

Publicado em "Café e Bar Ponto Chic" - Editora Bertrand Brasil

4.1.10

27.12.09

A Filosofia como remédio

Dr. Mijaro Nomuro
DESEMPREGADO

Comprei um livro sensacional, "A Filosofia como remédio para o desemprego", de Jean-Louis Cianni, Editora BestSeller, baratinho, 18 pratas, até um desempregado pode comprar.

O autor tinha um baita emprego numa firma francesa, mas foi demitido. Pra família pensar que arrumou outro emprego, acorda todos os dias às 6, toma café e às 7 já tá no escritório de sua casa, com o computador ligado, para despistar, mas, na verdade, fica lendo e redescobre os livros de Filosofia de sua juventude, associando os antigos ensinamentos à sua precária situação atual.

Eu passei a fazer coisa semelhante, de uns meses pra cá. Minha mulher passa, me vê no computador e pensa que eu tô trabalhando.

Uma vez por dia, digo que vou atender um cliente. Vou é pra padaria, que tem várias mesas e lá faço um lanche demorado, enquanto assisto à sessão da tarde.

Depois volto e levo meu cão Nick pra passear pela cidade, ao anoitecer.

Meu psiquiatra me perguntou se eu queria que ele aumentasse a dose do remédio, mas eu disse que não. Só fico deprimido quando penso nas minhas sempre adiadas férias na Itália, ou na Praia de Copacabana, mas essa sensação só se acentua às segundas. No resto da semana, sigo a programação normal, sem grandes transtornos.

Gostaria, sim, de conhecer a Itália, desde que vi meu primeiro filme com Claudia Cardinale. Deve ser uma beleza ver de perto aqueles monumentos, o Coliseu, a Fontana di Trevi, Veneza e seus canais, Florença e seus museus, Sophia Loren e Maria Grazia Cuccinotta.

Como sempre fui pão-duro, posso me dar ao luxo de viver uns tempos sem salário, mas visitar a Itália agora me parece uma insanidade.

A única coisa que cortei das despesas foi a renovação da assinatura de uma revista. Não vou cortar a TV a cabo, ainda mais agora que "Combate", minha série favorita na infância, voltou ao ar pelo TCM, com um episódio no sábado e outro no domingo. Não perco nenhum e ainda gravo tudo.

Fui tentar minha aposentadoria, mas a dona que me atendeu lá no INSS, enquanto espirrava laquê no cabelo, doida pra ir embora, foi logo avisando que eu ia receber uma merreca por mês, "culpa do Fernando Henrique":

- Quem se aposentou até 1998 tá numa boa, colega! Depois disso, sifu! Um mendigo de porta de botequim fatura mais que um aposentado. Quer um conselho? Vai lavar pratos, fazer alguma coisa até os 65 anos, ou então roube um banco.

Trouxe essa dúvida pra casa. O estranho é que, à noite, passou "Como roubar um milhão de dólares" na TV a cabo.

O que foi mais um motivo pra não cortar minha assinatura. Anotei umas dicas. Agora só falta saber o que vai dar no meu teste vocacional. Vou começar tudo de novo, já que não existe emprego na minha área, então vou tentar ver se sei fazer outra coisa. A mulher que me atendeu, olhando pra minha cara de quarentão ("que retardado!"), disse que deve conseguir marcar pros próximos 20 dias.

Eu espero. Não tenho nada pra fazer mesmo.

Bom, vou continuar lendo o livro. Que recomendo!

Dr. Mijaro Nomuro trabalhava com o dr. Fugiro Nakombi. Mas os dois foram demitidos.

12.12.09

Padre recebe homenagem de comunidade

Apulcro Mambojambo
ENVIADO ESPECIAL


O padre Manoel Pereira de Assis foi agraciado com um jantar em homenagem aos seus 35 anos de trabalho ininterrupto à frente da paróquia de São Bartolomeu do Reino de Deus.

Um renomado político, estimado membro da sociedade local, foi convidado para entregar um presente e fazer um breve discurso de agradecimento.

O político se atrasou e o sacerdote, então, decidiu proferir umas palavras:

“A primeira impressão que tive desta paróquia não foi boa. Pensei que o bispo tinha me enviado a um lugar terrível, pois a primeira pessoa que se confessou comigo me disse que tinha roubado um aparelho de TV, que tinha roubado dinheiro dos seus pais, também tinha roubado a firma onde trabalhava, além de ter aventuras amorosas com a esposa do chefe e se dedicar ao tráfico de drogas.

“Fiquei assustadíssimo… Mas, com o passar do tempo, entretanto, fui conhecendo mais gente que em nada se parecia com aquele homem… Inclusive vivi a realidade de uma paróquia cheia de gente responsável, com valores, comprometida com sua fé e, desta maneira, tenho vivido os anos mais maravilhosos do meu sacerdócio”.

Justo neste momento chegou o político, a quem foi passada a palavra para entregar o presente da comunidade.

Pediu desculpas pelo atraso e começou o discurso dizendo:

“Nunca vou esquecer o dia em que o padre chegou à nossa paróquia… Como poderia? Tive a honra de ser o primeiro a me confessar com ele…”

28.11.09

Conversa na Redação

Redação. Noite. Entram Gudesteu e Lana.

Gudesteu: - Descobri que minha mulher é uma grande mentirosa.

Lana: - É? E por que você acha isso?

Gudesteu: - Ela não apareceu em casa ontem à noite e, quando perguntei por onde andou, inventou que estava com a irmã dela.

Lana: - E não estava?

Gudesteu: - Claro que não! Quem passou a noite com a irmã dela fui eu!

14.11.09

As desventuras de Anselmo, o boêmio

Regina Lewinsky
CORRESPONDENTE

Anselmo era um sujeito casado, mas, também, boêmio e mulherengo de carteirinha. Sempre que tinha uma chance, "aprontava", entregando-se a homéricas farras, o que fazia a sua infeliz consorte(?) se descabelar e viver no seu encalço, sempre que possível.

Em uma de suas furtivas noites de orgia, depois de tomar todas com colegas de trabalho, num pouco recomendável barzinho da periferia, cada um arranjou uma parceira e saíram em caravana pra a beira-mar; dois casais em cada carro, com a "inocente" finalidade de assistir "corrida de submarino", num tempo em que essa prática não significava, ainda, um risco de vida.

E foi um tal de pernas, braços e cabeças a se engalfinharem naquele pequeno espaço, em frontal desafio à Lei de Newton ... uma verdadeira promiscuidade!

Ao raiar o dia, percebeu, horrorizado, que havia extrapolado o limite do horário de chegar em casa ainda com uma desculpa razoável e, desfazendo-se das sua parceira, rumou pro seu lar, "bolando" uma justificativa possível pra aquele execrável ato. Ao aproximar-se de casa, desde longe Anselmo vislumbrou o seu mais temível pesadelo: lá estavam, alinhadas que nem meio-fio, sua esposa e ninguém menos que a sua temível sogra, contumaz desafeta, que nunca entendeu o porquê da filha ter escolhido "semelhante cafajeste pra marido, quando havia tido tantos pretendentes tão mais aceitáveis antes dele".

O cara gelou, quando viu o que o aguardava: as duas, de "mãos nos quartos", balançando uma das pernas, numa ameaçadora coreografia sincronizada, com aquelas caras de quem está prestes a explodir (só faltava o fatídico rodo nas mãos), o fulminavam com olhares nada compreensivos.

Dentre todos os impropérios que ouviu, enquanto fechava o carro, só uma frase o fez estremecer: "Vamos chegar atrasadas no casamento!" ... Foi aí que ele lembrou: logo mais, às 9 horas, o casal estava escalado para apadrinhar o casamento de uma das irmãs da esposa e o evento iria se realizar numa cidadezinha a uns 200 km dali!

O miserável quis morrer! Com aquela ressaca, aquele gosto de brecha de tamborete e de cabo de guarda-chuva na boca, um sono de matar e a cabeça a ponto de estourar, ainda tinha que se por lindo e loiro, todo engravatado, em um recinto em que estaria presente toda a família dela (que, não por acaso, não o via com bons olhos). ERA A MORTE!

Aproveitando-se do pouco tempo que tinha pra se arrumar e tentar se recompor, passou pelas duas feito uma bala, sem dar a mínima satisfação, se fingindo preocupado com o adiantado da hora. Entrou embaixo do chuveiro, gargarejou um desinfetante bucal, pra disfarçar o bafo de onça, arrumou-se todo, perfumou-se e entrou no carro, onde as duas já haviam se aboletado, pensando na desagradável cantilena que iria escutar durante todo o percurso, o que, com efeito, aconteceu.

Tentando desenvolver a velocidade máxima, pra abafar as impiedosas vozes das duas, sentiu alguma coisa impedindo-o de acelerar. Foi aí que ele petrificou: ao dar uma espiada pra baixo, vislumbrou um sapato de mulher! Pronto. Estava perdido! Como defender-se do indefensável, agora que aquele inanimado objeto, silenciosamente, "entregava" sua abominável traquinagem?

Como todo bom malandro, logo teve uma idéia: inventou que o carro estava apresentando um problema, diminuiu a marcha, abriu a porta, fingindo olhar o pneu traseiro e arremeteu no acostamento a prova do crime. Oh! Que alívio! Agora podia seguir a viagem sem mais atropelos que não o blá-blá-blá daquelas duas! Chegou à igreja a tempo de ver que o carro que conduzia a noiva ainda adentrava o pátio. Apressado, dirigiu-se à entrada lateral, quando viu que as suas companheiras de viagem sequer haviam ainda saído do carro ...

"Ora, bolas!" - resmungou - "Essas duas com tanta pressa e ficam ali, só falando mal de mim". Voltou, já com ares de quem ia repreendê-las pela demora, mas parou e deu meia-volta, rindo cínicamente entredentes, quando ouviu o seguinte diálogo:

- Mamãe, é claro que a senhora esqueceu! Como é que o seu sapato poderia sumir daqui, se a senhora nem saiu do carro???

- Minha filha, eu num tô doida, não ... Me responda como é que eu iria me arrumar todinha e calçar um sapato só, sem notar a falta do outro pé? Isso é um fenômeno inexplicável! E agora, como é que eu vou entrar na igreja? Vou perder o casamento da minha filha pela falta de um sapato. Que absurdo!!!

Regina Lewinsky também pode ser encontrada aqui.

1.11.09

Baile na casa do Aristides

Ivani Cunha
JORNALISTA CONVIDADO

Deixo a memória viajar até os anos 50: Vila Nova Esperança, região Nordeste de Belo Horizonte. As crianças andavam descalças ou usavam tamanco de madeira e, de uma forma ou de outra, estavam expostas aos escorpiões de agosto, que na minha casa fizeram uma vítima.

A vida era calma e haveria tédio se não tivéssemos um vizinho chamado Aristides, ou Aristides da Margarida – era assim que as pessoas se referiam aos casais na Belo Horizonte da periferia, onde se reproduziam os costumes do interior mineiro. Podia ser também a Margarida do Aristides, mas é dele, o “Tide”, que estou falando, sem desmerecer nem um pouco a mulher.

Éramos vizinhos divididos por uma cerca de arame farpado, que em certas épocas se cobria de ora-pro-nóbis e, em outras, de incontroláveis trepadeiras selvagens. Muros eram dispensáveis naquele tempo. Mas eu acho que às vezes o Aristides preferia que houvesse um bom muro, fácil de escalar, em vez de uma cerca entre os dois lotes. Ele devia pensar assim nas madrugadas em que era obrigado a fugir da própria casa, sob a ameaça de um convidado pé-de-valsa sob efeito do álcool.

Alguns bailes na casa do Aristides por pouco não se transformavam em tragédia. Nosso vizinho promovia pelo menos um arrasta-pé por mês. À noitinha começavam a chegar os casais: as mulheres com os cabelos armados, saias rodadas e boleros bem justos, algumas com uma pinta na face ou no queixo, que era moda; seus acompanhantes, de paletó e gravata, alguns caprichando no linho, podiam pentear os cabelos mirando-se nos bem lustrados sapatos de bico fino.

Essa parte da vila ainda não desfrutava o conforto da energia elétrica, mas sempre havia um grupo de músicos para animar os bailes do Tide, que também dominava o seu instrumento, um reluzente trombone de vara. À luz de lampiões e lamparinas, e irrigados por boa cana e outras bebidas fortes, os casais deslizavam sobre o piso de tijolo areado ao som de boleros, tangos, foxtrotes, rumbas, sambas-canções e outros ritmos.

Ficávamos lá em casa à espera do grito do Aristides:

“Padrinho, me acode que vão me matar.” Meu pai, padrinho de casamento dele, ia até à porta da cozinha para esperá-lo ou corria ao quintal para ajudá-lo a pular a cerca. Depois escondia o afilhado e lhe passava o sermão de sempre:
“Aristides, tenha juízo, um dia você não vai conseguir fugir para cá. Pense nisso. Você tem mulher e filho. Olhe que a bebida só traz complicação...”

Antes do amanhecer, os convidados se despediam, e durante algum tempo ainda se ouviam, bem longe, as notas de uma flauta, quem sabe de um dos músicos que passaram a madrugada tocando. Aristides prometia que no próximo baile seria diferente, com bebida sob controle e nada de briga. Ninguém acreditava.

Algumas horas depois o homem estava bem disposto outra vez, ensaiando alguns acordes no trombone ou treinando em frente da casa uns perdigueiros para ajudá-lo nas caçadas ou render-lhe alguns trocados. À tardinha, o canto das cigarras era quebrado pelo tropel de um cavalo. A poeira vermelha escondia o cavaleiro, mas era sempre ele, o Tide, montado no animal em pelo.

Estava novamente alterado pelo álcool que fora servido de má vontade no bar do Benedito Antão ou no armazém do Antônio Melgaço, que conheciam bem o freguês. O cavalo percorre num galope a rua esburacada, o cavaleiro grita, bate os calcanhares na barriga do animal, balança, escorrega até quase o pescoço do bicho, mas não cai. As mães recolhem os filhos, e a minha diz para a amiga que a visita: “Ele é boa pessoa, não devia beber. Tenho pena da Margarida...”

Aristides era um bom sujeito de verdade, apenas cometia suas pequenas loucuras. Com seus bailes, perdigueiros e exibições de cavaleiro pela esburacada rua Dália, atual Rua Margarida Prachedes, divertia as pessoas e ajudava a empurrar o tempo naquela época em que o mundo era pouco maior do que os nossos quintais.

Mas eu pretendia escrever mesmo era uma crônica sobre um garimpeiro que me pagou apenas a metade do combinado pela revisão de suas histórias.

Que o diabo o carregue!

Ivani Cunha é jornalista em Belo Horizonte