lobo e lua

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1.11.09

Baile na casa do Aristides

Ivani Cunha
JORNALISTA CONVIDADO

Deixo a memória viajar até os anos 50: Vila Nova Esperança, região Nordeste de Belo Horizonte. As crianças andavam descalças ou usavam tamanco de madeira e, de uma forma ou de outra, estavam expostas aos escorpiões de agosto, que na minha casa fizeram uma vítima.

A vida era calma e haveria tédio se não tivéssemos um vizinho chamado Aristides, ou Aristides da Margarida – era assim que as pessoas se referiam aos casais na Belo Horizonte da periferia, onde se reproduziam os costumes do interior mineiro. Podia ser também a Margarida do Aristides, mas é dele, o “Tide”, que estou falando, sem desmerecer nem um pouco a mulher.

Éramos vizinhos divididos por uma cerca de arame farpado, que em certas épocas se cobria de ora-pro-nóbis e, em outras, de incontroláveis trepadeiras selvagens. Muros eram dispensáveis naquele tempo. Mas eu acho que às vezes o Aristides preferia que houvesse um bom muro, fácil de escalar, em vez de uma cerca entre os dois lotes. Ele devia pensar assim nas madrugadas em que era obrigado a fugir da própria casa, sob a ameaça de um convidado pé-de-valsa sob efeito do álcool.

Alguns bailes na casa do Aristides por pouco não se transformavam em tragédia. Nosso vizinho promovia pelo menos um arrasta-pé por mês. À noitinha começavam a chegar os casais: as mulheres com os cabelos armados, saias rodadas e boleros bem justos, algumas com uma pinta na face ou no queixo, que era moda; seus acompanhantes, de paletó e gravata, alguns caprichando no linho, podiam pentear os cabelos mirando-se nos bem lustrados sapatos de bico fino.

Essa parte da vila ainda não desfrutava o conforto da energia elétrica, mas sempre havia um grupo de músicos para animar os bailes do Tide, que também dominava o seu instrumento, um reluzente trombone de vara. À luz de lampiões e lamparinas, e irrigados por boa cana e outras bebidas fortes, os casais deslizavam sobre o piso de tijolo areado ao som de boleros, tangos, foxtrotes, rumbas, sambas-canções e outros ritmos.

Ficávamos lá em casa à espera do grito do Aristides:

“Padrinho, me acode que vão me matar.” Meu pai, padrinho de casamento dele, ia até à porta da cozinha para esperá-lo ou corria ao quintal para ajudá-lo a pular a cerca. Depois escondia o afilhado e lhe passava o sermão de sempre:
“Aristides, tenha juízo, um dia você não vai conseguir fugir para cá. Pense nisso. Você tem mulher e filho. Olhe que a bebida só traz complicação...”

Antes do amanhecer, os convidados se despediam, e durante algum tempo ainda se ouviam, bem longe, as notas de uma flauta, quem sabe de um dos músicos que passaram a madrugada tocando. Aristides prometia que no próximo baile seria diferente, com bebida sob controle e nada de briga. Ninguém acreditava.

Algumas horas depois o homem estava bem disposto outra vez, ensaiando alguns acordes no trombone ou treinando em frente da casa uns perdigueiros para ajudá-lo nas caçadas ou render-lhe alguns trocados. À tardinha, o canto das cigarras era quebrado pelo tropel de um cavalo. A poeira vermelha escondia o cavaleiro, mas era sempre ele, o Tide, montado no animal em pelo.

Estava novamente alterado pelo álcool que fora servido de má vontade no bar do Benedito Antão ou no armazém do Antônio Melgaço, que conheciam bem o freguês. O cavalo percorre num galope a rua esburacada, o cavaleiro grita, bate os calcanhares na barriga do animal, balança, escorrega até quase o pescoço do bicho, mas não cai. As mães recolhem os filhos, e a minha diz para a amiga que a visita: “Ele é boa pessoa, não devia beber. Tenho pena da Margarida...”

Aristides era um bom sujeito de verdade, apenas cometia suas pequenas loucuras. Com seus bailes, perdigueiros e exibições de cavaleiro pela esburacada rua Dália, atual Rua Margarida Prachedes, divertia as pessoas e ajudava a empurrar o tempo naquela época em que o mundo era pouco maior do que os nossos quintais.

Mas eu pretendia escrever mesmo era uma crônica sobre um garimpeiro que me pagou apenas a metade do combinado pela revisão de suas histórias.

Que o diabo o carregue!

Ivani Cunha é jornalista em Belo Horizonte

22 comentários:

Barbara disse...

Ah...fui junto com o texto.
Valeu mesmo!

Desabafando disse...

Gostei do texto!

JuJu disse...

Vai ver que o Aristides fora tão notável que roubou a cena do garimpeiro caloteiro!
...
Passe lá no meu blog e deixe seu comentário!!!

Simples Assim... disse...

O que me faz sempre voltar aqui é a versatilidade. Um dia uma crítica ferina camuflada num humor despretensioso, outro dia um post leve feito piada de criança, no outro um texto doce cheio de lembranças e encantos. Uma coisa nunca muda. O bom gosto. O seu espaço tem mesmo sua cara, querido. Bjs !!!

Simples Assim... disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luciana P. disse...

Que delícia de história. Fez-me lembrr de algumas coisas também de época, da minha época de adolescência em que as coisas eram mais calmas, ou mais ingênuas, não sei. Sei apenas que eram diferentes, parece-me que mais autênticas.
Adorei essa parte: "divertia as pessoas e ajudava a empurrar o tempo naquela época em que o mundo era pouco maior do que os nossos quintais". Lindo isso, e verdadeiro.
Parabéns ao autor. Merece louvores pela autenticidade do texto e da boa memória.

Beijos, Bill!

Fee disse...

Lembrei-me da leitura de "Aquarelas do Brasil". A música está sempre nas melhores histórias. Gostei muito do texto.

Beijos

Carolina disse...

Aha muito bom o texto, Bill.
Tudo bem por aqui, meu bem?

bjão

paulo disse...

Quem sabe algum dia conseguirás cobrar o que te devem...

Cinthia Machado disse...

viajo demaais no teu blog. :)
beeijo

Ava disse...

Bill!

Saudades!


Quanto a história, que viagem a gente faz...

Uma Belo Horizonte que era pura magia...
Me lembro bem dessas cercas de ora-pro-nóbis...rsrs

Saudades dos tempos que tinha-mos bailes assim...

E Existiam muitos Aristides...muitos...rs

*Natália* disse...

Nossa, eu adoro os anos 50!
Acho tão mágiiico !

beiijos

Tiffany disse...

tava com saudade daqui..como sempre seus textos são muito divertidos!
Obrigada pelas boas risadas haha

Tem novo post no blog!

Beijos.

Lu Dantas disse...

Olá! Gostei, viu! Um beijão!

Kamilla Barcelos disse...

Com sou do interior de Minas faz parte da minha realidade chamar "Aristides da Margarida"! hahahaha
Gostei muito do texto, essa atmosfera mineira me encanta muito!

Luciana P. disse...

Tá, tudo bem, você me respondeu, mas então por que você colocou no seu perfil "só sertanejas", hahahahaha, acho que só desenhando porque eu não entendi. Mas como sou curiosa demais, perguntei de novo, rsrsrs...
E sobre não falar a verdade 100% no blog, eu também não falo. Se assim fosse, que graça teria? Onde iriam parar a imaginação, a viagem literária, a licença poética, etc, etc, etc...
Justamente, quem tem uma página é pra extravasar e soltar todos os bichos, já que não dá pra fazer isso na real, né não?

Beijos, Bill, um ótimo dia pra vc.

Sheherazade disse...

Oi, Bill!
Tô de volta daquela terra maravilhosa de tantas saudades. E por falar em saudade, amei o texto da Ivani, que retrata bem o que acontecia no interior de Minas e ao mesmo tempo em todo o interior do Brasil. Esse negócio de chamar as pessoas de "Fulano de Fulana" é bem característico dessas plagas. Aproveitei pra dar uma sapeada nos demais pôsteres e não posso deixar de aplaudir o do "Vagabundo Social", sem desmerecer os outros, é claro, porque aqui só tem coisa boa de se ler.
Beijo saudoso!

Grace Olsson disse...

Texto maravilhoso..E que me dá MAIS CORAGEM D EENTRASR NUMA VIAO E IR AO BRASIL..AMANHA...BJS E DIAS FELIZES

lpzinho disse...

Que bárbaro este texto, Bill!
É praticamente um filme, um daqueles em preto e branco, com trilha sonora que mexe com a alma e coração..e imagens que a gente persegue com os olhos buscando lugares, pessoas, lembranças de nós mesmos ein!
Parabéns.... reminiscências, recordações... nada disso é passado qdo se vive bem e feliz no presente... isso são memórias de alegrias, saudades a gente só sente do que viveu!!
Parabéns mesmoooooo.. show!!
Devia virar filme!

Ana Paula disse...

Eu amo Belo Horizonte!

Nathália :) disse...

O texto é muito longo, mas consegui ler tudo :P muuito lindo mesmo!

Sueli disse...

Ahhhh... vai er que o Aristides da Margarida pagou mais, nééééé?..... rs