14.11.09

As desventuras de Anselmo, o boêmio

Regina Lewinsky
CORRESPONDENTE

Anselmo era um sujeito casado, mas, também, boêmio e mulherengo de carteirinha. Sempre que tinha uma chance, "aprontava", entregando-se a homéricas farras, o que fazia a sua infeliz consorte(?) se descabelar e viver no seu encalço, sempre que possível.

Em uma de suas furtivas noites de orgia, depois de tomar todas com colegas de trabalho, num pouco recomendável barzinho da periferia, cada um arranjou uma parceira e saíram em caravana pra a beira-mar; dois casais em cada carro, com a "inocente" finalidade de assistir "corrida de submarino", num tempo em que essa prática não significava, ainda, um risco de vida.

E foi um tal de pernas, braços e cabeças a se engalfinharem naquele pequeno espaço, em frontal desafio à Lei de Newton ... uma verdadeira promiscuidade!

Ao raiar o dia, percebeu, horrorizado, que havia extrapolado o limite do horário de chegar em casa ainda com uma desculpa razoável e, desfazendo-se das sua parceira, rumou pro seu lar, "bolando" uma justificativa possível pra aquele execrável ato. Ao aproximar-se de casa, desde longe Anselmo vislumbrou o seu mais temível pesadelo: lá estavam, alinhadas que nem meio-fio, sua esposa e ninguém menos que a sua temível sogra, contumaz desafeta, que nunca entendeu o porquê da filha ter escolhido "semelhante cafajeste pra marido, quando havia tido tantos pretendentes tão mais aceitáveis antes dele".

O cara gelou, quando viu o que o aguardava: as duas, de "mãos nos quartos", balançando uma das pernas, numa ameaçadora coreografia sincronizada, com aquelas caras de quem está prestes a explodir (só faltava o fatídico rodo nas mãos), o fulminavam com olhares nada compreensivos.

Dentre todos os impropérios que ouviu, enquanto fechava o carro, só uma frase o fez estremecer: "Vamos chegar atrasadas no casamento!" ... Foi aí que ele lembrou: logo mais, às 9 horas, o casal estava escalado para apadrinhar o casamento de uma das irmãs da esposa e o evento iria se realizar numa cidadezinha a uns 200 km dali!

O miserável quis morrer! Com aquela ressaca, aquele gosto de brecha de tamborete e de cabo de guarda-chuva na boca, um sono de matar e a cabeça a ponto de estourar, ainda tinha que se por lindo e loiro, todo engravatado, em um recinto em que estaria presente toda a família dela (que, não por acaso, não o via com bons olhos). ERA A MORTE!

Aproveitando-se do pouco tempo que tinha pra se arrumar e tentar se recompor, passou pelas duas feito uma bala, sem dar a mínima satisfação, se fingindo preocupado com o adiantado da hora. Entrou embaixo do chuveiro, gargarejou um desinfetante bucal, pra disfarçar o bafo de onça, arrumou-se todo, perfumou-se e entrou no carro, onde as duas já haviam se aboletado, pensando na desagradável cantilena que iria escutar durante todo o percurso, o que, com efeito, aconteceu.

Tentando desenvolver a velocidade máxima, pra abafar as impiedosas vozes das duas, sentiu alguma coisa impedindo-o de acelerar. Foi aí que ele petrificou: ao dar uma espiada pra baixo, vislumbrou um sapato de mulher! Pronto. Estava perdido! Como defender-se do indefensável, agora que aquele inanimado objeto, silenciosamente, "entregava" sua abominável traquinagem?

Como todo bom malandro, logo teve uma idéia: inventou que o carro estava apresentando um problema, diminuiu a marcha, abriu a porta, fingindo olhar o pneu traseiro e arremeteu no acostamento a prova do crime. Oh! Que alívio! Agora podia seguir a viagem sem mais atropelos que não o blá-blá-blá daquelas duas! Chegou à igreja a tempo de ver que o carro que conduzia a noiva ainda adentrava o pátio. Apressado, dirigiu-se à entrada lateral, quando viu que as suas companheiras de viagem sequer haviam ainda saído do carro ...

"Ora, bolas!" - resmungou - "Essas duas com tanta pressa e ficam ali, só falando mal de mim". Voltou, já com ares de quem ia repreendê-las pela demora, mas parou e deu meia-volta, rindo cínicamente entredentes, quando ouviu o seguinte diálogo:

- Mamãe, é claro que a senhora esqueceu! Como é que o seu sapato poderia sumir daqui, se a senhora nem saiu do carro???

- Minha filha, eu num tô doida, não ... Me responda como é que eu iria me arrumar todinha e calçar um sapato só, sem notar a falta do outro pé? Isso é um fenômeno inexplicável! E agora, como é que eu vou entrar na igreja? Vou perder o casamento da minha filha pela falta de um sapato. Que absurdo!!!

Regina Lewinsky também pode ser encontrada aqui.

1.11.09

Baile na casa do Aristides

Ivani Cunha
JORNALISTA CONVIDADO

Deixo a memória viajar até os anos 50: Vila Nova Esperança, região Nordeste de Belo Horizonte. As crianças andavam descalças ou usavam tamanco de madeira e, de uma forma ou de outra, estavam expostas aos escorpiões de agosto, que na minha casa fizeram uma vítima.

A vida era calma e haveria tédio se não tivéssemos um vizinho chamado Aristides, ou Aristides da Margarida – era assim que as pessoas se referiam aos casais na Belo Horizonte da periferia, onde se reproduziam os costumes do interior mineiro. Podia ser também a Margarida do Aristides, mas é dele, o “Tide”, que estou falando, sem desmerecer nem um pouco a mulher.

Éramos vizinhos divididos por uma cerca de arame farpado, que em certas épocas se cobria de ora-pro-nóbis e, em outras, de incontroláveis trepadeiras selvagens. Muros eram dispensáveis naquele tempo. Mas eu acho que às vezes o Aristides preferia que houvesse um bom muro, fácil de escalar, em vez de uma cerca entre os dois lotes. Ele devia pensar assim nas madrugadas em que era obrigado a fugir da própria casa, sob a ameaça de um convidado pé-de-valsa sob efeito do álcool.

Alguns bailes na casa do Aristides por pouco não se transformavam em tragédia. Nosso vizinho promovia pelo menos um arrasta-pé por mês. À noitinha começavam a chegar os casais: as mulheres com os cabelos armados, saias rodadas e boleros bem justos, algumas com uma pinta na face ou no queixo, que era moda; seus acompanhantes, de paletó e gravata, alguns caprichando no linho, podiam pentear os cabelos mirando-se nos bem lustrados sapatos de bico fino.

Essa parte da vila ainda não desfrutava o conforto da energia elétrica, mas sempre havia um grupo de músicos para animar os bailes do Tide, que também dominava o seu instrumento, um reluzente trombone de vara. À luz de lampiões e lamparinas, e irrigados por boa cana e outras bebidas fortes, os casais deslizavam sobre o piso de tijolo areado ao som de boleros, tangos, foxtrotes, rumbas, sambas-canções e outros ritmos.

Ficávamos lá em casa à espera do grito do Aristides:

“Padrinho, me acode que vão me matar.” Meu pai, padrinho de casamento dele, ia até à porta da cozinha para esperá-lo ou corria ao quintal para ajudá-lo a pular a cerca. Depois escondia o afilhado e lhe passava o sermão de sempre:
“Aristides, tenha juízo, um dia você não vai conseguir fugir para cá. Pense nisso. Você tem mulher e filho. Olhe que a bebida só traz complicação...”

Antes do amanhecer, os convidados se despediam, e durante algum tempo ainda se ouviam, bem longe, as notas de uma flauta, quem sabe de um dos músicos que passaram a madrugada tocando. Aristides prometia que no próximo baile seria diferente, com bebida sob controle e nada de briga. Ninguém acreditava.

Algumas horas depois o homem estava bem disposto outra vez, ensaiando alguns acordes no trombone ou treinando em frente da casa uns perdigueiros para ajudá-lo nas caçadas ou render-lhe alguns trocados. À tardinha, o canto das cigarras era quebrado pelo tropel de um cavalo. A poeira vermelha escondia o cavaleiro, mas era sempre ele, o Tide, montado no animal em pelo.

Estava novamente alterado pelo álcool que fora servido de má vontade no bar do Benedito Antão ou no armazém do Antônio Melgaço, que conheciam bem o freguês. O cavalo percorre num galope a rua esburacada, o cavaleiro grita, bate os calcanhares na barriga do animal, balança, escorrega até quase o pescoço do bicho, mas não cai. As mães recolhem os filhos, e a minha diz para a amiga que a visita: “Ele é boa pessoa, não devia beber. Tenho pena da Margarida...”

Aristides era um bom sujeito de verdade, apenas cometia suas pequenas loucuras. Com seus bailes, perdigueiros e exibições de cavaleiro pela esburacada rua Dália, atual Rua Margarida Prachedes, divertia as pessoas e ajudava a empurrar o tempo naquela época em que o mundo era pouco maior do que os nossos quintais.

Mas eu pretendia escrever mesmo era uma crônica sobre um garimpeiro que me pagou apenas a metade do combinado pela revisão de suas histórias.

Que o diabo o carregue!

Ivani Cunha é jornalista em Belo Horizonte

24.10.09

Famosas últimas palavras

“Atira, se for homem!”

“Deixa comigo”

“Atravessa correndo que dá”

“Ah, não se preocupe: o que não mata, engorda”

“Fica tranqüilo, este alicate é isolado”

“Sabe qual a chance disso acontecer? Uma em um milhão”

“Essa camisa do Cruzeiro não é minha não….Eu sou atleticano como vocês”

“Adoro essas ruas, são super tranquilas”

“Tem certeza que não tem perigo?”

“Meu sonho sempre foi saltar de paraquedas. E neste instante vou realizá-lo. E eu mesmo o dobrei!”

“Confie em mim”

“Aqui é o piloto. Vamos passar por uma leve turbulência”

“Capacete? Imagina, tá calor”

“Eu sempre mudei a temperatura do chuveiro com ele ligado. Não ia ser hoje que alguma coisa iria acontecer”

“Desce desse ônibus e me encara de frente, sua bicha!”

”Eu sei nadar, não se preocupe”

“Kung-Fu nada. Eu vou acabar com você”

“Vamos lá que não tem erro”

“Pode mexer. É pitbull, mas é mansinho”

“Posso ver uma luz no fim do túnel”

“BÚÚÚÚÚÚÚÚÚ! Vovó, te assustei? Vovóóóóóóóóó!!!!!!”

11.10.09

Chat adolescente

Vagabundo Social
BLOGUEIRO CONVIDADO


Zahovic_10 – oi

]TixaWinda[ - oi

Zahovic_10 – td bem?

]TixaWinda[ - sim e ctg?

Zahovic_10 – tb

Zahovic_10 – ddtc?

]TixaWinda[ - avr

]TixaWinda[ - e tu?

Zahovic_10 – lx

Zahovic_10 – idd?

]TixaWinda[ - 14

]TixaWinda[ - tu?

Zahovic_10 – 16

Zahovic_10 – nome?

]TixaWinda[ - Patrícia

]TixaWinda[ - e tu?

Zahovic_10 – rui

Zahovic_10 – tens foto?

]TixaWinda[ - xim e tu?

Zahovic_10 – s

Zahovic_10 – podes enviar?

]TixaWinda[ - enviah tu primeiruh

Zahovic_10 – pk?

]TixaWinda[ - n te conhexo…

Zahovic_10 – como é keu sei k depois envias?

]TixaWinda[ - eu enviuh

Zahovic_10 – mas eu pedi primeiro :(

]TixaWinda[ - alturah e peso?

Zahovic_10 – lol

Zahovic_10 – 1,68 de altura

Zahovic_10 – 62 kg

Zahovic_10 – e tu?

]TixaWinda[ - sou baixinhah…

]TixaWinda[ - 1,54m

]TixaWinda[ - nao gordah

Zahovic_10 – kor dos olhos e do kabelo?

]TixaWinda[ - cabelo caxtanho claruh e olhox caxtanhox esverdeadox

]TixaWinda[ - e tu?

Zahovic_10 – tenho kabelo meio loiro

Zahovic_10 – olhos azuis

]TixaWinda[ - goxto de olhox azuix

Zahovic_10 – dizes me o numero do sutiã?

]TixaWinda[ - 38

Zahovic_10 – tanto?

]TixaWinda[ - xim

Zahovic_10 – mandas me a foto?

]TixaWinda[ - ok

/Ficheiro recebido em C:\Documents and Settings\rui\Os meus documentos\As minhas imagens\Gajas\Euzinha4.jpeg

]TixaWinda[ - exa fotoh jah tem algum tempuh..

Zahovic_10 – es gira

]TixaWinda[ - ja n tenho o cabeluh axim

Zahovic_10 – mas fika-te bem como ta na foto

]TixaWinda[ - ;)

Zahovic_10 – que koisas gostas de fazer?

]TixaWinda[ - danxar, ouvir musicah, xair à noite, paxear à beira mar, ver telenovelax… :p

]TixaWinda[ - muita coisah e tu

Zahovic_10 – jogar futebol, ir kurtir kom o pessoal, fazer bodyboard, ouvir musika, tar na net e assim

Zahovic_10 – k musika ouves?

]TixaWinda[ - britney spears, shakirah, sandy e junior, henrique iglesias, eminem e maix algunx

Zahovic_10 – eu kurto limp bizkit, algumas de linkin park e de papa roach, eminem, tupac, marilyn manson, korn…

]TixaWinda[ - ok

]TixaWinda[ - manda-me a tuah fotoh

Zahovic_10 – ta bem vou procurar

]TixaWinda[ - falah

Zahovic_10 – keres falar de ke?

]TixaWinda[ - sexo tah bom pra ti?

Zahovic_10 – pode ser

Zahovic_10 – ainda és virgem?

]TixaWinda[ - querex fazer sexo virtual?

Zahovic_10 – ok komo é k se faz?

]TixaWinda[ - n sabex??

Zahovic_10 – virtual nao

]TixaWinda[ - tipuh: eu digo linguado

]TixaWinda[ - e tu a xeguir dizes outra coisah

Zahovic_10 – ok entao começa tu

]TixaWinda[ - max pera, ainda n me mandaxte a fotoh

Zahovic_10 – ainda n enkontrei, deve tar aki numa pasta klk

]TixaWinda[ - procurah

Zahovic_10 – mas vamos começando

]TixaWinda[ - nao

]TixaWinda[ - procurah

Zahovic_10 – oh tenho aki muitas imagens ja n sei onde a pus

*]TixaWinda[ saiu de #BaCanal

*]TixaWinda[ está offline

Zahovic_10 – puta

*não é possível enviar a mensagem porque ]TixaWinda[ está offline

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3.10.09

Pesquisa Millôr/Jornal da Lua

A questão foi levantada pelo Millôr, e o Jornal da Lua dá prosseguimento. Numa época em que se fala em legalização de tanta coisa, como maconha, casamento gay etc e etc, devemos também levar em conta um dos mais importantes tópicos da atualidade:

Você é a favor ou contra a legalização da corrupção?

26.9.09

Dr. Bruegel atende

Prezado dr. Bruegel: você não vale nada, mas eu gosto de você! Você não vale nada, mas eu gosto de você! Tudo que eu queria era saber por quê?!? Tudo que eu queria era saber por quê?!?

Você brincou comigo, bagunçou a minha vida. E esse sofrimento não tem explicação. Seu sangue é de barata, a boca é de vampiro. Um dia eu lhe tiro de vez do meu coração.
Eu quero ver você sofrer, só pra deixar de ser ruim. Eu vou fazer você chorar, se humilhar, ficar correndo atrás de mim. Você não vale nada, mas eu gosto de você! Você não vale nada, mas eu gosto de você! Tudo que eu queria era saber por quê?!? Tudo que eu queria era saber por quê?!? (Anna Vitória – Uberaba)

Prezada Anna Vitória: eu devia estar contente, porque eu tenho um emprego, sou o dito cidadão respeitável e ganho mais de quatro mil reais por mês. Eu devia agradecer ao Senhor por ter tido sucesso na vida como artista, eu devia estar feliz porque consegui comprar um BMW 2006. Eu devia estar alegre e satisfeito por morar em Ipanema depois de ter passado fome por dois anos aqui na Cidade Maravilhosa. Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida, mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa. Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis, mas confesso abestalhado que eu estou decepcionado. Porque foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto "e daí?" Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e eu não posso ficar aí parado.

Eu devia estar feliz pelo Senhor ter me concedido o domingo pra ir com a família no Jardim Zoológico dar pipoca aos macacos. Ah! Mas que sujeito chato sou eu, que não acha nada engraçado, macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco.

É você olhar no espelho, se sentir um grandessíssimo idiota, saber que é humano, ridículo, limitado, que só usa dez por cento de sua cabeça animal. E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial, que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social. Eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. Porque, longe das cercas embandeiradas que separam quintais, no cume calmo do meu olho que vê, assenta a sombra sonora de um disco voador.

21.9.09

O poder da burrice

“Duas coisas são infinitas: o Universo e a burrice humana. Mas, a respeito do Universo ainda tenho dúvidas", disse Albert Einstein. Componente inalienável da natureza humana, a burrice é, provavelmente, a força mais perigosa do Cosmos.

O que significa burrice? O conceito não tem uma definição teórica indiscutível. Não é o oposto de inteligência: há pessoas inteligentes que, vez por outra, fazem o papel de burras. Uma definição convincente foi dada pelo historiador e economista italiano Carlo Cipolla: “Uma pessoa burra é aquela que causa algum dano a outra pessoa ou a um grupo de pessoas sem obter nenhuma vantagem para si mesmo – ou até mesmo se prejudicando.”

A burrice tem a peculiar vocação de se traduzir em ações, e por isso mesmo se torna perigosa. Segundo Cipolla, que identificou cinco “leis fundamentais da burrice”, até mesmo os mais inteligentes tendem a desvalorizar os riscos inerentes à burrice. E ela é mais perigosa que a crueldade: esta, tendo uma lógica compreensível, pode pelo menos ser prevista e enfrentada. Para começar, pensemos naqueles que, em tempos de Aids, mantêm relações sexuais sem proteção ou nos que não usam um antivírus no próprio computador, expondo a si mesmos e aos outros ao contágio de vírus reais ou virtuais.

A burrice sempre ofereceu cenas e personagens cômicos, como no conto de Andersen, “A roupa nova do imperador”, no qual dois alfaiates mal-intencionados convencem o rei a vestir uma roupa maravilhosa, invisível para as pessoas burras. Era uma armadilha: ninguém queria admitir a própria burrice nem contradizer o soberano, afirmando não ver a roupa (que de fato não existia). Só um menino teve a coragem de dizer que o rei estava nu, revelando a trapaça. Mas, atenção: rir da burrice pode deixá-la “simpática” e, portanto, desvalorizada. Se na ficção o estúpido é facilmente reconhecido, na vida real as coisas são diferentes.

A burrice tem três características fundamentais:

1) Ela é inconsciente e recidiva: o burro não sabe que é burro e tende a repetir várias vezes o mesmo erro. Tais características contribuem para dar mais força e eficácia à ação devastadora da burrice. A pessoa estúpida não reconhece os próprios limites, fica fossilizada em suas convicções particulares e não sabe mudar. Por isso, como diz o psicólogo italiano Luigi Anolli, “no âmbito clínico, a burrice é a pior doença, por ser incurável”. O estúpido é levado a repetir os mesmos comportamentos porque não é capaz de entender o estrago que faz e, portanto, não consegue se corrigir.

2) A burrice é contagiosa. As multidões são muito mais estúpidas que as pessoas que as compõem. Isso explica porque populações inteiras (como aconteceu na Alemanha nazista ou na Itália fascista) podem ser facilmente condicionadas a perseguir objetivos insanos, um fenômeno bastante conhecido na psicologia. “O contágio emotivo próprio do grupo diminui a capacidade crítica”, explica Anolli. “Percebe-se a polarização da tomada de decisão: escolhe-se a solução mais simples, que na maioria das vezes é a menos inteligente.”

3) Além da coletividade, há um outro fator que amplifica a burrice: estar numa posição de comando. “O poder emburrece”, afirmava o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Por quê? Quando estão no poder, as pessoas muitas vezes são induzidas a pensar que, justamente por ocuparem aquele posto, são melhores, mais capazes, mais inteligentes e mais sábias que o resto da humanidade. Além disso, estão cercadas de aduladores, seguidores e aproveitadores que reforçam o tempo todo essa ilusão. Dessa forma, quem está no governo chega a cometer as mais graves faltas com a aprovação geral.

Há pessoas que chegam incrivelmente perto da verdade sobre si mesmas e a respeito do mundo. Elas têm uma percepção equilibrada, são imparciais quando se trata de atribuir responsabilidades de sucessos e fracassos e fazem previsões realistas para o futuro. Testemunhas vivas do quanto é arriscado conhecer a si mesmas, elas são, para muitos psicólogos, pessoas clinicamente depressivas. Martin Seligman, docente de psicologia na Universidade da Pensilvânia (EUA), demonstrou que o chamado “estilo explicativo” pessimista é comum entre os deprimidos: quando fracassam, assumem toda a culpa, consideram-se burros, péssimos em tudo e se convencem de que essa situação vai durar para sempre.

E quais são os resultados de tanta (às vezes excessiva) honestidade intelectual? Deborah Danner, pesquisadora da Universidade de Kentucky (EUA), examinou os efeitos da longevidade em 180 noviças norte-americanas, otimistas e pessimistas. Quanto mais otimistas se mostravam as religiosas, mais tempo viviam. As mais joviais viveram em média uma década além das pessimistas.

É claro que ser realistas e ao mesmo tempo serenos e otimistas seria o ideal; mas não há dúvida de que às vezes um pouco de burrice faz bem.

Colaboração de Fernanda Magalhães, do blog Comportamento Real

6.9.09

Autobiografia de Bertrand Russell


Prólogo

Três paixões, simples, mas irresistivelmente fortes, governaram-me a vida: o anseio de amor, a busca do conhecimento e a dolorosa piedade pelo sofrimento da humanidade. Tais paixões, como grandes vendavais, impeliram-me para aqui e acolá, em curso instável, por sobre profundo oceano de angústia, chegando às raias do desespero.

Busquei, primeiro, o amor, porque ele produz êxtase - um êxtase tão grande que, não raro, eu sacrificava todo o resto da minha vida por umas poucas horas dessa alegria. Ambicionava-o, ainda, porque o amor nos liberta da solidão - essa solidão terrível através da qual a nossa trêmule percepção observa, além dos limites do mundo, esse abismo frio e exânime. Busquei-o, finalmente, porque vi na união do amor, numa miniatura mística, algo que prefigurava a visão que os santos e os poetas imaginavam. Eis o que busquei e, embora isso possa parecer demasiado bom para a vida humana, foi isso que - afinal - encontrei.

Com paixão igual, busquei o conhecimento. Eu queria compreender o coração dos homens. Gostaria de saber porque cintilam as estrelas. E procurei apreender a força pitagórica pela qual o número permanece acima do fluxo dos acontecimentos. Um pouco disto, mas não muito, eu o consegui.

Amor e conhecimento, até ao ponto em que são possíveis, conduzem para o alto, rumo ao céu. Mas a piedade sempre me trazia de volta à terra. Ecos de gritos de dor ecoavam em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, velhos desvalidos a constituir um fardo para seus filhos, e todo o mundo de solidão, pobreza e sofrimentos, convertem numa irrisão o que deveria ser a vida humana. Anseio por aliviar o mal, mas não posso, e também sofro.

Eis o que tem sido a minha vida. Tenho-a considerado digna de ser vivida e, de bom grado, tornaria a vivê-la, se me fosse dada tal oportunidade.

Bertrand Russell (1872-1970)

1.9.09

O motivo do meu divórcio

Domingo, como sempre fiz, acordei muito cedo, coloquei meu agasalho, tomei café e fui até a garagem preparar meu barco de pesca.

De repente, começou a chover torrencialmente. Havia até neve misturada com a chuva, ventos a mais de 80 km. Liguei o rádio e ouvi que o tempo seria chuvoso durante todo o dia.

Resolvi não ir e voltei pra casa. Silenciosamente, tirei minha roupa e entrei novamente debaixo do cobertor.

Afaguei as costas da minha mulher suavemente e disse bem baixinho:

- O tempo lá fora está terrível.

Ela, ainda sonolenta, respondeu:

- E você acredita que o idiota do meu marido foi pescar com esse tempo?

23.8.09

Povo já tem poder de compra, segundo pesquisas dos economistas do Planalto

15.8.09

Woodstock - 40 anos


Nos dias 15, 16 e 17 de agosto de 1969 aconteceu o mais importante festival de rock de todos os tempos: Woodstock, em uma fazenda nos arredores de Nova York. Durante aqueles três dias, estiveram no palco alguns dos maiores nomes da música pop/rock, como Jimi Hendrix, The Who, Ten Years After, Country Joe, Santana, Joe Cocker, Joan Baez, Janis Joplin, Creedence, Crosby, Stills, Nash & Young, Richie Havens e Grateful Dead.

Sabe-se que outros nomes importantes foram convidados, como John Lennon, Bob Dylan e The Doors, mas, por motivos diversos, não puderam estar lá. Tudo bem! Os artistas que estiveram no palco de Woodstock fizeram História, com "H" maiúsculo!

Cerca de 500 mil pessoas compareceram. Foi uma loucura, pois ninguém imaginava que tanta gente fosse pra lá. No entanto, o resultado final fez justiça ao slogan que imortalizou o Festival: "Três dias de paz, amor e música". Nenhuma violência foi registrada.

O filme sobre Woodstock, lançado em 1970, com três horas de duração, mostrou a grandiosidade do evento. Por questões contratuais e também porque seria impossível registrar todos os artistas que se apresentaram, vários deles não apareceram no filme, como Janis Joplin e Creedence.

Agora, 40 anos depois, essas lacunas começam a ser preenchidas. Novos filmes, discos e livros já chegaram ou estão para ser lançados. As novas gerações vão poder entender melhor o que era aquela "Revolução Hippie", aquela "Contracultura", expressões muito usadas na época e que significavam uma mudança de atitude dos jovens em relação a um sistema de vida opressor e que só criava guerras mundo afora, como a do Vietnã.

"Make Love, Not War" era outro slogan dos Anos 60. Criado por jovens que nasceram durante ou logo após a Segunda Guerra Mundial. Que cresceram ouvindo e dançando o rock and roll, um tipo de música detestado pela geração anterior.

Em 1970, o genial John Lennon cantou, em uma de suas músicas ("God"): "O sonho acabou". Sim, a década de 1960 chegava ao fim, a música e seus artistas não conseguiram mudar o mundo, mas foi o mesmo Lennon que, no ano seguinte, cantou novamente: "Você pode pensar que eu sou um sonhador, mas não sou o único" (em "Imagine"). Sim, o artista é contraditório, mas expressa seus sentimentos no momento. O sonho acabou, mas depois retornou.

Porque Woodstock não ficou perdido na poeira do tempo. Prova disso é que hoje, 40 anos depois, toda a mídia fala do Festival. Na internet, no rádio, na televisão, nas revistas, nos jornais, nos livros, no cinema, a mensagem daqueles três dias em Woodstock permanece viva. É preciso sonhar com um mundo melhor. E a música é um excelente veículo para expressar este sonho.

9.8.09

Ideias geniais

Lana Esthevlana
COLUNISTA ANTI-SOCIAL

Eu gostaria imensamente de fazer parte da população economicamente ativa, mas encontrar um emprego é mais difícil do que eu pensei. Sabe, você vê as estatísticas desesperadoras do telejornal, jornal impresso e dos livros de Geografia atualizados e pensa: “Pff, isso deve ser lenda.” Mas não, não é.

O que eu queria mesmo, do fundo do meu coração, era ter uma ideia genial. Sabe, aquela sacada brilhante que você diz: "Putz! É isso!", e logo em seguida fica podre de rico (sim, sim, sou capitalista selvagem).

Mas ter esta tal ideia me desanima. É que não é fácil achar sócios pra ela, e, quando se encontra esses sócios, o mais difícil é convencê-los de que esta ideia é realmente genial, original, visionária, produtiva e rentável (até porque meus mais prováveis sócios em potencial estão sem um puto no bolso...).

Aliás, os gênios sempre são incompreendidos. E sempre serão, acredito eu. Tenho certeza de que Einstein tinha aquele cabelo incrivelmente cool porque os repuxava de frustração, já que ninguém acreditava nele. Isto para não citar Van Gogh, que cortou a própria orelha.

Gênios só são reconhecidos quando morrem, e eu não quero isso. Quero desfrutar de minha fama e sucesso em vida. Podendo andar de limusine pra cima e pra baixo e beber champanhe na hora que eu bem entender (isso tá mais pra diva do que pra gênio, mas quem se importa?).

Pelo visto, vou continuar minha vida de garota normal que sonha com um mundo idealizado, onde todos são ricos, bonitos e falam cinco idiomas fluentemente... (?)

Er... Esse não é meu mundo idealizado, mas por hoje tá valendo!

Depois que nos enviou este post, Lana encontrou um emprego. Confiram aqui.

1.8.09

"Amigos" virtuais

Yvonne Dimanche
CORRESPONDENTE

Descobri que tenho um monte de amigos virtuais. Uma tal Caroline Andrade me enviou 85 mensagens para dizer que as fotos ficaram maravilhosas. Não sei bem que fotos foram essas, mas acredito que devam estar lindíssimas. Há uns quatro anos, recebia diariamente uma propaganda de uma firma que me garantia que o meu pênis iria crescer. Não fiz o tratamento, mas agora um monte de gente me envia mensagens afirmando que eu posso tomar Viagra para ficar mais potente.

E cartões da UOL? Recebo vários por dia e deve ser de algum fã tímido, porque não consta o nome do remetente. Pode ser esse fã que me alerta que o meu nome está no SERASA e que estou devendo uma conta de telefone da TIM. Deve ser um aparelho para me comunicar com os espíritos do além, já que o meu celular é da Claro. Zeloso, esse meu apaixonado da minha situação financeira. Quando eu fizer o recadastramento da minha conta a pedido de inúmeras mensagens que recebo do Bradesco, darei a minha senha para que ele possa acertar as minhas dívidas.

Mas uma das coisas que mais tem me dado felicidade são os inúmeros amigos estrangeiros que tenho espalhados pelo mundo. Todos os dias recebo mensagens com "Hi", "Hello" ou algo do gênero. Um dia desses, recebi inclusive umas dez mensagens escritas em mandarim (acho eu). Antes de ontem, foi uma em hebraico, parece. Brincadeiras à parte, eu me pergunto o motivo do Hotmail, do Yahoo e outros não serem mais rigorosos com esses spams.

Uma coisa que me impressiona é a criatividade da turma do "Mal". Todas as vezes que se inventa uma coisa diferente, que pode fazer um enorme bem para a sociedade, aparece alguém que imediatamente transforma aquilo em uma arma, no sentido literal ou figurado. Foi assim com o avião, que depois foi utilizado para jogar bombas. A Internet tem se tornado a cada dia que passa um perigo sem precedentes, divulgando pedofilia, dentre outras barbaridades. A facilidade que temos de fazer qualquer transação bancária pelo computador também pode se tornar um transtorno. Os bancos têm lançado mão de recursos para impedir problemas com nossas contas, mas o hacker é sempre mais esperto. Está sempre um passo adiante.

Acho legal que existam grupos em que pessoas com características comuns procurem o seu espaço para troca de ideias ou até mesmo relacionamento de amizade ou sexual. O problema é quando essa característica é ilegal ou coloca em risco a vida de terceiros que não pediram para participar da brincadeira, como é a pedofilia. Todas as vezes que recebo fotos de crianças possivelmente sequestradas, eu sempre telefono para o número indicado para saber se a notícia procede, ainda que possa ser uma ligação interurbana. Apenas uma única vez recebi uma resposta positiva. A propósito, ninguém atende ao telefone. É tudo mentira e o(a) engraçadinho(a) não teve dó nem pena de mostrar a foto de uma criança que fica conhecida em todo o país. É muita sacanagem.

A impressão que eu tenho é que aquela famosa frase "não faça com os outros aquilo que você não gostaria que fizessem com você" perdeu completamente o sentido. Se vocês repararem bem, isto também é um ato de violência, só que mais sutil. E nós, que moramos em grandes centros (ou perto deles), além de termos toda a preocupação do mundo com relação à nossa segurança física, não podemos ficar tranquilos para curtir o computador. Triste tempo o que vivemos.

Durante alguns anos, Yvonne editou um dos melhores blogs que conhecemos, o BlogGente. Hoje se dedica a outras atividades. De vez em quando, o Jornal da Lua vai republicar alguns de seus posts, para conhecimento dos novos blogueiros e também como uma forma de homenagear esta verdadeira amiga virtual.

19.7.09

Café e Bar Ponto Chic


Chico PF
(Francisco Paula Freitas)

– Lalau é o escambau, que eu não afanei nada de ninguém. Fico aqui o dia inteiro, dando duro no batente, vendendo meu capilé, trabalhando como um desgraçado, toda hora tendo que espalhar serragem pelo chão, que nunca vi gente tão porca, cospem pra todo lado, e você, que não sai desse bem-bom, ainda vem dizer que aquele pau-d’água falou que eu malhei a cara-metade dele na despesa? Não sou nenhum santinho do pau oco, mas isso eu não fiz e nem faço. Cuidado comigo que hoje eu amanheci de ovo virado.

— Calma, as coisas não são bem assim. Você precisa morigerar. Só porque dá duro pra caramba e no final do dia fica esfalfado do lesco-lesco, não tem o direito de apresentar uma conta fajutada. Você não pode fazer isso. Principalmente com uma mulher desacompanhada. Ele me contou tudo, tintim por tintim. Disse que ela está amuada contigo.

— Que papo é esse, rapaz? Parece que você tá com a cachorra. Tem procuração para defender esses pilantras? Não deve ter e, pelo que vejo, também não está acreditando no que eu digo. Eu não gosto de disse-me-disse, mas é bom ficar sabendo: se há um vivaldino nessa história, não sou eu que fico aqui me estuporando e sim aquele pé-de-chinelo, que vive ao deus-dará e se intitula dono da sirigaita. Ele não se manca, deixa a mulher ficar batendo perna por aí, vir ao bar sozinha e depois vem demandar. O que você não sabia e fica sabendo agora é que ele larga ela por aí, pela rua da amargura, mas vive fazendo reclame. Diz que ela é da pontinha, que tem it, que é avançada, que nem combinação e porta-seios usa. Quer saber? Desconfio que ele até manda ela se virar. Pinta de marafona ela já tem, e de sobra...

— Tome tenência, rapaz, ele não é o três com goma que você está pensando. O homem é valente. Falou que amanhã, quando vier tomar a média com canoa na manteiga, não vai nem querer ouvir você pedir penico. Se continuar assim, você vai é viajar para a cidade de pés juntos. Eu, no seu lugar, ia preparando umas batidas e uns salgadinhos para o gurufim.

— Eu, hein, rosa, sai pra lá! Valente coisa nenhuma, lugar de valente é na linha de frente. Tu pensa que eu tenho medo daquele pau-de-virar-tripa? Não tenho, e te adianto: se ele ficar com esse parangolé de otário, neguinho ainda leva a devassa que ele diz que é dele, de vez. Mas isso não me interessa, eu sou comerciante e quero é o meu. Não sou da laia deles, não vivo de me-dá, me-dá e o que vem de baixo não me atinge. Se aquela bola maltravada, aquele caixão sem alças, aquele pirilampo vier aqui, não me pagar e me desacatar, não vai ter jeito, dou-lhe uma bifa, a groselha vai escorrer pela cara e ele vai ter que recolher o chinelo charlote e se picar. Com as perninhas de saracura e aquele andar de gabiru, não vai dar para ir muito longe... Gurufim, se tiver, não vai ser para mim. Você, que é amigo dele, pode ir fazendo a vaquinha...

— Tu tem que cobrar é dela, rapaz. O cara não tem culpa; a mulher contou pra ele o que houve. Disse que você ficou falando só safadeza, tirando onda e se exibindo. Quando viu que ela te dispensou, aí você forçou a mão no lápis...

— Nada disso, dispensar coisíssima nenhuma, quando eu apresentei a dolorosa, a jabiraca é que veio com o papo de que estava tesa, que sustentava ele e ainda por cima morava longe, em uma meia-água de telha-vã e coisa e loisa. Pra você ter uma idéia, só de croquete, a doidivana e a mocoronga, amiga dela, por sinal, um peixão, ô mulher bem apanhada, comeram mais de oito! Eu senti a cascata, porque logo depois de armar o charivari, ela amansou e engrenou uma de que lá pras suas bandas tinha um arrasta-pé para pé-de-valsa nenhum botar defeito. Disse isso, dando a entender que eu aparecesse um dia. Não sou metido à besta, mas no ar, eu senti que a coisa era chinfrim. Ela percebeu e emendou um lero, dizendo que realmente o bate-coxas podia não ser para um magnata do meu tope, que era longe, mas mesmo assim, ela mandaria o convite e que muito malandro gostaria de receber um erreéssevepê desses. O baile era bom, tinha muita pastora, muita cabrocha, se insinuou e fez o jeito. Ela era mesmo uma jambete de não se jogar fora... Mudei de idéia. Percebi o jogo forte, vi que ela, no duro, era da gandaia, da pá-virada e cheguei a pensar em dar um bordejo lá. Era só aparar o bigode, mandar o jaquetão para o tintureiro, dar um brilho no pisante, jogar uma brilhantina no curto-cheio, fazer um laço triângulo, e... olha lá o bacana.

— O que você está me dizendo? Quer dizer que você passou mesmo a cantada na mulher do Braz? Cruz-credo, você tá é doido, rapaz! Pensa que ele é bocó? Ele é perverso. Eu acho que você vai mesmo é pro beleléu...

— Doido, eu? O que eu quero é o meu dinheiro! Ela deixou vinte, mas eram trinta e sete mangos. Na lona ela não estava nem está, pois no dia, você precisava ver, veio toda aprumada, uma belezoca. Vestido rabo-de-peixe, uma sandália de amarrar na perna com salto Anabela, além de muito bem pintada de pancake, ruge e ciliom. Tinha uns brincos grandes de argola, tipo cigana, e um cordão folheado a ouro com um camafeu pingente com o retrato do filho, coitado do menino. Para completar, e enlouquecer qualquer cristão, trescalava fragrâncias de Seiva de Mutamba, sabe lá o que é isso? Mas se desse mato não sair coelho, da parte da bruaca ou do pé inchado, eu não vou ficar aqui bancando o paspalhão, eles que guardem o de baixo. Se ficar na saudade, vou querer tirar uma casquinha, porque, pensando bem, ela está longe de ser um estropício. A morena é tranchã, é do balacobaco; não chego a dizer que minha mãe a quereria para nora, mas se ela parar com os fricotes, aparecer aqui de novo com aquela maldita sandália e me der bola outra vez, garanto que de um jeito ou de outro vou buscar o meu. No prejuízo não vou ficar...

Publicado em "Café e Bar Ponto Chic" - Editora Bertrand Brasil

11.7.09

Reflexões mais ou menos filosóficas

O amor é como capim: você planta e ele cresce. Aí vem uma vaca e acaba com tudo.

Como é difícil se livrar de uma mulher fácil.

Li que fumar fazia mal, então parei de fumar... Li que beber fazia mal, então parei de beber... Li que comer gordura fazia mal, então parei de comer... Li que sexo fazia mal, então parei de LER!

O casamento é uma carga tão pesada que para carregá-la são necessárias duas pessoas, e, às vezes, três.

No Brasil, se o feriado é religioso, até ateu comemora.

A mata é virgem porque o vento é fresco!

Toda ideia revolucionária provoca três estágios:
1º: É impossível, não vou perder meu tempo
2º: É possível, mas não vale o nosso esforço
3º: Eu sempre disse que era uma boa ideia

Fases de certos projetos:

Entusiasmo - Desilusão - Pânico - Busca e punição dos culpados - Glória aos não participantes

Seja qual for o defeito do seu computador, vai desaparecer na frente de um técnico, retornando assim que ele se retirar.

Se ela te dá bola, é feia. Se é bonita, tá acompanhada. Se tá sozinha, você tá acompanhado.

Quase todo o exame final que você prestou foi baseado na única aula que você perdeu, baseada no único livro que você não leu.

A luz no fim do túnel é um trem vindo na sua direção.

A fila do lado sempre anda mais rápida.

Se você está se sentindo bem, espere um pouco: isso passa.

Uma pessoa saudável é aquela que não foi suficientemente examinada.

As nuvens são como os chefes: quando desaparecem, o dia fica lindo.

Tamanho não é documento e dinheiro não traz felicidade. (Autor desconhecido, pobre e de pinto pequeno)

O novo e-mail do governo é: planalto@lheira.gov.br

A vida é uma droga. E você ainda reencarna.

4.7.09

Inimigo Público


Jorge Fernando dos Santos
BLOGUEIRO CONVIDADO

Ele nunca tinha matado ninguém. Pior que isso, nunca tinha roubado, estuprado ou traficado seja lá o que fosse. Por isso mesmo foi condenado à pena máxima: 150 anos de trabalhos forçados ou redução da pena mediante morte súbita. Somente assim a sociedade pôde respirar aliviada. Tratava-se do inimigo público número um. Aquele que, desde a infância, recusava-se a cometer qualquer tipo de delito, por menor que fosse.

Tudo começou aos sete anos de idade, quando ele cedeu seu lugar no ônibus a uma velhinha. Todo mundo ficou surpreso e os vizinhos que se encontravam a bordo chegaram a comentar o fato. Mas ninguém levou aquilo muito a sério. Ele é só uma criança, alguém comentou. Alguns dias depois, o que parecia ter sido uma simples travessura da infância aconteceu novamente. A mãe, que estava com ele, não teve outra alternativa senão repreendê-lo na frente dos demais passageiros, que já se mostravam injuriados com o menino.

Já aos 13 anos, ele se recusou a consumir uma droga oferecida pelo primo, que era seu colega no primeiro grau. A notícia logo se espalhou e tanto a família quanto a diretora do estabelecimento de ensino se horrorizaram. O ópio custa tão caro e esse menino simplesmente não aceita a oferta do primo que tanto o admira? Quem ele pensa que é? - muitos comentaram. E ele continuou ignorando esse tipo de pressão. Aliás, acostumou-se com aquela forma de tratamento.

Consciente de sua própria rebeldia e - por que não? - orgulhoso de ser um adolescente do tipo rebelde e contestador, foi várias vezes suspenso da escola e quase tomou bomba por questionar os ensinamentos antiéticos de seus professores.

Os pais já não sabiam mais o que fazer. O padrinho, que além de ser seu tio era também um deputado federal várias vezes investigado por corrupção - e por isso mesmo reeleito duas vezes para o cargo - simplesmente rompeu os laços afetivos com a família. Não quero ser lembrado como parente de um caso perdido como esse, justificou. Seu irmão, pai do garoto problema, lamentou o fato. Como sempre fazia, castigou o filho passando-lhe uma descompostura e repetindo as desvantagens de ser uma pessoa que não se mostra enquadrada no sistema.

Aos 17 anos, ele cometeu um legítimo ato de atentado ao pudor. Em plena fila de alistamento militar, socorreu um recruta que, estando de sentinela há várias horas, desmaiou sob o intenso sol do verão. Se você fosse um militar, seria levado à corte marcial, disse um sargento, furioso diante do fato inusitado jamais ocorrido em seu pelotão. Dispensado do serviço obrigatório, conseguiu arranjar emprego numa agência bancária da cidade. Mas não durou muito no emprego. Acabou sendo demitido por justa causa depois de se recusar a tomar parte num desfalque planejado pelo gerente.

Jamais pensei criar um filho pra isso, desabafou o pai numa discussão em família. Trabalhar honestamente como caixa de banco, isso é um absurdo! Calma, pediu-lhe a mulher, sempre paciente. Ele é ainda muito jovem, há de aprender com a própria vida.

Não aprendeu. E por isso mesmo, aos 30 anos de idade, tendo já uma enorme ficha criminal - que incluía multas de trânsito por respeitar o sinal vermelho e por jamais estacionar em fila dupla - acabou sendo preso em flagrante ao tentar salvar uma jovem de ser estuprada por um padre dentro de uma igreja do seu bairro.

Apesar de nunca ter aprovado suas atitudes, o pai contratou os serviços do melhor advogado da cidade, um eminente professor de Direito que já havia tirado da cadeia vários chefões do crime organizado. Tudo em vão. A promotoria agiu com incrível competência, apresentando várias testemunhas e comprovando todos os crimes praticados pelo réu.

No final do demorado julgamento, que catalisou a atenção da imprensa e mobilizou a opinião pública do país, o veredito foi unânime. Um elemento de tamanha periculosidade, verdadeira ameaça aos interesses do sistema vigente, não poderia continuar às soltas, incomodando as pessoas normais que obedecem cegamente aos mandamentos da lei. Hoje, ele está confinado numa cela escura em alguma das penitenciárias privadas do país, cuja especialidade é justamente punir aqueles que se recusam a levar vantagem na vida.

Jorge Fernando pode ser encontrado aqui.

28.6.09

Michael Jackson (1958/?)

Logo que soube da morte de Michael Jackson, me lembrei de um faxineiro que trabalhava na galeria onde eu tinha uma loja de discos.

Ele dizia ter 20 anos, mas parecia menos, pois era franzino, muito magro e baixinho. Assim que abri a loja, ele apareceu e perguntou se tinha lá algum disco de Michael Jackson. "Tem alguns", eu disse. "Qual você procura?"

"Na verdade, nenhum, pois tenho todos. Só quero saber, pois, na hora do almoço, posso vir aqui e ouvir um pouquinho?"

"Claro, pode vir", eu disse.

E ele sempre aparecia lá, escolhia uma faixa e começava a dançar, daquele jeito que seu ídolo tinha imortalizado. Sorria, dizia que era o máximo e depois voltava ao trabalho de limpar a galeria.

Durante quatro anos, ele cumpriu esse ritual de aparecer e pedir pra ouvir Michael Jackson. Depois, fechei a loja e nunca mais voltei lá. A notícia da morte de Jackson fez com que eu me lembrasse dele e de outras figuras que passavam por lá. Tinha um que andava com uma foto do Bono no bolso. Ele parava qualquer pessoa, na galeria ou dentro das lojas, tirava a foto do bolso e perguntava: "Não sou parecido com ele?" E, se a pessoa demonstrava alguma dúvida, ele ficava de perfil e perguntava novamente: "Assim, nessa posição, não parece?"

Também passavam por lá o Elvis jovem e o Elvis quarentão. Explico: um imitava o rei do rock nos anos 50, com topete, enquanto o outro era gordo e usava um cavanhaque enorme, além de tentar imitar o modo de andar de Elvis, tudo muito bem estudado.

Os clientes, em geral, eram fãs que imitavam seus ídolos. Um imitava John Lennon, outro o Jim Morrison, tinha também Jimi Hendrix, James Brown...

Um dia, percebi uma grande aglomeração no corredor e fui ver o que era. Tomei o maior susto, pois podia jurar que era o próprio Michael Jackson! O sujeito era alto, tinha uma daquelas roupas que Jackson vestia nos shows, parecendo um uniforme militar, um tom de pele muito parecido com o astro que deixava de ser negro, também usava maquiagem, inclusive nos olhos, o cabelo com uma ponta escorrendo pela testa, um chapéu... Impressionante a semelhança!

O faxineiro estava lá, no meio da multidão. Pequenino, com seu uniforme cinza, sorria e observava o sósia. Quando tudo acabou, ele entrou na minha loja e disse:

"É bom a gente ter um ídolo, né?"

Por isso, dei como incerta a morte de Michael Jackson no título deste post. Quem tem um ídolo, vivo ou morto, sabe do que falo. Aquele pobre faxineiro, que morava longe e levava horas de ônibus pra chegar na galeria e voltar pra casa, tinha em Michael Jackson um forte motivo pra viver e ser feliz. Hoje, ele deve estar triste, mas logo voltará a ouvir as músicas de seu ídolo e dançar como se estivesse em um palco.

Quando me lembrei dele, depois que soube da morte de Jackson, uma música invadiu meus pensamentos. Foi "Gente Humilde", de Garoto, Vinícius de Moraes e Chico Buarque de Hollanda.

"Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a como
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar

São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar"

21.6.09

Turista encontra gênio no deserto

Um turista visitava um deserto no Oriente Médio quando encontrou uma garrafa. Ao abrir a tampa, apareceu um gênio:

- Olá! Sou o gênio de um só desejo, às suas ordens.

O homem pensou por um tempo e disse:

- Então eu quero a paz no Oriente Médio. Veja este mapa: desejo que estes países vivam em paz.

O gênio olhou bem para o mapa e respondeu:

- Amigo, estes países guerreiam há 5 mil anos! Sou bom, mas não o suficiente para isso. Peça outra coisa!

O homem voltou a pensar e disse:

- Nunca encontrei a mulher ideal. Gostaria de uma bem humorada, que goste de futebol, cerveja, não seja ciumenta, bonita, culta, fiel, carinhosa e que não goste de cartões de crédito!

O gênio suspirou fundo e disse:

- Deixa eu ver esse mapa aí de novo!!

13.6.09

Um dia bonito como outro qualquer

A mãe o ouviu falando alto, enquanto fazia a barba:

- Finalmente, as coisas estão melhorando pro meu lado. Tava na hora, né? Tanto tempo deixado de lado, ninguém se lembrava de mim, pensei que não fosse mais trabalhar. E, sem trabalhar, como é que eu ia fazer a Dorinha virar sua nora, hein, mãe?

Depois, foi pro quarto trocar de roupa:

- Tudo indica que esse pessoal vai me valorizar. Eu já tô cansado de trabalhar e ninguém reconhecer meu esforço. Mas eu estive com o chefe ontem e fui muito bem recebido. No fim do ano, ainda vão nos dar uns dias de folga, mãe. Podemos todos ir pra Copacabana, ver a queima de fogos e saudar o Ano Novo. Não vou me queixar deste ano. Vou até agradecer. E saber que o próximo será ainda melhor. Cansei de ser um pessimista.

Abriu a porta, viu o sol, o dia claro, respirou fundo e disse pra mãe:

- Minha saúde melhorou, Dorinha parou de encher o saco com aquele ciúme doentio dela. Fala pro pai que, se ele quiser, podemos tomar umas logo mais à noite, aqui por perto mesmo. Tenho muitos motivos pra comemorar, né?

Foi nesse momento que a bala perdida acertou seu coração.

7.6.09

Aos poucos, o mundo sai da crise