lobo e lua

lobo e lua

26.12.10

Então, é Natal?!


Rúbia Gondim
BLOGUEIRA CONVIDADA

Recebi durante a semana uns 3957 e-mails, 2573 scraps, 102 mensagens no Facebook, cerca de 75409327584 tweets e algumas DMs desejando-me um “feliz Natal” em cartões enfeitados com renas, neve, o bom velhinho, dingo bells e tudo que o photoshop dá direito. Algumas (sei lá, umas 3 ou 5) pessoas citaram o nome de Jesus. Diziam eles, trocando em miúdos, que Jesus é capricorniano. Engraçado isso, porque Capricórnio é signo de quem nasce em dezembro. Ele no máximo é de Áries. Talvez meus amiguinhos tenham trocado os nomes, porque quem faz aniversário nesse dia é Mitra, um camarada chegado em vinho e pão.

Dois milênios depois que Constantino instituiu o 25 de dezembro como Natal, ver filmes hollywoodianos em que os pais dizem aos filhos que o presente embaixo da árvore de plástico foi deixado durante a madrugada por um sujeito gordo, velho e barbudo que desceu pela chaminé, virou costume. Como a vida imita a arte, essas fantasias ainda são alimentadas na cabeça dos pivetes. Mas isto traduz o espírito de abnegação do Natal, já que você se mata durante 12 meses pra comprar o presente mais caro na Ri Happy e quem fica com os créditos de bom velhinho é o Noel; você fica apenas com o nome no Serasa.

As crianças da Etiópia são malvadas, por isso ficam sem presentes no dia 25 de dezembro. Isso não importa muito, já que lá eles não comemoram o Natal. Aliás, lá eles não comemoram nada! O que há pra se comemorar ganhando U$ 94,00? Já que Noel não investe em presentes para os famintos etíopes, decidi colocar em minha cartinha um Troller T4, um Wii e um apê em Dubai. Coisinha singela para que o espírito natalino se manifeste em meu coração, assim como se manifestou no coração de Edir Macedo, Estevam Hernandes, bispa Sônia e outros corruptos universais, assembleianos, pentecostais… Só espero que Noel não seja onisciente – como o Google – senão eu fico até sem as meias que minha avó insiste em me dar todo ano, todo ano, todo ano!

Mas, o Natal tem outro objetivo além de ficar de folga, comer peru e panetone, aprontar e ficar ileso porque seus pais querem manter a harmonia familiar (pelo menos na frente dos convidados para a ceia), ganhar presentes nos N amigos ocultos que você participa (mesmo sem querer), entrar de férias e encher a cara na frente da sua sogra, sem que isso seja uma ofensa para aquela alma pura… E esse objetivo transcende todo rancor guardado em nossos corações, é maior que qualquer sentimento mesquinho e atos sujos. Devemos prestar atenção no ser magnífico, altruísta, humilde e, ainda assim, superior: o papa. Alguém lembra o nome desse cara que substituiu o João Paulo II? Seja quem for, não quero ele entrando de madrugada na minha casa, ainda mais se tiver alguma criancinha por perto. Michael Jackson que me livre!

Rúbia Gondim pode ser encontrada aqui.

10.12.10

O pedreiro que tricotava

Ivani Cunha
JORNALISTA CONVIDADO

(Para meu pai)

É pouco provável que o pai do leitor ou da leitora saiba tricotar.

Trabalho, passatempo, vício, tricô é coisa de... mulher.

Meu pai, com suas mãos ásperas de operário da construção civil, ignorou esse estigma e aprendeu a dominar as agulhas de tricô. O fio de lã, passando de uma agulha a outra, permite a execução de dois tipos de ponto que servem de base a grande variedade de padrões, define o “Aurélio”. Mas a leitura do dicionário é insuficiente para alguém aprender a fazer; é preciso prestar atenção em outra pessoa que já tricota, depois treinar e treinar.

O início, para ele, foi por acaso, numa das longas fases de afastamento do trabalho motivadas pela doença de Chagas, que o levaria desta vida antes dos 60 anos.

Uma de minhas irmãs treinava com as agulhas, enquanto meu pai lia o seu jornal kardecista. Um olho nas páginas, outro nas mãos da filha, nas agulhas que iam e viam, depois voltavam ao início formando a teia.

Nos dias seguintes ele continuou a observação, sempre sentado na mesma cadeira diante da filha. Aprendeu todos os detalhes: a posição das mãos, a altura em que deveria manter a peça diante dos olhos, a trajetória das agulhas, seus volteios, quando fazer inserção única ou dupla nas carreiras, etc.

Uma tarde ele esperou a filha levantar-se da cadeira para ir à cozinha ou cuidar de outro afazer. Então pegou os novelos de lã, as agulhas e começou a atravessá-las na peça com movimentos sincronizados, comparando de tempo em tempo o resultado do trabalho com o já produzido pela titular do serviço.

Estava bem concentrado quando a dona do tricô retornou à sala. Entregou-lhe os apetrechos e, meio sem graça, reiniciou a leitura do jornal. A filha procurou algum estrago em seu tricô e não encontrou. Apenas desconfiou que não havia interrompido o trabalho naquele ponto. Se, naquele momento, tivesse prestado atenção no homem à sua frente, veria seu meio-sorriso de satisfação.Talvez até pudesse ler em seus olhos que ele achara muito mais fácil aprender a tricotar do que levantar paredes e fazer o acabamento das obras – e nisso ele era mestre.

Tricotar era bem mais fácil e deixava a cabeça leve, os problemas esquecidos horas e horas numa parte escura da memória.

Assim, ele aprendeu a produzir sapatinhos e fez um par, de lã azul-clarinha, para o primeiro neto. Depois tricotou uma blusinha de mangas compridas da mesma cor para o bebê.

Os filhos se surpreenderam só um pouco com a nova diversão do pai. Bem melhor que o vício do cigarro, cultivado desde a juventude e só abandonado poucos anos atrás, depois de muitas ameaças dos médicos.

Não durou muito o gosto pelo tricô, mas valeu como mais uma demonstração de versatilidade daquele homem que aprendeu a tocar violão de ouvido, tinha sempre um livro à mão e evitava ensinar o significado das palavras (“Meu filho, consulte o nosso dicionário e aproveite para aprender mais, lendo também o sinônimo da palavra que vem antes e o daquela que vem depois dessa que você procura”).

Desconhecia a barreira que naquela época impedia a maioria dos homens de assumir o fogão e preparava deliciosos bolos e broas de fubá no forno a lenha, e depois no fogão a gás. “Não comam quente porque terão dor de barriga”, dizia, depois de conferir o cozimento enfiando o cabo do garfo na massa, quase deixando ler em seus olhos o real objetivo da advertência, que era o de manter os apressados a distância do fogão.

Ficou também a lembrança dos escassos períodos em que meu pai, depois dos 40, tinha condições de trabalhar. Nesses dias, levantava mais cedo cantando modinhas antigas e preparava um feijão tropeiro legítimo, com todos os ingredientes proibidos pelo médico.

Nunca mais comi feijão tropeiro com aquele delicioso sabor de transgressão, e até hoje não sei de ninguém que use com a mesma competência a colher de pedreiro e a agulha de tricô.

Ivani Cunha é jornalista em Belo Horizonte

10.11.10

Música

Letícia Panichi
BLOGUEIRA CONVIDADA


"A música é o maior mistério do mundo. Como combinações sonoras e melodias resultam naquilo que eu, e muitos outros, não conseguem passar um dia sem ouvir? Independente da letra, do tipo musical ou até mesmo da batida, só é preciso que haja aquele efeito no corpo. Aquele que fará você mudar de sensação, passando para um mundo paralelo. Aquele que colocará um sorriso em seu rosto, ou até mesmo lágrimas nos olhos. Aquele que fará suas pernas saírem dançando a cada compasso do ritmo. Aquele que, com certeza, é o melhor curativo para qualquer ferida emocional.

Depois de anos de conturbadas mudanças musicais, os anos 60, 70, 80 e até os 90, o mundo esqueceu o que é musica - exilando os poucos que ainda se salvam. Música não é qualquer grito, ou qualquer palavra dita em um ritmo que não combina, que não transmite efeito nenhum, nenhum mísero sentimento. Não é preciso apenas ter um rosto bonitinho para se tornar músico.

É mais que isso. Me sinto ofendida pelos grandes nomes da música que são obrigados a ter a mesma profissão que muitos que não batalham para conseguir. Nomes como Elton John, os próprios - e meus amados - Beatles, Eric Clapton, Creedence Clearwater, Led Zeppelin, Cazuza, Cássia Eller, Janis Joplin, Aretha Franklin, Michael Jackson, U2, Rolling Stones, Rita Lee, Chico Buarque, Etta James, Bob Marley, entre inúmeros outros que possuem o grande reconhecimento que têm do mundo. Não precisa gostar da música deles, mas é preciso que saiba reconhecer o que eles foram e o que eles são para o mundo.

Vivo em um lugar em que o sentimento musical, de revolta, de paz, de amor, de ódio, de ilusão e de desilusão deram lugar para palavras sem nexo jogadas no ar. As letras são sempre as mesmas, os acordes variam entre C e D, nada mais que isso. Nenhum sentimento de satisfação, nada.

Não posso os culpar, estamos localizados em uma década de nada de importante à História. Nada mesmo. A música é a expressão do que sentimos e do que estamos vivendo. Quando não há nada de novo acontecendo, não há sobre o que cantar, além de "Como eu te amo baby baby", "Vem ser minha yeah yeah", "Sou foda, me adora".

Me envergonho de que no futuro irei contar de como as músicas da minha época não transmitiam sentimento algum, apenas uma ou outra que faziam sentir algo diferente, nada além disso. Cresci ouvindo histórias de como Chico Buarque, Caetano e Milton cantavam contra a ditadura para as pessoas, para a própria liberdade de expressão, para quem pudesse escutar o grito de socorro deles.

No futuro, irei contar como Cine queria ser completado por uma garota radical, como Créu chegava na velocidade número 5, como a Dança do Quadrado tinha diversas variações, como Restart tinha uma família que era uma puta falta de sacanagem, como Justin Bieber era um Baby baby ooh, como todas as bandas disputavam quem falava mais besteiras e mais letras melosas, como eu vivi em uma época que não contribuiu em nada para a expressão da sociedade, como me sinto mal por isso e de como eles não tinham sobre o que cantar, já que o mundo estava cada vez mais monótono e perdido.

Não serei hipócrita de negar que escuto - e até gosto - de músicas que tocam nas rádios. Gosto sim, escuto sim, mas sei perfeitamente a distinção de música que levarei no meu mp3, mp4, iPod, o que for, e de música que levarei pra vida. Com toda a certeza de que, se você procurar em todas as rádios do mundo inteiro, você não irá achar música para levar para a sua vida. Se achar, me avise, que eu apago toda essa meia hora perdida digitando de como a música perdeu seu verdadeiro sentido para ser algo totalmente irrelevante."

Letícia Panichi, 17 anos, é blogueira e tuiteira do primeiro time e pode ser encontrada aqui.

4.10.10

Um amor de 40 anos

Pode um amor durar 40 anos? Ou mais? Sem ficar antigo, sem envelhecer? Pode alguém esperar tanto tempo pela volta desse amor? Pode alguém acreditar que príncipes e princesas não vão virar sapos? O amor de um menino e uma menina pode continuar brilhando como uma pérola quando eles se reencontram muitos anos depois?

É possível sofrer por alguém na juventude e depois sorrir ao lado dessa mesma pessoa anos depois? É possível amar e ficar quietinho, sem que a pessoa amada saiba desse amor? Quantos tipos de amores você conhece?

Aquele amor que escrevia cartas e não entregava? Que te olhava de longe e você não percebia? Que fazia redações no colégio pra você, mas você nunca leu?

Janis Joplin, em sua curta carreira profissional (1967-1970), conseguiu cantar sobre quase todos os tipos de amores. Ou todos, quem sabe? O tempo foi pouco, mas ela se entregava de tal forma às canções que seu estilo marcou não apenas uma geração. Marcou a arte de cantar. De uma forma que só ela sabia.

Janis morreu aos 27 anos, no dia 4 de outubro de 1970, pouco depois da morte de outra lenda do rock, Jimi Hendrix, em 18 de setembro. Era o anúncio do fim da era Flower Power. O fim de um sonho.

Mas quem disse que não devíamos mais sonhar, John Lennon, no ano seguinte voltou pra dizer que era sim um sonhador e você devia imaginar um mundo melhor. Como nas canções de amor de Janis. Que cantava a solidão e a dor, mas também a esperança de que o amor perdido no tempo pudesse um dia ser encontrado. Ela tinha o apelido de Pearl, Pérola. E então não morre.

Brilha para sempre.

8.9.10

Ídolo

Chico PF
(Francisco Paula Freitas)

O pior, amigo, é que a gente só chama a polícia depois da porta arrombada. Eu não precisava passar por nada disso, de puxar cadeia, sujar meu nome e quase estragar a minha vida. Tinha ali mesmo do meu lado, como exemplo, o meu pai, Jorge Veneno, que eu posso até estar errado, mas nunca vi ninguém mais malandro que ele.

Eu era filho único e, quando era pequeno, ainda não sabia nem ler, já ajudava minha mãe a separar as muitas letrinhas daquelas massinhas de fazer sopa. Era demorado, vinha muito a-e-i-o-u, mas as letras dele eram mais difíceis, o J então! Tem poucas palavras com a letra jota, não é, doutor? Acho que é por isso que vinham poucas. Em cada meio quilo só umas trinta ou quarenta, já do V vinha mais...

É isso mesmo que eu estou dizendo ao senhor: minha mãe fazia sopa de letrinhas para o meu pai só usando o J e o V, que são as iniciais do nome dele. Não jogava o resto fora, com as que sobravam, em outra panela, ela fazia para nós. Na hora dele jantar eu ficava de antena ligada só para ouvir a conversa, mas não pegava quase nada. Só dava para perceber que eles eram felizes porque riam muito. Agora eu pergunto: isso é ou não é malandragem? Ter uma mulher que faz sopa de letrinhas só com as iniciais do seu nome!

O doutor precisava ver a alegria dele tomando aquela sopa, que a velha caprichava no tempero, com cebola, alho, tomate, e tinha sempre um pedacinho de paio. Isso nunca faltou. Hoje eu fico pensando naquele crioulão de quase dois metros, rindo e feliz, tomando sopa, só com as suas letrinhas J e V.

Papai era lustrador de profissão. Ele mesmo preparava o verniz com a goma-laca asa de barata, a cola de madeira e o breu. Fazia no fogão lá em casa mesmo. Minha mãe vivia brigando por causa do cheiro. Era horrível. Depois que inventaram esse negócio de envernizar com pistola ou verniz sintético, e qualquer um passou a ser lustrador, aí a coisa apertou. Não havia mais quase trabalho. Foi uma pena. O velho era brilhante. Gostou dessa, doutor?

Às vezes eles mandavam eu comprar qualquer coisa. Sabe como é, o barraco era pequeno: cozinha, sala, quarto, tudo junto. Naquele tempo a barra era pesada, não era essa moleza de tijolo e telha, era caixote e zinco mesmo. Outro dia vi em uma revista no barbeiro que os bacanas agora também têm apartamentos assim, quarto, mesa, cama, armário, latrina, tudo junto. É um tal de lófiti. Não sei por que os ricos têm essa mania de imitar a gente... A gente faz por necessidade.

Como eu estava dizendo, mandavam eu comprar vela, sabão e querosene. Quando tinha querosene, que era mais longe, eu desconfiava, me demorava mais ainda e aí eles tinham mais tempo, não é? O doutor está me entendendo...

Vou lhe dar mais uma do meu pai. Ele nunca soube a diferença entre um pé de alface e um de couve; entre uma dália e uma margarida. Não é que ainda assim conseguiu que arranjassem para ele um emprego de jardineiro no quartel de São Cristóvão? Lábia e lero é com ele mesmo. Ainda bem que lá não tinha flores nem horta. O trabalho era cortar a grama do campo de futebol, fazer as beiradas, os cantinhos e os arremates nos outros gramados. Isso, inteligente, ele aprendeu logo.

A grana não era a mesma de antes, mas sabe como é, não é, doutor, pouco com Deus é muito. E depois era garantido, tinha segurança. Como milico gosta de grama, doutor! Era tudo verdinho, às vezes ele me levava lá. Mas olha só, meu pai sempre foi vaidoso, ia para o trabalho todo embecado, que minha mãe fazia de tudo para ele ficar bonito. Terno branco só tinha um, mas sempre muito bem lavado e passado. A velha caprichava no tanque, na goma e no ferro de carvão, e lá ia ele todo elegante. Chegava no quartel, tirava o terno e o sapato bico fino, colocava o macacão e o tamanco, e já pra luta!

Ele tinha um armário com cadeado e deixava tudo lá, guardado. Trabalhava de sol a sol com aquela máquina manual de cortar grama, aquele tesourão e uma pequena enxada de mão, para fazer as beiradas e os cantinhos.

À tardinha, tomava seu banho, ia ao armário, abria o cadeado, e saía todo bem vestido novamente. Mas não é que tem sempre alguém invocando com a cara da gente! Um dia ele ouviu um papo de que um novo capitão, um branquelo de merda, teria comentado que esse tal de Jorge Veneno era muito metido a besta, que esse negócio de jardineiro andar de terno e gravata não era coisa que o Exército deveria permitir.

Disse também umas outras coisas que fizeram o velho sentir que iria dançar logo, logo. O quartel inteiro já comentava a antipatia do capitão pelo meu pai, quando um dia... Eu estou lhe enchendo o saco, doutor? Se quiser eu paro.

Não? Então, como eu ia lhe dizendo, um dia o capitão, ao chegar ao quartel, depois de responder à continência do sentinela, andou uns quatro ou cinco passos e caiu fulminado. Morto, mortinho da silva; colapso cardíaco, doutor. Bateu com as dez.

No dia seguinte ao acontecido, meu pai demorou a voltar e, ao chegar em casa, estava muito suado, pois vinha carregando um embrulho enorme. Quando abriu em cima da mesa, mamãe quase deu um ataque e gritou, Jorge, tira isso daqui! Sabe o que tinha dentro, doutor?

Imagens de Exu, de Nanan Buruquê, de Xangô, de Iemanjá e da sua mãe Olokum, de Ogum Xoroquê, o Seu Tranca-Ruas, de Omulu e do Zé Pelintra, por quem meu pai tinha uma especial simpatia, acho que mais pela elegância do que pela fé. Também lamparinas, folhas de papel crepom vermelhas e pretas, fogareiro de barro, tigelas, uns galhos de andiroba, umas velas grossas e outras finas, caixas de fósforos, charutos, uns ferros e uns saquinhos com uns pós estranhos.

Nós somos pobres e pretos, doutor, mas os velhos são tementes a Deus. Lá em casa não tem nada disso de macumba, não. Houve uma época em que mamãe tinha muita dor de cabeça. Minha tia disse que ela estava com “encosto”, que ela era médium e precisava se desenvolver. Pra quê!? Mamãe ficou um tempão sem falar com ela. Mamãe foi, bem dizer, criada por uns alemães que nunca quiseram saber dessas coisas. Depois que o velho explicou tudo a ela, foram dormir.

Dia seguinte, papai, bem cedinho, mais cedo que nos dias comuns, acordou, pegou tudo, embrulhou de novo e levou para o quartel. Aí, dentro do seu armário, fez um gongá caprichado. Arrumou os santos, as tigelas, as velas, as plantas, a lamparina, tudo de modo a parecer um canjerê. Feito o serviço, passou, daí em diante, a esquecer, de vez em quando, de trancar o cadeado...

Sabe como é, não é, doutor? Se hoje todo mundo já bisbilhota tudo, imagina antigamente, no tempo da revolução? E ainda por cima, dentro do quartel do exército! O velho nunca mais foi trabalhar de terno nem de sapato bico fino. O armário não era grande, e depois que virou gongá, não cabia mais sua roupa. Também por um pouco de receio. Acho que ele não queria misturar a roupa que usava com aquelas autoridades.

Resultado: os soldados, sargentos, capitães e o próprio comandante passaram a ter o maior respeito pelo meu pai. Agora eu lhe pergunto, isso é ou não é malandragem? O que é que o filho de Jorge Veneno, um cara como esse, foi fazer com aqueles merdas daqueles ladrõezinhos?

O filho da minha irmã, meu sobrinho. Ah, não lhe falei. Por conta daquelas compras que eu fazia, principalmente a do querosene, acabei ganhando uma irmã, que agora tem esse menino. Mas os tempos estão mudados, doutor, o garoto, com seus seis ou sete anos, logo enjoou de ajudar a avó a catar as letrinhas. Prefere ver filme de monstro na televisão, não sei qual é a graça. Eu não moro mais com eles, mas mamãe ainda está lá, velhinha, mas está.

Ainda este ano, no aniversário do velho, eu fui. Ele estava todo prosa, com uma camisa branca nova presenteada e engomada pela velha. O bolo do parabéns foi à tarde. Ela não faz tanto a sopa, como fazia antigamente, mas o aniversário não deixa passar em branco. No almoço teve, só para ele. Pude ver alguns “as” e “eles”, além dos “jotas” e dos “vês” de Jorge Veneno. É que o A, de cabeça para baixo, se parece um pouco com o V, e o L, invertido, para quem já não está enxergando bem, pode parecer um J.

Nem minha mãe nem o velho percebem e, como o senhor sabe, o que os olhos não veem o coração não sente, não é, doutor? Hoje, papai está aposentado. Não usa mais terno branco nem sapato de bico fino. Vive de pijama e chinelo. Sai às vezes, toma sua cervejinha, joga sueca com os amigos e mais não faz. Dorme cedo.

De vez em quando, vai ao quartel abraçar os velhos amigos. Todo mês, lá pelo dia cinco, chega à casa dele um soldadinho. Leva, dentro de um envelope, com um bonito emblema verde e amarelo, escrito por fora, Ao Senhor Jorge Veneno, uma graninha. Deixa sempre lembranças em nome do comandante e de todos do quartel.

Meu cunhado agora é quem corta a grama.

O gongá ainda está lá.

Publicado em "Café e Bar Ponto Chic", Editora Bertrand Brasil.

1.9.10

Lennon e o verificador de palavras

Esta é a minha leitura dos últimos dias. Uma verdadeira enciclopédia sobre John Lennon, mais de 800 páginas, porém uma delícia para beatlemaníacos. Em breve, publicaremos aqui uma resenha sobre o livro, de uma blogueira amiga que já leu tudo. Eu ainda tô na metade. Mas o que já li me permite recomendar.

Aproveito pra pedir aos blogueiros amigos que eliminem o tal "verificador de palavras", que surge quando vamos fazer comentários. É uma coisa desnecessária, que só nos faz perder tempo. Basta ir nas suas "configurações" e clicar em "não" na opção "verificação de palavras". Muita gente vai me agradecer depois, hehehe!

E, finalmente, uma dica: prestigiem o blog "Le Matinée", criado pela minha amiga Natalia, para cinéfilos da blogosfera. Fui convidado para escrever lá e fiz minha estreia com uma resenha sobre um de meus clássicos favoritos, "Ladrões de Bicicleta". Apareçam! É só clicar aqui:



14.8.10

Roube um lápis para mim

Yvonne Dimanche
CORRESPONDENTE


Vi na televisão um documentário chamado "Roube um lápis para mim". Trata-se da história verídica de um casal de judeus holandeses (Jacob e Inaka Polak) que se conheceu na Segunda Guerra Mundial. Ele, feio, careca, pobre, contador, dez anos mais velho do que ela e casado com uma mulher instável. Inaka era bonita, rica e namorava um rapaz que não chegou a viver muito tempo. Em que pese o grande drama vivido por essas pessoas e suas famílias, poderíamos dizer que eles tiveram alguma sorte, visto que ficaram em um campo que não era tão pavoroso como os demais e as mortes não foram muitas.

Um romance entre um homem casado e uma jovem solteira é assunto tabu até mesmo nos dias de hoje. Eles se conheceram em uma festa e ele se apaixonou perdidamente por ela. As famílias de ambos foram enviadas para esse tal campo em 1943 e todos ficaram no mesmo alojamento. Como ela conseguiu ter uma tarefa burocrática, não foi difícil ter acesso a papéis e lápis. Então os dois resolveram trocar cartas que são simplesmente magníficas e belas, principalmente as dele. Essas cartas ficaram com eles, só que as dela, justamente no dia de sua libertação, caíram na água e ficaram estragadas, só sobraram dez.

Bom, milhões de desgraças depois, ele foi transferido para Bergen Belsen e ela para outro campo cujo nome não me recordo. Acabaram-se as cartas e os dois comendo o pão que o diabo amassou. Até que a guerra acabou e ambos voltaram para Amsterdam. Em 1946, eles se casaram e realmente foram felizes para sempre. Tiveram filhos, netos e bisnetos e até 2007 ainda estavam vivos. Ela, uma senhora extremamente linda, e ele continuou mais feio do que a necessidade, porém charmosíssimo. O amor deles nunca acabou e me deixou sensibilizada demais.

O que eu achei uma maravilha nessa história é que o desejo de realizar esse amor, tão logo acabasse a guerra, foi o que motivou os dois a continuarem vivos. Tiveram alguma sorte no primeiro campo, se é que se pode chamar isso de sorte, mas posteriormente sofreram demais com doenças intermináveis e tudo mais que vocês já tiveram oportunidade de tomar conhecimento.

Esse romance representou para mim um hino ao amor e à superação humana. Enquanto algumas pessoas desistem de viver por conta de uma paixão que foi embora ou porque o seu time foi rebaixado para a segunda divisão, outros fazem opção pela vida e todo o seu esplendor. Foram humilhados e torturados pelos nazistas, mas sempre conservaram dentro de si a sua dignidade e vontade de viver. Eles derrotaram os bárbaros e não se permitiram serem coitados. Conseguiram ser felizes, sabe Deus como.

Quando tomo conhecimento de histórias do tipo, chego à conclusão que não adianta procurar Deus ou satisfação em religiões, ideologias, dinheiro, poder ou seja lá o que for. Tudo que existe de bom no mundo está dentro de nós mesmos e ninguém tem condições de nos tornar felizes, caso não tenhamos vontade de ser felizes. Obrigada, Jacob! Obrigada, Inaka!


Durante alguns anos, Yvonne publicou um dos melhores blogs que conhecemos, o BlogGente. Hoje, dedica-se a outras atividades e é correspondente do Jornal da Lua em Guarapari, Espírito Santo.

2.8.10

O casamento: antes e depois

ANTES do casamento:

Ele: - Finalmente! Custou tanto esperar por este momento.

Ela: - Você quer que eu vá embora?

Ele: - Não! Nem pensa nisso.

Ela: - Você me ama?

Ele: - Claro! Muito e muito!

Ela: - Alguma vez você já me traiu?

Ele: - NÃO! Porque ainda pergunta?

Ela: - Me beija?

Ele: - Evidente! Sempre que possível!

Ela: - Você seria capaz de me bater?

Ele: - Você está doida! Não sou desse tipo de homem!

Ela: - Posso confiar em ti?

Ele: - Sim.

Ela: - Querido!

DEPOIS do casamento: leia de baixo para cima.

16.7.10

Blogs de uma nota só

Dama de Cinzas
BLOGUEIRA CONVIDADA


Mais um post da série "As coisas que eu odeio em blogs!” OK, gente! Já vem eu falar mal dos outros e criar um monte de inimizades! Mas é mais forte do que eu, as situações vão me irritando e chega uma hora que eu explodo num post como este! Também eu nunca fui politicamente correta, nem tenho intenção de ser... Nunca fui boazinha e nem tenho intenção de ser... Nunca fui certinha e nem tenho intenção de ser... Nunca... Ahhh, chega!

Vamos a alguns aspectos, características, detalhes, ou seja lá como quiserem dar o nome, em posts que me cansam realmente:

Tem gente que não sabe que existe parágrafo. Acho que não aprenderam isso na escola. Porque o post fica um bloco só de palavras amontoadas e você não sabe onde termina uma ideia e começa outra... Até pra ler fica difícil, seus olhos acabam repetindo uma linha, ou pulando outra.

Pessoas que se lamentam eternamente da sorte, do destino, são vítimas eternas do mundo, e escrevem isso post após post, sem interrupção. Talvez pra inspirar pena nas pessoas, sendo que pena é um sentimento horrível pra alguém sentir por você. Com o tempo, esses autores de blogs que agem assim acabam por cansar os leitores, que desistem de tanto querer incentivar as pessoas, sem conseguir resultado algum.

Tinha uma menina que escrevia bem, mas ela saturou os leitores, acho que eu fui a última que continuou insistindo, até me cansar. E ela parou com o blog por falta de comentaristas. Porque quem reclama eternamente da vida precisa de platéia, sempre! Claro, gente, que não estou dizendo que NINGUÉM NUNCA deva reclamar em seu blog... Eu mesma faço meus posts desabafos. Mas que tal dosar isso com outros assuntos? Ou então reclame com humor, deixando tudo mais leve e gostoso.

Pessoas que escrevem especificamente pra alguém num post. Manda um recado, faz uma declaração de amor cheia de detalhes que só os dois conhecem, pede pro(a) amado(a) perdoar seus erros... Enfim... Aquele texto que ninguém entende, exceto o destinatário... A pergunta que fica é: porque não escreve um e-mail? Tem um blog que eu desisti de ler porque não existia qualquer outro assunto que não fosse declarações de amor pra amada...

Pessoas sem objetividade... Escrevem um post com um título vago do tipo "A brisa ao luar tem mistérios em mágoas eternas". Aí vai escrevendo de forma confusa e, por mais que force sua mente, você não consegue entender qual foi o assunto/motivo que levou a criatura a escrever o post... Tem uma menina que me foi indicada como excelente escritora, e, por mais que eu leia os posts dela, nada entendo da mensagem que quis passar... Nesses casos, eu desisto rapidinho de tentar seguir a pessoa.

A enorme maioria das pessoas que acham que são poetas e escritores de contos e romances não têm o menor talento pra isso... Que tal falar só sobre si? Fica mais interessante! Eu tenho um amigo querido, que adora escrever poemas... Simplesmente não sei o que fazer quando ele me manda ir ao seu blog ler o último poema... São peéééssimos, com rimas muito pobres e totalmente previsíveis... Affe! É uma saia justa pra mim!

Posts zen... Daquele tipo: "eu amo a vida", "todos temos que nos ajudar", "amanhã tudo será melhor", "precisamos melhorar o mundo". OKKKKK!!! A pessoa tem o direito de ser positiva e querer passar coisas boas, mas esses posts caem no extremo oposto da pessoa que se lamenta o tempo todo.

Soa falso pessoas que estão sempre tão positivas diante da vida, que não têm uma reclamação, um problema, uma chateação, que não se aborrecem com algo que está acontecendo no mundo, parecem um anjo escrevendo um post... Não tenho paciência! Pra mim é o chato zen, que diz que tudo é belo sempre...

Não sou importante ao ponto de dizer o que cada um deva ou não postar, e nem tenho esse direito, simplesmente estou dizendo o que me cansa e deve cansar outros leitores... Também não é que seu blog não tenha que ter nenhum desses posts... Meu blog tem alguns desses posts... O problema é a REPETIÇÃO EXCESSIVA... Isso é que mata um blog.

Blogs de uma nota só se tornam uma tortura.

Dama de Cinzas pode ser encontrada aqui.

9.7.10

Vinícius de Moraes, poeta e cronista - 19/10/1913 - 9/7/1980

Brotinho Indócil

A insistência daqueles chamados já estava me enchendo a paciência (isto foi há alguns anos). Toda a vez era a mesma voz infantil e a mesma teimosia:

– Mas eu nunca vou à cidade, minha filha. Por que é que você não toma juízo e não esquece essa bobagem...

A resposta vinha clara, prática, persuasiva:

– Olha que eu sou um broto muito bonitinho... E depois, não é nada do que você pensa não, seu bobo. Eu quero só que você autografe para mim a sua Antologia Poética, morou?

Morar eu morava. É danadamente difícil ser indelicado com uma mulher, sobretudo quando já se facilitou um bocadinho. Aventei a hipótese:

– Mas... e se você for um bagulho horrível? Não é chato para nós ambos?

A risada veio límpida como a própria verdade enunciada:

– Sou uma gracinha.

Mnhum – mnhum. Comecei a sentir-me nojento, uma espécie de Nabokov avant la lettre, com aquela Lolita de araque a querer arrastar-me para o seu mundo de ninfeta. Não resistiria.

– Adeus. Vê se não telefona mais, por favor...

– Adeus. Espero você às quatro, diante da ABI. Quando você vir um brotinho lindo, você sabe que sou eu. Você, eu conheço. Tenho até retratos seus...

Não fui, é claro. Mas o telefone no dia seguinte tocou.

– Ingrato...

– Onde é que você mora, hein?

– Na Tijuca. Por quê?

– Por nada. Você não desiste, não é?

– Nem morta.

– Está bem. São três da tarde; às quatro estarei na porta da ABI. Se quiser dar o bolo, pode dar. Tenho de toda maneira que ir à cidade.

– Malcriado... Você vai cair duro quando me vir.

Desta vez fui. E qual não é minha surpresa quando, às quatro e ponto, vejo aproximar-se de mim a coisinha mais linda do mundo: um pouco mais de um metro e meio de mulherzinha em uniforme colegial, saltos baixos e rabinho de cavalo, rosto lavado, olhos enormes: uma graça completa. Teria, no máximo, treze anos. Apresentou-me sorridente o livro:

– Põe uma coisa bem bonitinha para mim, por favor?

E como eu lhe respondesse ao sorriso:

– Então, está desapontado?

Escrevi a dedicatória sem dar-lhe trela. Ela leu atentamente, teve um muxoxo:

– Ih, que sério...

Embora morto de vontade de rir, contive-me para retorquir-lhe:

– É, sou um homem sério. E daí?

O "e daí" é que foi a minha perdição. Seus olhos brilharam e ela disse rápido:

– Daí que os homens sérios podem muito bem levar brotinhos ao cinema...

Olhei-a com um falso ar severo:

– Você está vendo aquele Café ali? Se você não desaparecer daqui imediatamente, eu vou àquele Café, ligo para sua mãe ou seu pai e digo para virem buscar você aqui de chinelo, você está ouvindo? De chinelo!

Ela me ouviu, parada, um arzinho meio triste como o de uma menina a quem não se fez a vontade. Depois disse, devagar, olhando-me bem nos olhos:

– Você não sabe o que está perdendo...

E saiu em frente, desenvolvendo, para o lado da avenida.

1966

in Para uma menina com uma flor (crônicas)
in Poesia completa e prosa: "Para uma menina com uma flor"

5.7.10

Não é só o Brasil que tem craques

Tostão

O Brasil fez o melhor primeiro tempo e o pior segundo tempo da Copa. No primeiro, poderia ter feito mais de um gol. No segundo, quando perdia por 2 a 1, foi todo para frente, e a Holanda teve mais chances de fazer o terceiro que o Brasil de empatar.

O Brasil, que fez, durante os quatro anos sob o comando de Dunga, um grande número de gols em jogadas aéreas, levou dois gols nesse tipo de lance.

O Brasil, que procurou, durante quatro anos, um lateral-esquerdo, levou dois gols em jogadas que se iniciaram por esse setor.

O Brasil, que sempre teve um armador pela direita para ajudar Maicon (Elano ou Daniel Alves), nunca teve um armador, pela esquerda, para ajudar Michel Bastos. Desse lado, começaram as duas jogadas dos gols.

O Brasil, que tinha uma grande preocupação com as faltas violentas e as expulsões de Felipe Melo, teve o jogador expulso quando o time perdia e precisava reagir.

O atleta de cristo Felipe Melo, que deu um excelente passe para o gol do Brasil, escreveu em seu Twitter, na véspera da partida: “O melhor de Deus ainda está por vir. Creiam”. Deus não gosta de jogador violento.

Foi uma repetição da Copa de 2006, quando o Brasil foi eliminado nas quartas de final para a França. Lembro que, na época, assisti à partida ao lado de Clóvis Rossi, perplexo com a atuação de Zidane. Dessa vez, não havia Zidane, mas tinha Sneijder e Robben.

Não é só o Brasil que tem craques. Dunga disse, após o jogo, que trocou Luís Fabiano por Nilmar para aproveitar sua velocidade. No momento em que o Brasil perdia e tinha de pressionar e usar as jogadas aéreas, seria muito melhor um ótimo cabeceador que um velocista.

As virtudes do Brasil, bastante conhecidas antes da partida, como o excelente contra-ataque, as jogadas aéreas, a qualidade de seu goleiro (falhou no gol) e de seus defensores, não acabaram por causa de uma derrota. As deficiências do Brasil, como a falta de mais talento na lateral esquerda e no meio-campo, e o despreparo emocional de Felipe Melo para disputar uma Copa, ficaram ainda mais evidentes.

Como em 2006, o Brasil foi eliminado por um time do mesmo nível técnico. Não houve surpresa. Temos de valorizar o adversário. Precisamos terminar com nossa prepotência de achar que o Brasil é sempre melhor.

Publicado no Superesportes em 3 de julho de 2010

26.6.10

Um ano sem o rei do pop

Há um ano, quando noticiaram a morte de Michael Jackson, que ensaiava para uma gigantesca turnê, muita gente prestou homenagens ao astro. Então, resolvemos homenagear os órfãos do rei do pop. Ou seja, os seus fãs. A história deste post é verdadeira e a republicamos porque a blogosfera se renova constantemente e muitos de nossos atuais leitores não a conhecem.

Michael Jackson - 1958/?

Logo que soube da morte de Michael Jackson, me lembrei de um faxineiro que trabalhava na galeria onde eu tinha uma loja de discos.

Ele dizia ter 20 anos, mas parecia menos, pois era franzino, muito magro e baixinho. Assim que abri a loja, ele apareceu e perguntou se tinha lá algum disco de Michael Jackson. "Tem alguns", eu disse. "Qual você procura?"

"Na verdade, nenhum, pois tenho todos. Só quero saber, pois, na hora do almoço, posso vir aqui e ouvir um pouquinho?"

"Claro, pode vir", eu disse.

E ele sempre aparecia lá, escolhia uma faixa e começava a dançar, daquele jeito que seu ídolo tinha imortalizado. Sorria, dizia que era o máximo e depois voltava ao trabalho de limpar a galeria.

Durante quatro anos, ele cumpriu esse ritual de aparecer e pedir pra ouvir Michael Jackson.

Depois, fechei a loja e nunca mais voltei lá. A notícia da morte de Jackson fez com que eu me lembrasse dele e de outras figuras que passavam por lá. Tinha um que andava com uma foto do Bono no bolso. Ele parava qualquer pessoa, na galeria ou dentro das lojas, tirava a foto do bolso e perguntava: "Não sou parecido com ele?" E, se a pessoa demonstrava alguma dúvida, ele ficava de perfil e perguntava novamente: "Assim, nessa posição, não parece?"

Também passavam por lá o Elvis jovem e o Elvis quarentão. Explico: um imitava o rei do rock nos anos 50, com topete, enquanto o outro era gordo e usava um cavanhaque enorme, além de tentar imitar o modo de andar de Elvis, tudo muito bem estudado.

Os clientes, em geral, eram fãs que imitavam seus ídolos. Um imitava John Lennon, outro o Jim Morrison, tinha também Jimi Hendrix, James Brown...

Um dia, percebi uma grande aglomeração no corredor e fui ver o que era. Tomei o maior susto, pois podia jurar que era o próprio Michael Jackson! O sujeito era alto, tinha uma daquelas roupas que Jackson vestia nos shows, igual a um uniforme militar, um tom de pele muito parecido com o astro que deixava de ser negro, também usava maquiagem, inclusive nos olhos, o cabelo com uma ponta escorrendo pela testa, um chapéu... Impressionante a semelhança!

O faxineiro estava lá, no meio da multidão. Pequenino, com seu uniforme cinza, sorria e observava o sósia. Quando tudo acabou, ele entrou na minha loja e disse:

"É bom a gente ter um ídolo, né?"

Por isso, dei como incerta a morte de Michael Jackson no título deste post. Quem tem um ídolo, vivo ou morto, sabe do que falo. Aquele pobre faxineiro, que morava longe e levava horas de ônibus pra chegar na galeria e voltar pra casa, tinha em Michael Jackson um forte motivo pra viver e ser feliz. Hoje, ele deve estar triste, mas logo voltará a ouvir as músicas de seu ídolo e dançar como se estivesse em um palco.

Quando me lembrei dele, depois que soube da morte de Jackson, uma música invadiu meus pensamentos. Foi "Gente Humilde", de Garoto, Vinícius de Moraes e Chico Buarque de Hollanda.

"Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver
Sem me notar

Igual a como
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar

São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar

E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar"

12.6.10

Nós adoramos nossas sogrinhas!

1) A garota chega pra mãe, reclamando do ceticismo do namorado.
- Mãe, o Mário diz que não acredita em inferno.
- Case-se com ele, minha filha, e deixe comigo que eu o farei acreditar!

2) O homem leva um susto ao ouvir de sua cartomante:
- Em breve, sua sogra morrerá de forma violenta.
Imediatamente, ele pergunta à vidente:
- Violentamente? E eu? Serei absolvido?

3) Na delegacia, aparece um cidadão e diz que quer confessar.
O delegado pergunta:
- O que aconteceu?
E o homem: – Doutor, eu matei minha sogra!
- Bem, meu filho, você cometeu esse crime, mas devia estar muito alterado, não se importe, vá pra casa e descanse. Está tudo bem.
- Mas, doutor, eu enterrei a velha!
- Ah, meu filho, viu que boa alma você é? Enterrou a sua sogra e assim já evitou toda aquela burocracia.
- Doutor!!! Mas, quando eu estava enterrando, ela gritava que ainda estava viva!
- Ô meu filho, e você não sabe que toda sogra é mentirosa?

4) Um homem encontra seu amigo na rua e diz:
- Cara, você é igualzinho à minha sogra, a única diferença é o bigode!
O amigo fala:
- Ué, eu não tenho bigode!
- Mas minha sogra tem.

5) Um cara foi à delegacia e disse:
- Eu vim dar queixa, pois a minha sogra sumiu.
O delegado disse: – Há quanto tempo ela sumiu?
- Duas semanas – respondeu o genro.
- E só agora é que você me fala?
- É que custei a acreditar que eu tivesse tanta sorte!

6) A sogra do cara morreu e lhe perguntaram:
- O que fazemos? Enterramos ou cremamos?
- Os dois! Não podemos facilitar!

7) O cara voltava do enterro de sua sogra, quando, ao passar por um prédio em obras, um tijolo caiu lá de cima e quase acertou a cabeça dele.
O homem olhou pra cima e gritou:
- Já chegou aí, sua desgraçada?! E ainda continua com má pontaria!

8) – Querido, onde está aquele livro "Como viver 100 anos"?
- Joguei fora!
- Jogou fora? Por que?
- É que sua mãe vem nos visitar amanhã e eu não quero que ela leia essas coisas!

9) Na sala de espera de um grande hospital, o médico chega para um cara muito nervoso e diz:
- Tenho uma péssima notícia para lhe dar. A cirurgia que fizemos em sua mãe…
- Ah, ela não é minha mãe… É minha sogra, doutor!
- Neste caso, então, tenho uma boa notícia para lhe dar!

10) O cara encontra o amigo e fala:
- Minha sogra morreu e agora fiquei em dúvida, não sei se vou trabalhar ou se vou pro enterro dela… O que é que você acha?
E o amigo: – Primeiro o trabalho, depois a diversão!

11) O sujeito bate à porta de uma casa e, assim que um homem abre, ele diz:
- O senhor poderia contribuir com o Lar dos Idosos?
- É claro! Espere um pouco que eu vou buscar a minha sogra!

12) Qual a punição por bigamia?
Resposta: duas sogras.

13) A mulher comenta com o marido:
- Querido, hoje o relógio caiu da parede da sala e por pouco não bateu na cabeça da mamãe…
- Maldito relógio! Sempre atrasado!

4.6.10

Futebol: um ponto de vista feminino

Tahiana Andrade
BLOGUEIRA CONVIDADA

Como mulher, confesso que não entendo e nem gosto muito de futebol. Todavia, parece que algumas coisas nos são ensinadas por osmose e, no caso do brasileiro, futebol é uma delas!

Muito se falou sobre a tal convocação de Dunga para a Copa de 2010 e ainda há muito para ser falado. Muita gente esperava que Neymar estivesse na lista. Há quem diga que Dunga deveria ter dado uma segunda chance para Adriano, e o mundo inteiro (exagero?) tem comentado e criticado a ausência de Ronaldinho Gaúcho na lista...

Sinceramente? A- D- O- R- E- I!!!

Não é porque não entendo de futebol que não posso entender de comportamento dos jogadores, certo?

Na última Copa, em 2006, o Brasil perdeu feio! O time estava repleto de 'super-jogadores'... 'Estrelas' do futebol nacional. Em campo, os jogadores mais famosos, mais invejados, mais cotados, mais bem pagos. Em cena, uma Copa que marcou um fracasso futebolístico para o Brasil, uma derrota antes mesmo das semifinais. O time de estrelas não funcionou. Torcedores tiveram sua expectativa frustrada!

Sabe por quê?

Porque essas 'estrelas' do futebol não precisam mais mostrar serviço para o futebol. Eles já possuem títulos, fama e, o mais importante, grana. Quando se convoca para a seleção jogadores menos famosos, menos ricos, menos orgulhosos (contrariando todas as opiniões de quem diz entender do esporte), proporciona-se a eles a motivação de se tornarem estrelas do futebol. A fome de bola, de drible, de gol, de vitória será, provavelmente, maior. Não há o orgulho da fama nem o desprezo pelo dinheiro. Ao contrário: há o desejo de ser o responsável por trazer para o Brasil o título de hexa!

Como eu assumi no início do post, não sei realmente muita coisa sobre futebol, não entendo quem joga bem ou não, mas entendo de motivação, de comportamento, de maturidade. Talvez tenha sido a falta de motivação de Ronaldinho Gaúcho o que mais contribuiu para a derrota do Brasil na última Copa. Provavelmente a depressão e a inconstância de Adriano (eu o diagnosticaria como ciclotímico, rs) não deram a ele o merecimento de ser convocado. Possivelmente, Neymar, em suas entrevistas, deu a Dunga a percepção de que ali, brevemente, se manifestaria uma personalidade orgulhosa, prepotente e permanente em sua imaturidade de 18 anos!

Sinceramente, torço pelo Brasil, mas não me importo muito se vamos ganhar a Copa ou não. Esse é o único momento em que o brasileiro demonstra ufanismo pelo seu país e, por causa disso, se esquece das eleições que ocorrem no mesmo ano. Também não me interesso por ver milionários ficando ainda mais milionários simplesmente por correrem atrás de uma bola enquanto ficamos desesperados em frente à televisão, torcendo e gritando, com as nossas contas a pagar nas mãos.

Brasileiro dá mais visibilidade para o futebol do que o merecido e, independente de ser homem ou mulher, há muito mais coisa para torcer em nosso país. O problema é que os convocados, nós, os brasileiros, costumamos ficar parados em campo, vendo a bola rolar, enquanto os milionários tornam-se ainda mais milionários às nossas custas!


Tahiana Andrade pode ser encontrada aqui.

28.5.10

Presidente defende álcool na ONU

Gudesteu Hostalácio
ENVIADO ESPECIAL

O presidente Luiz Polvo da Silva esteve ontem na tribuna da ONU, tentando curar a ressaca da cerimônia da noite passada, quando resolveu experimentar vários tipos de bebidas estrangeiras e provar que nenhuma delas é superior à tradicional caipirinha brasileira.

- A gente não devemos nos iludir - afirmou o presidente - sobre o que vai substituir o petróleo nos nossos carros no futuro próximo que se avizinha. Já foi provado e disprovado qui (hic!) o álcool da cana brasileira é o melhor álcool pra todos os momentos, todos os carros, todos os trens e (hic!) todas as festas do mundo! Por falar em festa, todo mundo aqui já tá convidado pra baita festa que nóis vâmu fazê lá no Rio de Janeiro em (hic!) 2014. Todo mundo vai ver qui a cana de nosso país é a maior cana que tem. Não falo nem (hic!) no tal do açúcar que tamém tiram da cana, pois açúcar é coisa de criança e faz mal prus dentes, como (hic!) ocêis todos aqui sabem. Falo mesmo é do álcool, qui é o que nos interessa aqui, num é mesmo?

Acompanhado pela ex-ministra Magda Suplício e pelo ex-ministro da Fome e Desenvolvimento Social, Paliativus Onanias, o presidente pediu um copo de água gelada:

- Magda, venha dizer umas palavras aqui, enquanto eu tomo uma água, que a ressaca tá braba!

A ex-ministra tirou um espelhinho da bolsa Armani, colocou um brilho nos lábios e olhou pro microfone:

- Aiiiiiiiiiii, de onde veio esse microfone? Quero um pra mim! É tão assim...másculo, vocês não acham? Bem, éééééééé...olha, se eu fosse vocês, não pensava duas vezes: o presidente tá certo, gente! Caipirinha boa é a nossa! É só colocar 51, gelo e limão! Tem gente que gosta de açúcar no meio, mas eu não! Aí, você bebe, relaxa e goza, não é, presidente Polvo?

O presidente voltou à tribuna:

- Agradeço as palavra sempre muito inteligente e oportuna de Magda Suplício. O que ela diz é verdade: se ocêis misturá a 51 com gelo e limão, num pricisa de açúcar ninhum! Tem gente qui gosta, mas eu e a Magda dispensamu!

O representante da Alemanha, Helmutt Hans Fritz Salsichon, pediu um aparte:

- I o que o senhôra pensa do cerveja? O senhôra acha que o cerveja também pode ser uma boa combustível no futura?

- Sem dúvida nenhuma. Sou um grande (hic!) apreciador, mas creio que a cerveja, assim como o chope, ainda depende de muitos anos de istudo e pesquisa pra gente pudê dizê: pronto, tá aprovado pra ser biocombustível. Sugiro, no entanto, que o sinhô e seus amigo da Alemanha continue (hic!) fazendo teste com a cerveja, pra ver se os carro guenta tomá mais chope do que nóis tomamo na festa de onti, tá certo? Bom, minha gente, vamu dexá de cunversa fiada e vamu logo ao qui interessa pra nóis: de noite, tão todo mundo convidado pra tomá uma (hic!) lá na nossa embaixada, certo? A parti de 6 hora, ocêis podi chegá qui nóis já vamu tá lá, tomanu umas i otras. Vô mandá reservá caderas especial pru pessual da Alemanha, Iscócia, Chile, Purtugal e França!

O representante dos Estados Unidos perguntou porque os países citados teriam tratamento diferente. Antes de se retirar da tribuna, o presidente Polvo respondeu:

- E onde é que fáiz u milhó uísque, a milhó (hic!) cerveja, o milhó vinho? Mais, pensando bem, ocê tamém pode ir, qui eu ti arrumo uma cadera legal. Só num isquece de (hic!) levá pelo menu umas trêis garrafa de Jack Dâniel, tá certo?

17.5.10

Depois da Copa, tem eleição

CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIAR

Os números são de 2006, da última eleição. Aumentaram de lá pra cá, principalmente na coluna da direita. Mas os privilégios (da coluna à direita) continuam os mesmos.

7.5.10

Aquela carta que você me escreveu

Real Morte
BLOGUEIRO CONVIDADO


Minha opinião sobre a humanidade não é das melhores. Sempre digo que se a Terra fosse um imenso corpo humano eu seria o Activia que aceleraria a saída de vocês. Deduzam o resto.

A raça humana é patética, frágil, iludida, insignificante, pusilânime, babaca, sem noção, e só digo isso porque estou de bom humor hoje. Se eu desse a real, ninguém aguentaria o tranco e cortaria os pulsos agora mesmo, o que nunca considero uma má idéia, desde que vocês não façam isso na hora da novela. Porém, para suportar tamanha falta de importância e sentido na vida, a humanidade desenvolveu um mecanismo de defesa que funciona até certo ponto: a vaidade.

A mais humana das qualidades, e justamente por isso uma das piores, a vaidade é capaz de torná-los mais sensíveis, mais divertidos, mais ridículos, e eu estaria cagando para ela caso não afetasse meu trabalho ocasionalmente. Sim, porque somente a vaidade explica a preocupação exagerada de alguns de vocês em escrever frases de efeito em cartas ou bilhetes de suicídio, algo que me irrita MUITO. Porque neguinho passa a vida inteira escrevendo no Orkut coisas do tipo “Genti, çaí cuns miguxos onti e foi di-maizzz!!!!” e na hora que vai empacotar vem querer dar uma de que sabe escrever bonito? Não fode! Pegue um post-it e rascunhe um “fui!” pra ninguém perceber seu português meia-boca e estamos combinados.

Quando o cara começa a demorar demais na carta de despedida, eu chego até a me intrometer antes do momento devido. Foi o caso de um famoso presidente brasileiro.

— Chega, Getúlio, já estamos há cinco horas nisso. Largue essa carta.
— Não antes de eu escrever minha última grande frase.
— Não precisa, tá bom assim.
— Não dá. Eu não vou me matar antes de escrever uma frase final perfeita.
— Haja saco. Onde foi que você parou?
— Nessa frase aqui ó: “Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço minha morte.”
— Beleza. Tá lindão.
— Tá mesmo?
— Tá. Não escreve mais nada que estraga.
— Jura?
— Juro. Me arrepiei. Agora pegue esse revólver e se mate.
— Não sei, não estou satisfeito ainda. Que tal se eu fechasse a carta com “serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade”?
— Melhor ainda!
— Acha mesmo?
— Acho. Agora SE MATE!
— Não, ainda não. Ainda tenho a impressão de que não é a frase ideal…
— Mas que merda de frase você quer escrever?
— Uma que valha a pena. Meu medo é abandonar a vida e ninguém se lembrar, não ficar na História.
— Então escreva isso.
— O quê?
— Que você sai da vida para entrar na História.
— Será? Mas não soa um pouco piegas?
— Soa como brega mesmo. Mas morto todo mundo perdoa. Pode escrever.
— “Saio da vida para entrar na História.” Taí, gostei.
— Ótimo.
— Eu gostei muito.
— Que bom.
— Sério, eu adorei, gostei demais.
— Perfeito.
— Ficou tão bom que me fez repensar o meu ato, me deu até ânimo de continuar vivendo. Acho que não vou me matar mais.
— AH, NÃO, MAS NEM FUDENDO!

Eu peguei o revólver e… bem, o resto vocês já sabem. Até hoje muita gente não entende porque Getúlio Vargas deu um tiro no peito e não na cabeça, mas eu nem me preocupei com esse detalhe na hora. Eu precisava botar isso pra fora. Ufa!

Real Morte pode ser encontrado aqui. Se você tiver coragem de ir lá, é claro.

23.4.10

O perigo do carboidrato

Dra. Inocência Pirassununga
NUTRICIONISTA E ENDOCRINOLOGISTA
CRM 99979562443106970321046/MG

Queridas leitoras:

Atendendo ao convite do charmoso editor deste telejornal (é um jornal que está na tela, portanto É um telejornal!!!), escrevo este artigo no sentido de alertar todas vocês sobre os perigos de um carboidrato que geralmente está na mesa do povo brasileiro.

Antes de mais nada, é preciso lembrar que nem todo mundo tem grana pra comprar esse tal carboidrato. Outras, não têm nem mesa pra colocar o carboidrato. Algumas têm mesa e até arrumaram uns trocados pra comprar o carboidrato, mas só depois lembraram que não têm fogão, nem gás, nem pratos e muito menos panelas. Estas leitoras podem parar a leitura por aqui mesmo, pois esse assunto não as interessa nem um pouco, posso garantir!

Mas, as que têm essas coisas todas aí devem prestar atenção no meu método de emagrecimento para quem quer perder peso rapidamente. Muito se fala, quando o assunto é carboidrato, no espaguete, na lasanha, no canelone (ai, que delícia!!!), como se essas invenções dos italianos pudessem fazer algum mal à saúde.

Ora, mas que coisa mais idiota! Se macarrão fizesse mal à saúde, Sophia Loren seria bonita daquele jeito? E Claudia Cardinale? Gina Lollobrigida? Isto, sem falar nos homens italianos (aaaiiiiii, cala-te boca!!). Um dia, contarei sobre minha viagem a Roma, Florença, Veneza, mas agora não posso.

A massa (e que maaaaassaaaaaa, aaaiiiii!) italiana não tem nada com isso. Mostrarei e provarei que, para se manter uma silhueta que deixa os homens babando, basta apenas evitar o arroz!

Sim, isso mesmo! O arroz é o grande vilão de nossa alimentação! Ontem mesmo, fui almoçar aqui perto com o pessoal deste jornal e provei que podemos passar tranquilamente sem o arroz em nossa alimentação diária. Enquanto eles enchiam o prato de arroz, se empanturrando de carboidrato, eu fui pra outra prateleira e segui a minha dieta.

Misturei quatro coxas de galinha (ou seja, duas coxas de uma galinha e mais duas coxas de outra galinha) com um farto pedaço de pernil (de porco) e 25 colheradas de pirão, feito com a mais genuína farinha brasileira.

Pronto! Provei a todos que é perfeitamente possível fazer uma boa refeição sem o tradicional acompanhamento do arroz. Tudo é uma questão de tradição, nada mais! Alguns céticos poderão perguntar: mas, como é possível o arroz engordar, se os povos do Oriente, como japoneses, chineses, coreanos e vietnamitas, comem tanto arroz e são tão magros?

Ora, minhas amigas, a resposta está no livro do fenomenal nutricionista e endocrinologista japonês Mijaro Nomuro, que escreveu o best-seller "Ping Johga Habola Kon Pong", que, traduzido literalmente, quer dizer "Porque o arroz é benéfico em épocas de guerra, mas muito perigoso em épocas de paz".

No famoso best-seller, o professor Mijaro Nomuro, que passou os últimos 50 anos se dedicando a defender sua tese de que o macarrão, principalmente o frito, é muito bom e gostoso, e o arroz é perfeitamente dispensável, explica claramente que os povos orientais são magros, mesmo comendo arroz, porque eles mesmos colhem o arroz.

Naquela ginástica de abaixa-levanta pra colher o arroz, ainda mais no meio daquele aguaceiro todo, os povos orientais acabam perdendo muitas calorias. Não é mole ficar o dia inteiro naquele abaixa-levanta, experimenta pra você ver! À noite, depois que terminam o serviço, os orientais estão tão cansados que nem conseguem descascar o arroz. Assim, comem o arroz integral mesmo! Entenderam?

De acordo com as pesquisas do professor Mijaro Nomuro, a casca tem um componente que combate o carboidrato do arroz. É por isso que os orientais não engordam. Se você, minha amiga, ver um japonês gordo, pode saber: ou é lutador de sumô, que comeu muito arroz branco pra engordar, ou é um japonês que vive viajando pelo mundo e comendo o que não presta.

Numa próxima oportunidade, quando nosso charmoso editor me convidar novamente, escreverei sobre uma de minhas sobremesas favoritas: arroz doce!

É, com doce pode. E vou explicar direitinho. Mais uma vez, com a ajuda do famoso professor japonês Mijaro Nomuro!

Até lá, garotas!

11.4.10

As grandes questões existenciais

Lana Esthevlana
COLUNISTA ANTI-SOCIAL


Vida - Com uma boa pitada de hedonismo e uma dose do bom e velho rock and roll, por favor.

Morte - Só se for pra morrer de amor, baby.

Vida após a morte - Se existir, vai ser danada de boa. Afinal, se cada um vai mesmo receber aquilo que merece, eu vou me dar bem. Adoro ajudar os outros (sem hipocrisia) e só faço maldade quando extremamente necessário (tenho uma teoria fodida sobre isso [vida após a morte, pessoinha lerda], se alguém quiser saber, me manda um e-mail). Até porque, se desfrutar da vida eterna lá no céu é sinônimo de ser otário aqui na Terra, prefiro ir pro quinto dos infernos. Ouvi dizer que lá é open bar. Opa, tô bêbada!

Reencarnação - Passar pelo colégio outra vez? Ah, não! Quero não. Quebra essa aí pra mim, tiô.

A nossa insignificância diante do universo infinito - Desanimador. Principalmente quando, enquanto você se mata de estudar, um cara que mal terminou o 2º grau ganha milhões pra bater uma bolinha.

Ser ou não ser - Eis a questão (duh, que original eu sou). Depende do ponto de vista: eu quero ser rica, mas quero não ser investigada pela Receita Federal.

A angústia existencial diante da transitoriedade de tudo - Primeiro a gente quase enlouquece de tanto pensar a respeito. Depois, acredite, isso passa.

O cérebro humano está capacitado a responder a todos os enigmas da existência? - Pode repetir? Me distraí com um emoticon que tava pulando na janelinha do msn.

Um sistema econômico voltado para as necessidades sociais e não dominado pela cupidez humana - Contanto que eu seja bem-sucedida e viva no luxo, apóio o que vier.

O que é mais importante, a genética ou o meio? - A genética. Porque se você for bonito, vai ser bonito em qualquer meio. E isso já facilita muita coisa nesse mundo. Tá me olhando assim por quê? É a dura realidade da vida, ora.

Existe um ser superior que dirige as nossas vidas? - Se existe, ele definitivamente não fez por merecer a carteira de habilitação.

Pra onde caminha a humanidade? - Pro fundo do poço e descendo. Acho que vou comprar um balão.

A incrível, fantástica, extraordinária Lana Esthevlana também pode ser encontrada aqui

1.4.10

Três anos na blogosfera

Redação do Jornal da Lua. Entram Gudesteu e Apulcro.

Gudesteu: - Os balões ficaram bem, aqui no meio da sala?

Apulcro: - Eu gostei. Acredito que o pessoal também vai gostar.

- E os convites? Mandou pra todo mundo?

- Mandei. Só não tá na lista aquele que dizia pra gente ler o blog dele no ...

- ... Ótimo! Esquece esse cara mesmo! Mas, e os nossos amigos de verdade?

- Peguei os nomes de todos os blogueiros e blogueiras que publicaram os e-mails em seus blogs. Pode ser que ainda falte algum nome, a blogosfera se renova constantemente, preciso conferir as últimas visitas que tivemos.

- Lembrou também das pessoas que nos acompanharam durante um bom tempo, desde o início, mas depois fecharam seus blogs?

- Creio que estão todas na lista. Fecharam os blogs, mas amizades foram feitas ao longo desses três anos e não devem terminar por isso.

- Tá certo! Hoje mesmo eu tava comentando com uns chegados aí que devemos ter mais amigos na blogosfera do que no chamado mundo real, né?

- É mesmo! E dizer que tudo começou há exatamente três anos, depois que o Cadinho fez o blog dele e insistiu que o nosso estimado chefinho também fizesse um.

- E ele nos chamou pra essa tal de blogosfera. Temos sido felizes aqui, né?

- Sim, porque nossa opção foi fazer com que nossos visitantes pudessem rir e pensar sobre a chamada realidade.

- Não apenas rir, mas também pensar.

- Então, nem todo post é engraçado, mas, se o leitor não rir, pode encontrar algo pra pensar.

- Essa é a ideia. Como sugeriu de cara o nosso chefinho, antigo fã daquele jornal que fez muito sucesso nos anos 70, "O Pasquim".

- Sem esquecer a revista "Mad", editada no Brasil pelo Ota, que trabalhou com o Bill na extinta Editora Vecchi.

- Ah, sim, essa mistura foi que gerou o Jornal da Lua.

- Não podemos esquecer dos colaboradores da blogosfera, que logo surgiram, e ainda surgem, pra dar um novo tempero às nossas publicações.

- Esses não podem faltar! Nem no blog, nem em nossa festa de três anos!

Entra Lana Esthevlana.

Lana: - E aí, moçada? Tudo pronto?

Apulcro: - Ainda tenho uns convites pra mandar...

Gudesteu: - Mas deixa a porta aberta! Quem for chegando, vai entrando. Chama o pessoal todo e vamos comemorar o terceiro ano do Jornal da Lua.

Apulcro: - Que foi fundado no dia primeiro de abril, mas não apenas pra contar mentiras. De vez em quando, contamos verdades também.

Lana: - É mesmo? Pensei que era tudo mentira!

Gudesteu e Apulcro: Hein?!?!

Lana: - Calma, gente!! Brincadeirinha!!! Socorro!! Socorro!!!

19.3.10

Pergunte ao Bigô

Ivani Cunha
JORNALISTA CONVIDADO


Já escrevi sobre o Aristides (Tide) da Margarida, um dos personagens inesquecíveis da minha infância na Vila Nova Esperança dos anos 50. Naquela crônica, concentrei-me nas travessuras do homem com alma de moleque, que não dispensava uma boa birita, amava a música e o ofício de treinar cães de caça. Mas, ao contar aqueles casos, veio-me também à memória o filho dele, Luiz “Bigô”.

Imagino que o menino tenha desenvolvido, desde muito novo, uma rara capacidade de abstração, pois conseguia dormir nas madrugadas de festa em sua casa. Não era uma casa de muitos cômodos; portanto, onde estivesse, a música e as risadas estariam sempre bem perto. É certo que Bigô sempre conseguia adormecer antes daquele momento terrível em que começava uma briga qualquer, talvez por causa de algum sujeito atrevido que resolvera dançar um pouco mais agarrado com a mulher... do outro. Talvez por outro motivo, do qual ninguém se lembraria algumas horas depois.

Nunca soube por que a briga sempre envolvia o Aristides. Acho que, na tentativa de apartar os brigões, ele acabava ofendendo um deles, ou quem sabe exagerava ao exigir respeito. Mas, ora bolas, ele era o dono da casa. Depois, como eu já contei, a história se repetia: aparecia o Tide gritando da cerca, ou diante da porta da cozinha de nossa casa, que havia alguém no seu calcanhar com uma faca.

Bigô dormia.

Acordávamos bem cedo no domingo, e também nos outros dias, como se tivéssemos de atender a alguma obrigação. Mas a nossa agenda era sempre a mesma: conversar fiado lá no fundo do quintal, apoiados na cerca de arame farpado. Do lado da minha casa havia uma pequena horta, um galinheiro e, mais abaixo, um espaço para o lixo. Eu disse lixo, mas para o Bigô e para mim, às vezes, aquele espaço era uma espécie de despensa ao ar livre. Um dia pegamos ali uma garrafa de Biotônico Fontoura que se encontrava pela metade e a entornamos goela abaixo de uma só vez. Em outra oportunidade, saboreamos uma lata de doce de leite quase cheia – depois, é claro, de afastar centenas de formiguinhas que se deliciavam com a guloseima. Estava um pouco azedo, mas desceu bem.

Não sentimos sequer uma discreta dor de barriga depois dessas e de outras estripulias gastronômicas no fundo do quintal. Benditos sejam os mecanismos de defesa que Deus coloca no organismo das crianças.

Bendita seja também a camaradagem e, mais do que isso, a cumplicidade existente entre as crianças. Minha relação com Bigô foi marcada por muitos atos de cumplicidade, mas eu destaco um, na poeira dessas histórias que se passaram há meio século.

Um dia, eu brincava com o meu estilingue no alto da escada que ligava a cozinha ao quintal. Bigô estava lá no fundo do lote deles. O amigo me desafiava a acertar uma lata no meio do lixo e eu já havia feito várias tentativas, todas em vão. De repente, uma galinha – a mais bonita, a melhor poedeira do quintal – atravessou distraída na linha de tiro. A pedra acertou-lhe em cheio o papo. A ave não conseguiu dar nem mais um passo. Caiu morta.

Bigô pôs a mão direita na cabeça, a esquerda na boca, e com o olhar admitiu que já estava com pena de mim, pois certamente eu levaria a maior surra de vara de marmelo da minha vida.

Fiz, com o dedo indicador sobre os lábios, o clássico sinal de pedir segredo sobre aquele desastre.

Algumas horas depois, minha mãe descobriu o corpo da gorda galinha no quintal: “Quem diria que essa galinha fosse adoecer e morrer assim de uma hora para outra, não é?” Em seguida, ordenou que eu jogasse a ave num buracão no fim da rua, pois havia o risco de contaminação de todo o galinheiro.

A verdade sobre a morte daquela galinha seria revelada uns 40 anos depois do incidente. Eu mesmo já não tinha nenhum filho com a idade em que cometera a travessura, e minha mãe, então uma criaturinha frágil, incapaz de empunhar uma vara de marmelo, disse que eu estava inventando história...

– Pois então pergunte ao Luiz Bigô... – respondi.

Ivani Cunha é jornalista em Belo Horizonte