lobo e lua

lobo e lua

15.3.09

Comunicado ao público


Por causa da quebradeira dos bancos, da queda nas bolsas, dos cortes no orçamento, e visando o racionamento mundial dos combustíveis e da energia elétrica, informamos que a luz no fim do túnel foi desligada, OK?

8.3.09

Introdução à política


ANTES DA POSSE

O nosso partido cumpre o que promete.
Só os tolos podem crer que
não lutaremos contra a corrupção.
Porque, se há algo certo para nós, é que
a honestidade e a transparência são fundamentais.
Para alcançar os nossos ideais
Mostraremos que é uma grande estupidez crer que
as máfias continuarão no governo, como sempre.
Asseguramos sem dúvida que
a justiça social será o alvo da nossa ação.
Apesar disso, há idiotas que imaginam que
se possa governar com as manchas da velha política.
Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
se termine com os marajás e as negociatas.
Não permitiremos de nenhum modo que
as nossas crianças morram de fome.
Cumpriremos os nossos propósitos mesmo que
os recursos econômicos do país se esgotem.
Exerceremos o poder até que
Compreendam que
Somos a nova política.


DEPOIS DA POSSE

Basta ler o mesmo texto, DE BAIXO PARA CIMA

Colaboração do nosso amigo Bernardo Moura

1.3.09

As incríveis sacadas de Groucho Marx

Ele foi um dos maiores comediantes do cinema. Um dos motivos de sua fama eram as frases que usava nas comédias dos Irmãos Marx. Com vocês, Groucho Marx:

Acho a televisão muito educativa. Toda as vezes que alguém liga o aparelho, vou para outra sala e leio um livro.

Do momento em que peguei seu livro até o que larguei, eu não consegui parar de rir. Um dia, eu pretendo lê-lo.

Estes são os meus princípios. Se você não gosta deles, eu tenho outros.

Eu corri atrás de uma garota por dois anos apenas para descobrir que os seus gostos eram exatamente como os meus: nós dois éramos loucos por garotas.

Eu nunca esqueço um rosto, mas, no seu caso, vou abrir uma exceção.

Eu pretendo viver para sempre, ou morrer tentando.

Eu quero ser cremado. Um décimo das minhas cinzas devem ser dadas ao meu agente, assim como está escrito em nosso contrato.

Há muitas coisas na vida mais importantes que o dinheiro, mas custam tanto!

O matrimônio é uma grande instituição. Naturalmente, se você gostar de viver em uma instituição.

Por que eu deveria me importar com a posteridade? Ela nunca fez nada por mim.

21.2.09

Carnaval? Tô fora!

Lana Esthevlana
COLUNISTA ANTI-SOCIAL


Carnaval é uma festa de contradições. Pelo menos pra mim.

Até traz um pouco de felicidade sair de noite e se divertir como se aquele fosse seu último dia na face da Terra. Mas, no fundo, o que eu mais desejo é que essa festa abarrotada de gente suada e semi-nua termine logo.

Particularmente, prefiro o Carnaval à moda antiga. Fantasias e marchinhas é diversão na certa, sem dúvida.

Nada de pessoas te apertando, se esfregando em você, pisando no seu pé, te queimando com cigarro e te passando cantadas bregas com bafão de cerveja.

Hoje, Carnaval parece um tipo de eufemismo para "sexo sem compromisso". Não que todas as pessoas que curtem o Carnaval pensem dessa maneira, mas é difícil não ter este tipo de avaliação.

Principalmente quando se está na rua e o que mais passa pela sua frente são meninas de micro-saias, tirinhas denominadas de blusa e sandálias, em que o salto mais parece um bloco de concreto.

E, em contrapartida, vê-se caras com enormes cordões de "ouro", boné pra trás, bermudas multicoloridas de marca falsificada (e tênis também), blusas no estilo "mamãe-sou-forte" ou então sem blusa, que é pra mostrar o corpitcho sarado ou o protótipo de barriguinha de chopp. No melhor estilo Bad Boy.

E o único papo que se ouve é "gostosa, hein?", ou então "te achei muito linda, gata. Vamu ficá?".

No fim das contas, o Carnaval de hoje, ao meu ver, se resume a calor, música de qualidade duvidosa e a obrigação de se sentir feliz. E sarado.

A inigualável Lana Esthevlana também pode ser encontrada aqui.

16.2.09

Um conto de Carnaval


Regina Lewinsky
CORRESPONDENTE

- Vai, vai, vai ...Caminha, ômi! Deixa de ser frouxo e num vai pensando que eu vou ficá cum pena de tu não, que eu num vô, visse?

- Betinha, eu vou voltar, Betinha!.. Juro por Deus que eu num tô aguentando esse sol quente na minha cabeça ... Ai, ai, ai, ai!

- Apoi eu quero vê tu voltá ... Volta, pa tu vê, volta! Tu volta um carai, que tu vorta! Quando eu disse a tu que num bebesse onti porque eu queria vim pro Galo da Madrugada e a gente tinha que se acordá cedo, o que foi que tu fizesse? Ficasse foi mangando de mim, num foi? Apoi, intão, agora aguenta a ressaca debaixo do sol e do frevo! Num quero nem sabê!

- Ôxe! E tu queria o quê, mulé? Como era que eu podia não beber, se ontem foi o dia da saída do Bloco “CARANGUEJO SAI”, que é lá da comunidade do mangue aonde nós mora? Logo eu, que sou o presidente do bloco, num ia sair não, é?

- E precisava tu encher o c... de cana? Tomasse uma ou duas cervejinha, tava bom demais ... Mas não! Tinha que chegar c’as aprecata procurando caminho, feito um balai de bosta! E além do mais, eu preveni: num enche a cara não, porque, com tu ou sem tu, eu vou pro Galo de todo jeito!

- Eu sei, mas agora eu não tô em condições de acompanhar o Galo, de jeito nenhum, porra! Tô aqui todo me tremendo, com dor de barriga, dor nas pernas, zonzo e a minha cabeça parece que vai explodir... Eu não vou não! Quero ver quem vai me obrigar!

- Ah, não vai não? Então fica aí, ou volta pra casa a pé, porque o teu dinheiro tá aqui comigo e eu não vou te dar ele de jeito e maneira, que é pra tu não ir se misturar com aquele bando de quenga que tava lá na barraca do fim da rua quando a gente passou. Pensa que eu não vi não, é? Eu tô ficando é veia, não é besta, não!

- Que quenga, o quê, mulé! Aquilo é as menina lá do meu trabalho, vixe! Essa mulé é muito desbocada ... Nem conhece as menina e já tá xingando elas! Betinha, sem brincadeira: Eu não tô conseguindo nem me pôr em pé ... Vê como eu tô suando, feito tampa de chaleira! Vamo pra casa e mais tarde, quando eu ficar bom, a gente sai no Homem da Meia Noite!

- O QUÊÊÊÊÊ??? Desde que a gente se conhece, tu já visse eu passá um Carnaval sem acompanhá o GALO DA MADRUGADA? Nem quando eu tava buxuda eu deixei de vir, agora eu vou deixá só porque tu enchesse a cara? É ruim, hem?

- Sabe de uma coisa? Eu tô vendo que, nessa conversinha, a gente já tá quase atravessando a ponte, o Galo já entrou na Rua da Concórdia e daqui a pouco a multidão arrasta a gente de um jeito, que eu não vou conseguir mais sair. Eu não dou mais um passo. Pronto!

- Ah, é? Então, meu nêgo, plante-se aí, que nem uma estáuta, porque eu vou cair na folia e não sei a hora ou o dia que chego... Ah! E tem mais: se prepare pra levar gaia, porque eu não sou mulher de pular sozinha!

E lá se foi Betinha, juntar-se à irreverente turba, entoando, em alto e bom tom, o chamado irresistível a qualquer pernambucano, às primeiras horas do Sábado de Zé Pereira, pelas ruas do centro do Recife:

“EI, PESSOAL, EI, MOÇADA!
CARNAVAL COMEÇA
NO GALO DA MADRUGADA!!!"

Regina Lewinsky também pode ser encontrada aqui.

8.2.09

Povo brasileiro reage contra a "devassidão" da Amazônia


Pelo menos é o que demonstram alguns que participaram do ENEM 2008. Vejamos:

"O problema da amazônia tem uma percussão mundial. Várias Ongs já se estalaram na floresta."
(E levaram o disco da Xuxa, onde ela canta "Brincar de Índio")

"A amazônia é explorada de forma piedosa."

"Vamos nos unir juntos de mãos dadas para salvar o planeta."

"A floresta tá ali paradinha no lugar dela e vem o homem e créu."

"Tem que destruir os destruidores por que o destruimento salva a floresta."
(Pra deixar bem claro o tamanho da destruição)

"O grande excesso de desmatamento exagerado é a causa da devastação."

"Espero que o desmatamento seja instinto."

"A floresta está cheia de animais já extintos. Tem que parar de desmatar para que os animais que estão extintos possam se reproduzirem e aumentarem seu número respirando um ar mais limpo."
(Os animais extintos também merecem uma cerveja para comemorar quando o ar estiver limpo)

"A emoção de poluentes atmosféricos aquece a floresta."

"Tem empresas que contribui para a realização de árvores renováveis."
(Todo mundo na vida tem que ter um filho, escrever um livro e realizar uma árvore renovável)

"Animais ficam sem comida e sem dormida por causa das queimadas."
(E também sem o Home Theater e os DVDs da coleção dos Trapalhões)

"Precisamos de oxigênio para nossa vida eterna."
(Amém!)

"Os desmatadores cortam árvores naturais da natureza."
(E as renováveis?)

"A principal vítima do desmatamento é a vida ecológica."
(Deve ser culpa da morte ecológica)

"Explorar sem atingir árvores sedentárias."
(Peguem só as que estiverem fazendo caminhadas e flexões!)

"A fiscalisação tem que ser preservativa."
(Os fabricantes de Jontex, por exemplo, deviam ajudar!)

"Não podem explorar a Amazônia de maneira tão devassaladora."
(Ou seja: devastadora + avassaladora)

"O que vamos deixar para nossos antecedentes?"
(O que vocês sugerem?)

1.2.09

Doutor Bruegel atende


Maldito dr. Bruegel: eu gostei tanto, tanto, quando me contaram que lhe encontraram chorando e bebendo na mesa de um bar. E que quando os amigos do peito por mim perguntaram, um soluço cortou sua voz, não lhe deixou falar. Ah, mas eu gostei tanto, tanto, quando me contaram, que tive mesmo que fazer esforço pra ninguém notar! O remorso talvez seja a causa do seu desespero. Você deve estar bem consciente do que praticou. Me fazer passar essa vergonha com um companheiro! E a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou. Mas enquanto houver força em meu peito, eu não quero mais nada, só vingança, vingança, vingança aos santos clamar. Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada, sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar!
(Andréa Parafuseta - Paris, Texas)

Prezada Andréa Parafuseta: rasgue as minhas cartas e não me procure mais! Assim será melhor, meu bem! O retrato que eu te dei, se ainda tens, não sei, mas, se tiver, devolva-me! Deixe-me sozinho, porque assim eu viverei em paz! Quero que sejas bem feliz junto do seu novo rapaz. Rasgue as minhas cartas e não me procure mais! Assim vai ser melhor, meu bem! O retrato que eu te dei, se ainda tens, não sei, mas, se tiver, devolva-me!
Devolva-me!
Devolva-me!

24.1.09

De como encontrei o rock and roll (ou de como ele me encontrou)

Lana Esthevlana
COLUNISTA ANTI-SOCIAL

Não gosto de dizer que sou uma pessoa eclética. Para mim isso soa exatamente como “oi, não tenho personalidade e ouço com prazer o que estiver tocando”.

Alguns dizem que sou “roqueira”, mas acham estranho, pois eu não me visto somente de preto e, acima de tudo, sou cheirosa e não me drogo. Rótulo é uma coisa infame, não?

Bem, não sou roqueira-rebelde-sangue-nos-olhos visto que sou louca por uma boa roda de samba. Não sou sambista (ou sambadeira, sei lá... hahaha!) e também amo bossa-nova. Ahn, não importa. No fim das contas, eu prefiro dizer que gosto daquilo que me faz dançar, seja por dentro ou seja por fora.

Entretanto, admito que o estilo que mais gosto é o rock, pois algo contido na mistura dos sons de sua guitarra, baixo e bateria me faz lembrar de liberdade. Me faz pensar em vida.

E na vida.

Lá na década de 90, considerada por mim como a década dos últimos suspiros do rock, quando eu estava na quarta série do primário, não era uma menina de muitos amigos. No caso, não de muitos amigos da minha idade. Eu gostava de ficar com o pessoal da 6ª e da 7ª. Eles que tinham uns papos legais e usavam roupas legais. Casaco xadrez, All Star rabiscado e calça rasgada. E as músicas que eles ouviam? Era melhor do que brincar o dia inteiro na rua. Eu poderia passar a tarde toda deitada no chão do meu quarto, com os fones de ouvido do meu moderníssimo walkman tocando Nirvana, Pearl Jam e Ramones.

Não sei explicar a magia. Na verdade, acredito que não seja possível. Só lembro que, à medida que fui escutando as bandas, não conseguia parar. E minha vontade de ouvir mais e mais músicas era tanta que o pessoal mais velho decidiu me dar uma overdose de rock. Me contaram sobre o surgimento do rock and roll, de suas origens negras e do impacto cultural que causou. Foi como uma iniciação numa seita secreta.

Depois das aulas teóricas, veio a prática.

Pratiquei ouvindo bandas e cantores como: Creedence Clearwater Revival, Bruce Springsteen, The Beatles, The Rolling Stones, The Who, The Cranberries, The Doors, Raul Seixas, Legião Urbana, David Bowie, U2, The Clash, Rod Stewart, The Animals, AC/DC, Elvis Presley, Aerosmith, Led Zeppelin, Bad Company, Dire Straits, Pink Floyd, Barão Vermelho, Cazuza, The Beach Boys, Scorpions, Velvet Underground, Billy Joel, Bryan Adams, RPM, Eric Clapton, Metallica, Queen, Social Distortion…

Claro que não vou colocar o nome de todas as bandas aqui, pois se tornaria uma leitura absurdamente extensa e cansativa. Sem contar que minha memória não é tão boa assim. Porém, achei importante citar boa parte da música que me fez entender o que é a liberdade. Pois pode até soar um tanto patético/poético, mas, quando escuto algumas dessas bandas, sinto que posso parar no tempo e analisar minuciosamente cada coisa da vida. E nada como transformar revoltas, angústias, desejos e sorrisos em música.

Um brinde ao bom e velho rock and roll. Um brinde à liberdade de espírito através da música. Seja ela qual for.

A sensacional Lana Esthevlana também pode ser encontrada aqui.

18.1.09

Ecos

Conto de Chico PF
(Francisco Paula Freitas)

– E como poderia esquecer? Você era uma boa bisca, tomava todos os meus namorados. Primeiro foi o Nathanael, filho do tio Curiácio. Não, não era o mais velho, era o do meio, aquele mais moreno, forte, que passava as férias lá em casa; depois foi o Abílio, do seu Serafim, o farmacêutico lá de Mata Cavalos. Teve também o Nico do cartório, primo do Quincas Macieira, o pianista; foram tantos que você me tomou... Você com aquela sua carinha de songamonga chantageando papai o tempo todo só porque tinha tido a “espanhola”, já estava mais do que curada e ficava fingindo, dava aqueles desmaios... Eu te perdôo, você era muito levada. Bons tempos aqueles, não eram, Neusa?

— Se eram; mas isso faz muito tempo! Você também era bem sonsa. A propósito, você está com noventa e um, não é?

— Está maluca? Como noventa e um se eu sou apenas dois anos mais velha que você e pelo que eu sei você está com oitenta e oito? Por Deus Nosso Senhor, por que não perde essa mania de querer me fazer mais velha do que sou?

— Não, Cota, oitenta e oito teria o mano Sylvio se estivesse vivo, que Deus o tenha, e eu sempre fui mais moça do que ele, um ano.

— Então você quer dizer que tem oitenta e sete e eu noventa e um? Não é possível, pode ser até que eu tenha mais de oitenta e nove, mas ainda não fiz noventa e um mesmo! Minha memória anda fraca esses dias e minha cabeça não está lá muito boa para contas, depois, não sei por quê, sempre que a gente conversa, você vem com essa sua mania de falar de idade. Pare com essa teimosia, Neusa, já lhe pedi, encoste um pouco mais a veneziana, o sol está muito forte, me passa esta linha. Haja paciência! Louvado seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.

— Para sempre seja louvado, mas teimosa é você, Cota, e não vou passar linha nenhuma. Deixa de ser mandona. Se quiser, venha buscar ou peça por favor.

— Lembra-se do... Como era mesmo o nome dele? Aquele empregado do tio Manduca, o... Ah! Lembrei, o Charles! Ele não usava sapatos, não havia para o tamanho dos seus pés. Era muito engraçado, negro que só ele com aquela beiçola e aquela risada banguela. Era americano, começava a contar, via que não entendíamos, apontava para o céu, gesticulava e dizia que já tinha andado de aeroplano. Não falava quase nada da nossa língua, e assim mesmo tia Isaura mandava ele às compras. Na volta, vinha sempre meio grogue e com quase nada do que tinha ido buscar. Quando titia reclamava, ele ria sem parar. Vivia fazendo patacoadas.

— Diziam que fora marinheiro, tomou uma carraspana e perdeu o navio que voltava para a terra dele. Sem documentos, foi parar no Pedregulho, lá onde o Judas perdeu as botas. Tio Manduca, que era da guarda-civil, ficou com pena, o acolheu e o trouxe para casa.

— Que fim terá levado?.....

— Não sei não, acho que pelo tempo já deve ter morrido.

— Falar em morte, sabe quem está muito mal? A Castorina. Não bastasse a artrose. Reparou nas mãos dela? Depois que o Rosas se foi, ela começou a definhar, definhar, e já não anda. Fica só naquela cadeira. Agora parece que vai ter de ser internada. Eu bem que queria telefonar para ela, mas com este telefone novo é muito difícil, a ligação nunca se completa. Parece estar sempre escangalhado... A filha, aquela sirigaita, sempre viajando, não pode ficar com ela. Tão moça, coitada, ainda não fez oitenta anos e está nesse vai não vai.

— Você sabia que eu flertei com o Rosas? Foi na festa da cumeeira da casa da tia Alice... Ele era bonito que só. Tinha uns sorrisos...

— Sabia sim. Você achava que nós éramos bobas, pois sim.

— É, mas por esta luz que me alumia, namorávamos só com os olhos. Se eu lhe pedir uma coisa, você jura que faz?

— Só com os olhos, uma figa! Bem que ele fazia aquele olhar de songamonga, mas não diga isso que Deus te castiga. Você vivia abarracada, pensa que eu não via? Naquele convescote da Quinta da Boa Vista eu tive que dar uma volta enorme com a mamãe, que Nosso Senhor a tenha, para que ela não visse você e aquele tal de Antenor Galalau, lá perto do lago, atracados... Faço, diga o que é. Eu também namorei muito e sei o que é isso. Sabendo levar, a vida é muito boa. É como eu sempre disse, se você quiser ser feliz, seja.

— Não, não desvie, eu quero é que você jure que vai fazer o que eu vou pedir. Mas tem que jurar!

— Fale logo, Neusa, eu juro, quero que Deus me cegue.

— Quando eu morrer, você não vai me deixar ir no caixão sem pintura. Promete? Jura?

— Que coisa mais mórbida! Por que isso agora? Você está com saúde. Que idéia maluca é essa? Quem disse que você vai morrer? De onde tirou esse pensamento? Essas coisas não acontecem assim tão de repente, Neusa. É bem verdade que já estamos entradas no tempo. Mas, já que você tocou no assunto, pensando bem, podemos fazer uma combinação: se eu for primeiro, você terá que fazer o mesmo comigo, eu também quero ir bem bonita. Além disso, não sei se é verdade, mas, Deus me livre e guarde, ouvi dizer que em algumas pessoas a boca não fecha mais quando morrem e... você sabe, depois que o Emílio me fez esta prótese... Só se amarrar um lenço para manter a boca fechada, senão... pode cair, já imaginou? Que vergonha!

— Está bem, mas ah! meu Deus, para que você foi se lembrar disso, se acontecer comigo, você não deixa, Cota, por amor a Deus, dá um jeito, mas lenço em mim, não. Vou ficar horrorosa; nunca fiquei bem nem de lenço nem de chapéu. Lembra que quando eu colocava qualquer coisa na cabeça, eu ficava feia, estranha. Existem pessoas que não podem colocar nada na cabeça, já outras, não só podem como ficam muito bem. Mamãe mesmo, que Deus a tenha no Reino dos Céus, era uma dessas, ficava linda de chapéu... Mas, em último caso, você vê qualquer coisa. Quem sabe um daqueles estampadinhos, amarrado no queixo, tipo camponesa, como o que eu usava na praia, no período que passamos na casa que papai alugou no Caju? Sempre fui caprichosa e acho que ainda o tenho. Lembro de você tão pálida, tão magrinha, se não fosse o iodo daquelas águas acho que não resistiria ao linfatismo. A ideia do doutor Salles em nos mandar para a praia foi que lhe salvou. Lembra-se, mana?

— E como, mana, e como! Mas que friagem, está um vento danado. Você não sente frio não? Assim vou me constipar. Fecha este postigo.

— Não fecho nada. Se quiser, levante você, ou peça por favor. E sabe o que mais? O diabo que te carregue!

Publicado no livro "Café e Bar Ponto Chic" - Editora Bertrand Brasil

11.1.09

Vem cá, meu anjinho, com a titia

Maristela Bairros
CORRESPONDENTE


Quando estiver no restaurante e for premiado com a presença de lindas criancinhas alternando choro, risadas e correrias entre as mesas, não se abale nem invente de ir até os pais reclamar.

Aja sorrateiramente.

Levante, pare no meio do corredor e, quando uma delas se aproximar, zoando, abaixe-se, com o mais meigo dos sorrisos, e diga a ela que, se não for para o colo da mamãe, você vai arrancar as orelhas dela na boa.

Ou, se não quiser ser tão radical, apele para mitos antigos: diga que o bicho-papão está vindo para levar todos os amorzinhos de crianças que correm e atrapalham as refeições dos adultos.

Pode dar problema com os pais, mas vale a pena. Você será inesquecível nas lembranças dos pimpolhos.

Publicado em “Chutando o Balde – O livro dos desaforos”, Editora Artes e Ofícios

Maristela Bairros também pode ser encontrada aqui.

4.1.09

Millôr, o pensador

Ninguém ignora que o homem é um produto do meio. E que o meio é um produto do homem. O resultado não poderia ser outro – a mediocridade.

Morrer é uma coisa que se deve deixar sempre pra depois.

Nasci com talento melódico numa época em que o pessoal só se interessa por percussão.

Analista é um sujeito que, partindo de premissas falsas, consegue chegar a conclusões perfeitamente equivocadas.

Se os animais falassem, não seria conosco que iriam bater papo.

Nunca deixe de fazer amanhã o que pode deixar de fazer hoje.

Nas noites de Brasília, cheias de mordomia, todos os gastos são pardos.

Um desses livros que quando você larga não consegue mais pegar.

50% dos doentes morrem de médico.

Chato é uma pessoa que não sabe que “como vai?” é um cumprimento, não uma pergunta.

Todo governante se compõe de 3% de Lincoln e 97% de Pinochet.

Quem se curva aos opressores mostra a bunda aos oprimidos

Especialista é o que só não ignora uma coisa.

Fobia é um medo com PhD.

Toda fotografia antiga é uma punhalada.

O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia.

O gourmet é o comilão erudito.

O haddock é um bacalhau que venceu na vida.

O homem é o único animal que cuida bem do animal que vai comer.

Há escritores que se acham eternos. Mas são apenas infindáveis.

Eu escrevi um livro, plantei uma árvore e criei um filho. Hoje, meu filho, embaixo da árvore, queima o livro.

O humorismo é a quintessência da seriedade.

Idade da razão é quando a gente faz as maiores besteiras sem ficar preocupado.

Desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal.

Um otimista não sabe o que o espera.

Millôr Fernandes