lobo e lua

lobo e lua

31.1.08

Jurema

Chico PF
(Francisco Paula Freitas)


Vi Jurema na praia. Lá ia eu, lá vinha ela.
Com a aproximação, estranhei seu
novo penteado e as longas luvas amarelas
que iam até os cotovelos. A mala de lona retangular
e sua roupa também preta, naquela manhã de sol, soavam
um tanto exóticas.

Jurema não era disso, era discreta. Como mudam as
pessoas, eu pensava enquanto ia. A poucos passos, percebi
não tratar-se de Jurema. Claro, nem poderia ser.
Jurema havia morrido há alguns anos. Como confundir
aquela negra, metida em suas luvas amarelas que iam até
a altura dos cotovelos, com Jurema já morta; que fora,
em vida, a moça tímida e envergonhada que eu conhecera
na infância? Depois, o que significava aquilo? Dez
e meia da manhã, sol forte, aquela mala de lona, a roupa
p reta e as longas luvas amarelas, que agora podia ver,
eram de plástico. A resposta veio logo após sua passagem.

Dei uma parada, virei-me e a vi abrir o fechecler e
colocar na mala mais uma latinha de refrigerante que
acabara de catar entre os restos na lixeira da calçada. Há
em alguns miseráveis uma nobreza, um orgulho que teima
em lutar contra a humilhação. Aquela mulher que
agora de perto pude ver, e que nada tinha da boa, doce
e meiga Jurema, confirmava com seu porte e gestos o
que eu acabara de pensar. Não pude evitar um sorriso.

Talvez estivesse querendo rever Jurema, lembrar-me
dela. Por isso vi naquela mulher que vinha um pretexto,
e não mais que isso, para trazer à lembrança a pessoa
de quem poderia, e isso só me teria feito bem, ter
vivido um pouco mais próximo.

Mas por que diabos as aproximei? Será que a bondade
e a placidez de Jurema tinham algo a ver com a eficiência
e modernidade, digamos assim, da pobre mulher
da mala com fechecler que pegava suas latas? Associações
estranhas: altivez, bondade, eficiência, orgulho,
mansidão. Vá eu compreender...

Agora que continuo caminhando e a mulher orgulhosa
e um tanto airosa com suas luvas amarelas, que me
impressionou pela sua desenvoltura e altivez, ficou para
trás, longe dela, vou refazendo e remontando os pedaços
da boa lembrança.

Não sei se cheguei a ver Jurema com o uniforme da
escola pública, penso que sim, mas não tenho certeza.
Do penteado, que nunca mudou, e foi o único em toda
a sua vida, me recordo e bem. Era comum. Hoje quase
não se vê. Lembrava uma maria-preta. Aos antigos não
preciso, aos mais jovens, explico: maria-preta era uma
espécie de balão sem bucha, sem papel fino e sem cola
que as crianças pobres faziam. Bastava uma folha de jornal.

Estendia-se a folha, juntava-se o canto superior
esquerdo ao canto inferior direito e o inferior esquerdo
ao superior direito. Feito isso, quando as extremidades
se encontravam no centro, eram enroscadas e apertadas.
Aí, com cuidado para não amassar e desfazer o bojo, era
só colocá-la de bruços e tocar fogo nos quatro cantos.
Ao mesmo tempo em que ela se incendiava, ia subindo
até a altura dos telhados, quando, já toda queimada, se
desfazia em papel carbonizado e caía aos pedaços. Assim
era o penteado de Jurema, um pixaim onde eram dados
quatro pequenos nós em cada punhado de cabelos que
convergiam e se ajustavam em quatro cantos na cabeça.

Toda sua vida foi de entrega e renúncia. Na verdade,
penso que nunca a viveu para si. Viveu-a para os outros.
No início, para a macumbeira que a adotara. Como tantas,
Jurema, ainda bem pequena, foi apanhada para
criar. Mas a caridade de quem a acolheu era mera vitrine
ou falsificação da bondade. O que a mulher queria e
de fato conseguiu era uma escrava. Já abolida, ainda que
apenas formalmente, a escravidão imposta exclusivamente
pela cor ainda existe para todos, negros ou não,
desde que confinados à miséria, à ignorância e à falta de
oportunidades.

Mas não nos percamos.

Mesmo criança, Jurema não era bonita, muito ao
contrário. Entre as brincadeiras das meninas havia a do
diabo. Formava-se uma roda, e uma, por sorteio, fazia o
papel dele. Para tal, arregalava os olhos, rilhava os dentes,
punha a língua para fora e grunhia, fazendo a cara
mais feia que pudesse fazer. As outras o desafiavam cantando
algo como "... o Diabo tem dois chifres, gelofrê,
gelofrá..." Provocado, ele avançava sobre o grupo, que
fugia aos gritos em nervosa e dispersa disparada. Aquela
que o diabo conseguisse pegar faria o seu papel na próxima
vez, e assim por diante.

Quando coincidia do diabo ser Jurema,
o terror tomava conta de Marlene. Ela sentia
tanto medo, corria tanto, mas tanto, que tinha
a impressão de que iria morrer se fosse
apanhada pelo diabo-jurema.

Mocinha, Jurema, negra retinta, com seu penteado
de maria - preta, aos domingos ia ao cinema.
Um dinheirinho qualquer bastava. O ingresso
era barato. Depois, na pracinha suburbana,
as moças de braços dados, umas com as outras,
circulavam em um sentido e os rapazes em
outro. Este carrossel proporcionava um encontro a cada
volta na praça. Nos momentos em que os jovens
se admiravam e sorriam, Jurema, tímida, olhava para o chão.

Contou que não ficara aborrecida com uma colega
que respondera ao jovem galanteador que ela era sua
empregada. Compreendera: não ficaria bem. Todas
eram brancas e lindas; eu, burra, feia, preta.
Mais adiante, ainda no batente, agora com carteira
assinada, passadeira da fábrica de gravatas de seda, oito
horas por dia junto ao ferro, vence a vergonha, atreve-se
e consente conversar com aquele que, acredita, pode-
ria vir a ser um namorado. O primeiro. Tinha na época
mais de trinta anos. Ficou toda prosa, parecia
uma adolescente. Após uma semana de tímidas
conversas no bonde de segunda classe, ele alega
certa dificuldade financeira, Jurema empresta-lhe
e nunca mais o vê. Não ficou com raiva: ele precisava,
coitado.

Ficava triste quando alguém lhe dizia que não tinha dinheiro .
Ganhava o mínimo e dava-o todo a quem lhe pedisse.
Sobrinhos, então... Quando recebia, passava na porta da
amiga Marlene e perguntava se ela não queria comer
uma coisa gostosa. Um sorvete, ela comprava; um bife,
ela fritava. A felicidade dela sempre dependeu da felicidade
dos outros.

Trocados tinha sempre, e com eles fazia a fé que seria
salvadora. Das amigas, dos sobrinhos e dela também, se
sobrasse... Todos os dias jogava. Preparar o jogo era o
seu grande momento. Às vezes tentava dormir um pouco
para ver se no sonho vinha alguma inspiração. Era divertido
ver Jurema com os talões do jogo do bicho e as listas
dos resultados arrumados, lado a lado, em perfeitas
disposição e organização cronológica, cercando o veado
para que ele não fugisse... Dia após dia, lá ia Jurema ao
apontador levar seus tostões à sorte. Sua lógica era infalível:
se o mês tem trinta dias e o jogo tem vinte e cinco
bichos, jogando no mesmo todos os dias, no fim de um
mês, no máximo, devo acertar. Jamais ganhou.

No escuro, um vulto escuro me assusta. Na entrada
da vila, encostada ao muro, braços cruzados, a cabeça
pendida, apoiada no ombro, ouço Jurema:
—Sou eu, estou aqui vendo o céu, é tão bonito...
Marlene dizia que jamais vira um ser humano assim;
que era um anjo de bondade, de ternura, de educação.
Tinha plena consciência de sua feiúra, por isso preferia
esconder-se, andando sempre de cabeça baixa, envergonhada.

Porém, era só encará-la e descobrir a doçura e a
bondade em seu triste olhar. Sempre tesa, ainda assim
ajudava a todos. Era só ter. Irmão, amigas, sobrinhos.
Ninguém ficava em falta. Chegava a se encalacrar com o
agiota para dar o dinheiro a quem precisasse. Até a conta
de luz dos amigos, ameaçados pelo corte, ela pagava.

Vive o resto dos seus dias debruçada no fogão, cozinhando
para os sobrinhos que não lhe poupam nem
compreendem sua dor e sofrimento. Não ouve os conselhos:
Você, assim, vai morrer, sua boba. Descansa,
pára um pouco! Põe esses marmanjos para trabalhar. A
todos responde, dizendo: São apenas crianças, cresceram,
mas são meninos, não têm mais mãe...

Quando morre a mulher que a acolhera e a criara,
Jurema convida o irmão e uns outros sobrinhos para
morar na casa que ficara com ela. Má educação, cachaçadas
e escândalos passam a fazer parte da vida de
Jurema. São em tudo o oposto a ela. Não consegue conviver,
vai embora, e ainda assim continua a pagar o aluguel
para que eles lá permaneçam. Não quer que voltem
para o buraco onde viviam...

Magra e minguada, no hospital, entre aquelas paredes
e lençóis brancos, onde vai morrer dali a alguns dias,
só se vê a cabecinha negra, miúda com seu penteado de
Maria-preta.

Os olhos cheios d'água, Jurema, mãos dadas à velha
amiga, com voz sumida, pergunta:

— Marlene, beijar na boca deve ser bom, não é?

Publicado no livro "Café e Bar Ponto Chic"
Editora Bertrand Brasil - 2003

28 comentários:

Nana Lopes disse...

Bom dia!!!!
Menino que historia bacana!!
Aqui em Brasilia, sua Maria preta chamamos de galinha choca.
Ano passado na �poca de festa junina, ensinamosa molecada a fazer e ainda sapecamos uma competi�o pra ver qual ia mais distante com direito a trofeu de batata doce assada,kkkkkkkkkkkkk.
De volta aos velhos tempos de infancia...

Leticia disse...

Fiquei presa á cada nova frase.
Tocante.

Bruna disse...

Oi Bill,

Muito lindo. Mas é trissssste ...sniffs. Sabe de uma coisa? nunca entendi porque pessoas boas têm que sofrer.

Beijo grande

Marcela disse...

Depois os meus posts é que são grandes, né Jurema? aushuahsuhaushuahsau
Mas dessa vez eu te desculpo, valeu a pena! Perderia (ou ganharia, né) mais meia hora lendo outro desses! Ótima escolha!
E pára de me taiar kkkkk
Um beijo!

alex e! disse...

...nossa, que surpresa ótima esse texto aqui! Redondinho, muito bem lavrado e de uma delicadeza ímpar... durante a leitura, me lembrou um pouco a força narrativa do Lima Barreto e também a sinceridade (muitas vezes brutal) do Caio Fernando Abreu, porém mesclados num todo de uma originalidade bastante criativa - e ferina... Adorei mesmo! muitíssimo!!!...

Teresa disse...

que talentooooooo esse Chico!

Me lembrei de um amigo meu que namorava com uma Jurema hehehe

algumas coisas de jurema são bemm parecidas!

=*

Sheherazade disse...

Bill,
Mais triste do que a triste vida da Jurema é saber que há mais "Juremas" entre o céu e a terra do que pode sonhar a nossa vã filosofia. E como as há!
Muito tocante este post, fugindo completamente da tônica do teu blog, mas servindo pra lembrar-nos de que, infelizmente, nem tudo na vida são sorrisos e alegrias.

Bom carnaval, querido (e vê se volta com o fígado incólume, viu?)
Beijosssssssssssss

Nadezhda disse...

Como as coisas são irônicas.

Hoje estava com uma luva amarela. E não se assemelhava em nada com que li.

E achei bonito o que li ;)

Beijo.

Nanda Kiedis Declama disse...

Que bom gosto!!
Quero ler esse livro!

Bjs

Nana Lopes disse...

Oi mocinho!!Passando pra deixar bom dia!!

Adri - Dri - Drika disse...

Oi Bill

Seu texto realmente é cativante... vou linkar vc, para voltar mais vezes, um grade bju ;)

Anônimo disse...

Chico
VC escreve magistralmente!
parabens!

Elisabete cunha

Ana Fernandes disse...

o jornal mais completo da blogsfera!

Bridget Jones disse...

Nossa! Estou tocadíssima...

Quer dizer então que a coitadinha da Jurema não deu um beijo sequer na boca de alguem?

Pelo jeito a Jurema também era para-raio de doido né? Um doido caloteiro que poderia ser tema de um post lá do consultório se a histórinha não fosse tão trágica.

E o doido cachaceiro com os sobrinhos? Mais uma que poderia virar post.

Pena que a Jurema já se foi.

Beijos
Para-Raio de Carnaval postado hj!

maristela disse...

Amiiiiiigo! Então deve ser isso que Hemingway classifica de escrever com sinceridade. Inveja roxa! bjs da convalescente (dor de blog, conhece?) e briguenta gaúcha que não esquece de você nem deste cantinho.

Natália disse...

Meu Deus que história triste! E hiper real!
Ser bom é legal, mas demais assim faz com que as pessoas esqueçam de si próprias!!!

Agora quero ler o livro! rsrs

Beijos!

Só Magui disse...

Belo texto, entre romântico e triste.
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Kamilla Barcelos disse...

Adorei esse post!!

Essa história é lindíssima, e nem é tão longe da nossa realidade. Já que conhecemos várias pessoas que vivem mais pelos outros do que para si mesmo!!

Betty disse...

Excelente!
Acabo de conhecer mais um dos seus talentos, e cada vez mais admiro você.
Beijinho.

JuJu disse...

Que conto maravilhoso! Chico P.F. mandou ver, hein!
...
Eu não sei porquê, mas o seu conto me lembrou isto aqui: http://fanfics.animespirits.net/visualizar/27341/
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Ana D disse...

Jornal da LUa também tem seu lado sensível e comovente..rs..

Jaya disse...

Ô Juremaaaaaaaaaaaaa!
Rs.

Eu demorei tanto pra vir aqui comentar, porque achei que fosse demorar pra ler o texto. Engano meu. Terminou rápido demais!

Bill, obrigada pelos comentários de sempre lá no "Chá", viu? É legal saber que valho por duas! Rs.

Beijo.
:*

menina lunar disse...

Que texto hein!! Apesar desse ar triste, adorei... Quilométrico e muito bem escrito, maravilha.

Beijo!!

Kamilla Barcelos disse...

Ahhh... como vc está linkado no meu blog lá tem três selos de presente p/ vc!! Mas eu vi q em seu blog vc já ganhou alguns deles... De todo jeito por mim vc está presenteada pq seu blog merece todos eles!!

Layla Lauar disse...

Oi Bill

Que linda esta crônica-prosa-poética, muito bem escrita... parabéns ao Chico PF por tê-la escrito e a vocÊ por tê-la postado. Fiquei encantada.

Mandei email procê.

Mocuishle, disse...

...
{Pausa e respiração profunda}

Por essas e outras que preciso criar vergonha nessa minha cara gorda e começar a ler.

Vc é um incentivo, Bill!

Amanda Bia disse...

linda história! daquelas que dóem no coração, sabe?!
quantas Juremas não devem existir nesse mundo afora...
beijos!