lobo e lua

lobo e lua

1.3.11

A importância da receita médica

Numa pequena cidade do interior, uma mulher entrou em uma farmácia e disse ao balconista:

- Por favor, quero comprar arsênico.

- Arsênico? Mas, não posso vender isso assim, sem mais nem menos! Qual é a finalidade?

- Matar meu marido.

- Para este fim? Piorou, minha senhora. Eu não posso vender....

A mulher abriu a bolsa e tirou uma fotografia do marido, transando com a mulher do balconista.

- Ah, booom!... COM RECEITA É OOOUUUTRA COISA!

23.1.11

Cidadão Kane



Um clássico inesquecível! Sigam este link:

http://lematinee.wordpress.com/2011/01/19/cidadao-kane-1941/


Caso alguém queira comentar, por favor comente no blog Le Matinée (link acima), onde o post sobre Cidadão Kane foi publicado. Os comentários aqui foram desativados e só voltarão na próxima postagem. Obrigado a todos.

7.1.11

Receita de frango com batatas

Pegue um frango de mais ou menos 2 kg

1 kg de batatas

500 ml de azeite extra virgem

Cheiro verde e pimenta a gosto


MODO DE PREPARAR

Gratine as batatas

Beba uma dose de whisky

Tempere o frango com cheiro verde, pimenta e azeite

Tome mais duas doses de whisky

Junte as baatatass no frango e leve ao forno

Toma oooooutra dose de uissski

Acompanhe visualmente o pato, quer dizer o vrango, pra num queimá

Mais uma dose de uviske

Deixa ele no vorno umas 04 horas bra ele zi vudê de calor e bebe oviske na gaaaarraaaava memo

Tira o bicho daquela pooorrra de vorno

Pega o vrango que caiu no jão e limpa ca gamisa memo

Bebe mais uma

Desliga a bóóóósta do vogão, garaio!

Zi voda que queimô, cê nem gossta muito desssta porrra de bato

Pega o que zobrô do viski, liga a tevesisão, deita no zofá e dórmi!

26.12.10

Então, é Natal?!


Rúbia Gondim
BLOGUEIRA CONVIDADA

Recebi durante a semana uns 3957 e-mails, 2573 scraps, 102 mensagens no Facebook, cerca de 75409327584 tweets e algumas DMs desejando-me um “feliz Natal” em cartões enfeitados com renas, neve, o bom velhinho, dingo bells e tudo que o photoshop dá direito. Algumas (sei lá, umas 3 ou 5) pessoas citaram o nome de Jesus. Diziam eles, trocando em miúdos, que Jesus é capricorniano. Engraçado isso, porque Capricórnio é signo de quem nasce em dezembro. Ele no máximo é de Áries. Talvez meus amiguinhos tenham trocado os nomes, porque quem faz aniversário nesse dia é Mitra, um camarada chegado em vinho e pão.

Dois milênios depois que Constantino instituiu o 25 de dezembro como Natal, ver filmes hollywoodianos em que os pais dizem aos filhos que o presente embaixo da árvore de plástico foi deixado durante a madrugada por um sujeito gordo, velho e barbudo que desceu pela chaminé, virou costume. Como a vida imita a arte, essas fantasias ainda são alimentadas na cabeça dos pivetes. Mas isto traduz o espírito de abnegação do Natal, já que você se mata durante 12 meses pra comprar o presente mais caro na Ri Happy e quem fica com os créditos de bom velhinho é o Noel; você fica apenas com o nome no Serasa.

As crianças da Etiópia são malvadas, por isso ficam sem presentes no dia 25 de dezembro. Isso não importa muito, já que lá eles não comemoram o Natal. Aliás, lá eles não comemoram nada! O que há pra se comemorar ganhando U$ 94,00? Já que Noel não investe em presentes para os famintos etíopes, decidi colocar em minha cartinha um Troller T4, um Wii e um apê em Dubai. Coisinha singela para que o espírito natalino se manifeste em meu coração, assim como se manifestou no coração de Edir Macedo, Estevam Hernandes, bispa Sônia e outros corruptos universais, assembleianos, pentecostais… Só espero que Noel não seja onisciente – como o Google – senão eu fico até sem as meias que minha avó insiste em me dar todo ano, todo ano, todo ano!

Mas, o Natal tem outro objetivo além de ficar de folga, comer peru e panetone, aprontar e ficar ileso porque seus pais querem manter a harmonia familiar (pelo menos na frente dos convidados para a ceia), ganhar presentes nos N amigos ocultos que você participa (mesmo sem querer), entrar de férias e encher a cara na frente da sua sogra, sem que isso seja uma ofensa para aquela alma pura… E esse objetivo transcende todo rancor guardado em nossos corações, é maior que qualquer sentimento mesquinho e atos sujos. Devemos prestar atenção no ser magnífico, altruísta, humilde e, ainda assim, superior: o papa. Alguém lembra o nome desse cara que substituiu o João Paulo II? Seja quem for, não quero ele entrando de madrugada na minha casa, ainda mais se tiver alguma criancinha por perto. Michael Jackson que me livre!

Rúbia Gondim pode ser encontrada aqui.

10.12.10

O pedreiro que tricotava

Ivani Cunha
JORNALISTA CONVIDADO

(Para meu pai)

É pouco provável que o pai do leitor ou da leitora saiba tricotar.

Trabalho, passatempo, vício, tricô é coisa de... mulher.

Meu pai, com suas mãos ásperas de operário da construção civil, ignorou esse estigma e aprendeu a dominar as agulhas de tricô. O fio de lã, passando de uma agulha a outra, permite a execução de dois tipos de ponto que servem de base a grande variedade de padrões, define o “Aurélio”. Mas a leitura do dicionário é insuficiente para alguém aprender a fazer; é preciso prestar atenção em outra pessoa que já tricota, depois treinar e treinar.

O início, para ele, foi por acaso, numa das longas fases de afastamento do trabalho motivadas pela doença de Chagas, que o levaria desta vida antes dos 60 anos.

Uma de minhas irmãs treinava com as agulhas, enquanto meu pai lia o seu jornal kardecista. Um olho nas páginas, outro nas mãos da filha, nas agulhas que iam e viam, depois voltavam ao início formando a teia.

Nos dias seguintes ele continuou a observação, sempre sentado na mesma cadeira diante da filha. Aprendeu todos os detalhes: a posição das mãos, a altura em que deveria manter a peça diante dos olhos, a trajetória das agulhas, seus volteios, quando fazer inserção única ou dupla nas carreiras, etc.

Uma tarde ele esperou a filha levantar-se da cadeira para ir à cozinha ou cuidar de outro afazer. Então pegou os novelos de lã, as agulhas e começou a atravessá-las na peça com movimentos sincronizados, comparando de tempo em tempo o resultado do trabalho com o já produzido pela titular do serviço.

Estava bem concentrado quando a dona do tricô retornou à sala. Entregou-lhe os apetrechos e, meio sem graça, reiniciou a leitura do jornal. A filha procurou algum estrago em seu tricô e não encontrou. Apenas desconfiou que não havia interrompido o trabalho naquele ponto. Se, naquele momento, tivesse prestado atenção no homem à sua frente, veria seu meio-sorriso de satisfação.Talvez até pudesse ler em seus olhos que ele achara muito mais fácil aprender a tricotar do que levantar paredes e fazer o acabamento das obras – e nisso ele era mestre.

Tricotar era bem mais fácil e deixava a cabeça leve, os problemas esquecidos horas e horas numa parte escura da memória.

Assim, ele aprendeu a produzir sapatinhos e fez um par, de lã azul-clarinha, para o primeiro neto. Depois tricotou uma blusinha de mangas compridas da mesma cor para o bebê.

Os filhos se surpreenderam só um pouco com a nova diversão do pai. Bem melhor que o vício do cigarro, cultivado desde a juventude e só abandonado poucos anos atrás, depois de muitas ameaças dos médicos.

Não durou muito o gosto pelo tricô, mas valeu como mais uma demonstração de versatilidade daquele homem que aprendeu a tocar violão de ouvido, tinha sempre um livro à mão e evitava ensinar o significado das palavras (“Meu filho, consulte o nosso dicionário e aproveite para aprender mais, lendo também o sinônimo da palavra que vem antes e o daquela que vem depois dessa que você procura”).

Desconhecia a barreira que naquela época impedia a maioria dos homens de assumir o fogão e preparava deliciosos bolos e broas de fubá no forno a lenha, e depois no fogão a gás. “Não comam quente porque terão dor de barriga”, dizia, depois de conferir o cozimento enfiando o cabo do garfo na massa, quase deixando ler em seus olhos o real objetivo da advertência, que era o de manter os apressados a distância do fogão.

Ficou também a lembrança dos escassos períodos em que meu pai, depois dos 40, tinha condições de trabalhar. Nesses dias, levantava mais cedo cantando modinhas antigas e preparava um feijão tropeiro legítimo, com todos os ingredientes proibidos pelo médico.

Nunca mais comi feijão tropeiro com aquele delicioso sabor de transgressão, e até hoje não sei de ninguém que use com a mesma competência a colher de pedreiro e a agulha de tricô.

Ivani Cunha é jornalista em Belo Horizonte

10.11.10

Música

Letícia Panichi
BLOGUEIRA CONVIDADA


"A música é o maior mistério do mundo. Como combinações sonoras e melodias resultam naquilo que eu, e muitos outros, não conseguem passar um dia sem ouvir? Independente da letra, do tipo musical ou até mesmo da batida, só é preciso que haja aquele efeito no corpo. Aquele que fará você mudar de sensação, passando para um mundo paralelo. Aquele que colocará um sorriso em seu rosto, ou até mesmo lágrimas nos olhos. Aquele que fará suas pernas saírem dançando a cada compasso do ritmo. Aquele que, com certeza, é o melhor curativo para qualquer ferida emocional.

Depois de anos de conturbadas mudanças musicais, os anos 60, 70, 80 e até os 90, o mundo esqueceu o que é musica - exilando os poucos que ainda se salvam. Música não é qualquer grito, ou qualquer palavra dita em um ritmo que não combina, que não transmite efeito nenhum, nenhum mísero sentimento. Não é preciso apenas ter um rosto bonitinho para se tornar músico.

É mais que isso. Me sinto ofendida pelos grandes nomes da música que são obrigados a ter a mesma profissão que muitos que não batalham para conseguir. Nomes como Elton John, os próprios - e meus amados - Beatles, Eric Clapton, Creedence Clearwater, Led Zeppelin, Cazuza, Cássia Eller, Janis Joplin, Aretha Franklin, Michael Jackson, U2, Rolling Stones, Rita Lee, Chico Buarque, Etta James, Bob Marley, entre inúmeros outros que possuem o grande reconhecimento que têm do mundo. Não precisa gostar da música deles, mas é preciso que saiba reconhecer o que eles foram e o que eles são para o mundo.

Vivo em um lugar em que o sentimento musical, de revolta, de paz, de amor, de ódio, de ilusão e de desilusão deram lugar para palavras sem nexo jogadas no ar. As letras são sempre as mesmas, os acordes variam entre C e D, nada mais que isso. Nenhum sentimento de satisfação, nada.

Não posso os culpar, estamos localizados em uma década de nada de importante à História. Nada mesmo. A música é a expressão do que sentimos e do que estamos vivendo. Quando não há nada de novo acontecendo, não há sobre o que cantar, além de "Como eu te amo baby baby", "Vem ser minha yeah yeah", "Sou foda, me adora".

Me envergonho de que no futuro irei contar de como as músicas da minha época não transmitiam sentimento algum, apenas uma ou outra que faziam sentir algo diferente, nada além disso. Cresci ouvindo histórias de como Chico Buarque, Caetano e Milton cantavam contra a ditadura para as pessoas, para a própria liberdade de expressão, para quem pudesse escutar o grito de socorro deles.

No futuro, irei contar como Cine queria ser completado por uma garota radical, como Créu chegava na velocidade número 5, como a Dança do Quadrado tinha diversas variações, como Restart tinha uma família que era uma puta falta de sacanagem, como Justin Bieber era um Baby baby ooh, como todas as bandas disputavam quem falava mais besteiras e mais letras melosas, como eu vivi em uma época que não contribuiu em nada para a expressão da sociedade, como me sinto mal por isso e de como eles não tinham sobre o que cantar, já que o mundo estava cada vez mais monótono e perdido.

Não serei hipócrita de negar que escuto - e até gosto - de músicas que tocam nas rádios. Gosto sim, escuto sim, mas sei perfeitamente a distinção de música que levarei no meu mp3, mp4, iPod, o que for, e de música que levarei pra vida. Com toda a certeza de que, se você procurar em todas as rádios do mundo inteiro, você não irá achar música para levar para a sua vida. Se achar, me avise, que eu apago toda essa meia hora perdida digitando de como a música perdeu seu verdadeiro sentido para ser algo totalmente irrelevante."

Letícia Panichi, 17 anos, é blogueira e tuiteira do primeiro time e pode ser encontrada aqui.

4.10.10

Um amor de 40 anos

Pode um amor durar 40 anos? Ou mais? Sem ficar antigo, sem envelhecer? Pode alguém esperar tanto tempo pela volta desse amor? Pode alguém acreditar que príncipes e princesas não vão virar sapos? O amor de um menino e uma menina pode continuar brilhando como uma pérola quando eles se reencontram muitos anos depois?

É possível sofrer por alguém na juventude e depois sorrir ao lado dessa mesma pessoa anos depois? É possível amar e ficar quietinho, sem que a pessoa amada saiba desse amor? Quantos tipos de amores você conhece?

Aquele amor que escrevia cartas e não entregava? Que te olhava de longe e você não percebia? Que fazia redações no colégio pra você, mas você nunca leu?

Janis Joplin, em sua curta carreira profissional (1967-1970), conseguiu cantar sobre quase todos os tipos de amores. Ou todos, quem sabe? O tempo foi pouco, mas ela se entregava de tal forma às canções que seu estilo marcou não apenas uma geração. Marcou a arte de cantar. De uma forma que só ela sabia.

Janis morreu aos 27 anos, no dia 4 de outubro de 1970, pouco depois da morte de outra lenda do rock, Jimi Hendrix, em 18 de setembro. Era o anúncio do fim da era Flower Power. O fim de um sonho.

Mas quem disse que não devíamos mais sonhar, John Lennon, no ano seguinte voltou pra dizer que era sim um sonhador e você devia imaginar um mundo melhor. Como nas canções de amor de Janis. Que cantava a solidão e a dor, mas também a esperança de que o amor perdido no tempo pudesse um dia ser encontrado. Ela tinha o apelido de Pearl, Pérola. E então não morre.

Brilha para sempre.

8.9.10

Ídolo

Chico PF
(Francisco Paula Freitas)

O pior, amigo, é que a gente só chama a polícia depois da porta arrombada. Eu não precisava passar por nada disso, de puxar cadeia, sujar meu nome e quase estragar a minha vida. Tinha ali mesmo do meu lado, como exemplo, o meu pai, Jorge Veneno, que eu posso até estar errado, mas nunca vi ninguém mais malandro que ele.

Eu era filho único e, quando era pequeno, ainda não sabia nem ler, já ajudava minha mãe a separar as muitas letrinhas daquelas massinhas de fazer sopa. Era demorado, vinha muito a-e-i-o-u, mas as letras dele eram mais difíceis, o J então! Tem poucas palavras com a letra jota, não é, doutor? Acho que é por isso que vinham poucas. Em cada meio quilo só umas trinta ou quarenta, já do V vinha mais...

É isso mesmo que eu estou dizendo ao senhor: minha mãe fazia sopa de letrinhas para o meu pai só usando o J e o V, que são as iniciais do nome dele. Não jogava o resto fora, com as que sobravam, em outra panela, ela fazia para nós. Na hora dele jantar eu ficava de antena ligada só para ouvir a conversa, mas não pegava quase nada. Só dava para perceber que eles eram felizes porque riam muito. Agora eu pergunto: isso é ou não é malandragem? Ter uma mulher que faz sopa de letrinhas só com as iniciais do seu nome!

O doutor precisava ver a alegria dele tomando aquela sopa, que a velha caprichava no tempero, com cebola, alho, tomate, e tinha sempre um pedacinho de paio. Isso nunca faltou. Hoje eu fico pensando naquele crioulão de quase dois metros, rindo e feliz, tomando sopa, só com as suas letrinhas J e V.

Papai era lustrador de profissão. Ele mesmo preparava o verniz com a goma-laca asa de barata, a cola de madeira e o breu. Fazia no fogão lá em casa mesmo. Minha mãe vivia brigando por causa do cheiro. Era horrível. Depois que inventaram esse negócio de envernizar com pistola ou verniz sintético, e qualquer um passou a ser lustrador, aí a coisa apertou. Não havia mais quase trabalho. Foi uma pena. O velho era brilhante. Gostou dessa, doutor?

Às vezes eles mandavam eu comprar qualquer coisa. Sabe como é, o barraco era pequeno: cozinha, sala, quarto, tudo junto. Naquele tempo a barra era pesada, não era essa moleza de tijolo e telha, era caixote e zinco mesmo. Outro dia vi em uma revista no barbeiro que os bacanas agora também têm apartamentos assim, quarto, mesa, cama, armário, latrina, tudo junto. É um tal de lófiti. Não sei por que os ricos têm essa mania de imitar a gente... A gente faz por necessidade.

Como eu estava dizendo, mandavam eu comprar vela, sabão e querosene. Quando tinha querosene, que era mais longe, eu desconfiava, me demorava mais ainda e aí eles tinham mais tempo, não é? O doutor está me entendendo...

Vou lhe dar mais uma do meu pai. Ele nunca soube a diferença entre um pé de alface e um de couve; entre uma dália e uma margarida. Não é que ainda assim conseguiu que arranjassem para ele um emprego de jardineiro no quartel de São Cristóvão? Lábia e lero é com ele mesmo. Ainda bem que lá não tinha flores nem horta. O trabalho era cortar a grama do campo de futebol, fazer as beiradas, os cantinhos e os arremates nos outros gramados. Isso, inteligente, ele aprendeu logo.

A grana não era a mesma de antes, mas sabe como é, não é, doutor, pouco com Deus é muito. E depois era garantido, tinha segurança. Como milico gosta de grama, doutor! Era tudo verdinho, às vezes ele me levava lá. Mas olha só, meu pai sempre foi vaidoso, ia para o trabalho todo embecado, que minha mãe fazia de tudo para ele ficar bonito. Terno branco só tinha um, mas sempre muito bem lavado e passado. A velha caprichava no tanque, na goma e no ferro de carvão, e lá ia ele todo elegante. Chegava no quartel, tirava o terno e o sapato bico fino, colocava o macacão e o tamanco, e já pra luta!

Ele tinha um armário com cadeado e deixava tudo lá, guardado. Trabalhava de sol a sol com aquela máquina manual de cortar grama, aquele tesourão e uma pequena enxada de mão, para fazer as beiradas e os cantinhos.

À tardinha, tomava seu banho, ia ao armário, abria o cadeado, e saía todo bem vestido novamente. Mas não é que tem sempre alguém invocando com a cara da gente! Um dia ele ouviu um papo de que um novo capitão, um branquelo de merda, teria comentado que esse tal de Jorge Veneno era muito metido a besta, que esse negócio de jardineiro andar de terno e gravata não era coisa que o Exército deveria permitir.

Disse também umas outras coisas que fizeram o velho sentir que iria dançar logo, logo. O quartel inteiro já comentava a antipatia do capitão pelo meu pai, quando um dia... Eu estou lhe enchendo o saco, doutor? Se quiser eu paro.

Não? Então, como eu ia lhe dizendo, um dia o capitão, ao chegar ao quartel, depois de responder à continência do sentinela, andou uns quatro ou cinco passos e caiu fulminado. Morto, mortinho da silva; colapso cardíaco, doutor. Bateu com as dez.

No dia seguinte ao acontecido, meu pai demorou a voltar e, ao chegar em casa, estava muito suado, pois vinha carregando um embrulho enorme. Quando abriu em cima da mesa, mamãe quase deu um ataque e gritou, Jorge, tira isso daqui! Sabe o que tinha dentro, doutor?

Imagens de Exu, de Nanan Buruquê, de Xangô, de Iemanjá e da sua mãe Olokum, de Ogum Xoroquê, o Seu Tranca-Ruas, de Omulu e do Zé Pelintra, por quem meu pai tinha uma especial simpatia, acho que mais pela elegância do que pela fé. Também lamparinas, folhas de papel crepom vermelhas e pretas, fogareiro de barro, tigelas, uns galhos de andiroba, umas velas grossas e outras finas, caixas de fósforos, charutos, uns ferros e uns saquinhos com uns pós estranhos.

Nós somos pobres e pretos, doutor, mas os velhos são tementes a Deus. Lá em casa não tem nada disso de macumba, não. Houve uma época em que mamãe tinha muita dor de cabeça. Minha tia disse que ela estava com “encosto”, que ela era médium e precisava se desenvolver. Pra quê!? Mamãe ficou um tempão sem falar com ela. Mamãe foi, bem dizer, criada por uns alemães que nunca quiseram saber dessas coisas. Depois que o velho explicou tudo a ela, foram dormir.

Dia seguinte, papai, bem cedinho, mais cedo que nos dias comuns, acordou, pegou tudo, embrulhou de novo e levou para o quartel. Aí, dentro do seu armário, fez um gongá caprichado. Arrumou os santos, as tigelas, as velas, as plantas, a lamparina, tudo de modo a parecer um canjerê. Feito o serviço, passou, daí em diante, a esquecer, de vez em quando, de trancar o cadeado...

Sabe como é, não é, doutor? Se hoje todo mundo já bisbilhota tudo, imagina antigamente, no tempo da revolução? E ainda por cima, dentro do quartel do exército! O velho nunca mais foi trabalhar de terno nem de sapato bico fino. O armário não era grande, e depois que virou gongá, não cabia mais sua roupa. Também por um pouco de receio. Acho que ele não queria misturar a roupa que usava com aquelas autoridades.

Resultado: os soldados, sargentos, capitães e o próprio comandante passaram a ter o maior respeito pelo meu pai. Agora eu lhe pergunto, isso é ou não é malandragem? O que é que o filho de Jorge Veneno, um cara como esse, foi fazer com aqueles merdas daqueles ladrõezinhos?

O filho da minha irmã, meu sobrinho. Ah, não lhe falei. Por conta daquelas compras que eu fazia, principalmente a do querosene, acabei ganhando uma irmã, que agora tem esse menino. Mas os tempos estão mudados, doutor, o garoto, com seus seis ou sete anos, logo enjoou de ajudar a avó a catar as letrinhas. Prefere ver filme de monstro na televisão, não sei qual é a graça. Eu não moro mais com eles, mas mamãe ainda está lá, velhinha, mas está.

Ainda este ano, no aniversário do velho, eu fui. Ele estava todo prosa, com uma camisa branca nova presenteada e engomada pela velha. O bolo do parabéns foi à tarde. Ela não faz tanto a sopa, como fazia antigamente, mas o aniversário não deixa passar em branco. No almoço teve, só para ele. Pude ver alguns “as” e “eles”, além dos “jotas” e dos “vês” de Jorge Veneno. É que o A, de cabeça para baixo, se parece um pouco com o V, e o L, invertido, para quem já não está enxergando bem, pode parecer um J.

Nem minha mãe nem o velho percebem e, como o senhor sabe, o que os olhos não veem o coração não sente, não é, doutor? Hoje, papai está aposentado. Não usa mais terno branco nem sapato de bico fino. Vive de pijama e chinelo. Sai às vezes, toma sua cervejinha, joga sueca com os amigos e mais não faz. Dorme cedo.

De vez em quando, vai ao quartel abraçar os velhos amigos. Todo mês, lá pelo dia cinco, chega à casa dele um soldadinho. Leva, dentro de um envelope, com um bonito emblema verde e amarelo, escrito por fora, Ao Senhor Jorge Veneno, uma graninha. Deixa sempre lembranças em nome do comandante e de todos do quartel.

Meu cunhado agora é quem corta a grama.

O gongá ainda está lá.

Publicado em "Café e Bar Ponto Chic", Editora Bertrand Brasil.

1.9.10

Lennon e o verificador de palavras

Esta é a minha leitura dos últimos dias. Uma verdadeira enciclopédia sobre John Lennon, mais de 800 páginas, porém uma delícia para beatlemaníacos. Em breve, publicaremos aqui uma resenha sobre o livro, de uma blogueira amiga que já leu tudo. Eu ainda tô na metade. Mas o que já li me permite recomendar.

Aproveito pra pedir aos blogueiros amigos que eliminem o tal "verificador de palavras", que surge quando vamos fazer comentários. É uma coisa desnecessária, que só nos faz perder tempo. Basta ir nas suas "configurações" e clicar em "não" na opção "verificação de palavras". Muita gente vai me agradecer depois, hehehe!

E, finalmente, uma dica: prestigiem o blog "Le Matinée", criado pela minha amiga Natalia, para cinéfilos da blogosfera. Fui convidado para escrever lá e fiz minha estreia com uma resenha sobre um de meus clássicos favoritos, "Ladrões de Bicicleta". Apareçam! É só clicar aqui: