8.9.11
A porta entreaberta
Conto de CHICO PF
(Francisco Paula Freitas)
O que se vê pela porta entreaberta é desolador. Lá está sentado, na beira da cama, nu e imóvel, um homem velho e magro. Curvado. A cabeça inclinada sobre o peito exibe a derrota, o final. Arfa compassadamente, parece calmo e não sofrer. Da calva pendem uns fios de cabelos brancos desgrenhados. Os olhos, não dá para ver, parecem fechados. O claro e transparente olhar azul deve ser agora apenas névoa embaciada. O que terá sido feito dos óculos de grossas lentes e hastes de tartaruga? O nariz, outrora rubro como imenso pimentão, assume pálido a cor de cera do rosto magro, encovado. A boca, vazia de todos os dentes, semi-aberta, não fecha, não ri, não chora. O lábio inferior, de onde escorre fino fio de baba, pende e não há forças para fazê-lo subir. Onde a blague, o impropério, o palavrão, a oração? A grande orelha de abano parece ainda maior.
Silêncio no quarto. Não se ouve um som, uma palavra. Uma frase que seja, de qualquer velha canção napolitana. Os ombros, vê-se melhor o direito, encolhidos, convergem como se quisessem juntar um ao outro. Os braços longos — é um homem alto —, largados, ao se dobrarem fazem os cotovelos apontar para trás. O que um dia foram bíceps e tríceps são hoje carnes inertes, sem tônus, cobertas por um tecido flácido que cobre o frágil úmero. As mãos não mais se retrairão, encabuladas, quando acorrerem para beijá-las na busca da bênção. Espalmadas, apóiam-se no limite do colchão, e os dedos se dobram sobre ele. É certo que não haverá mais abraços.
Pendurada na cabeceira, repousa a bengala de junco com castão de âmbar. Mais serviu para compor a elegância e prevenir ataque de cachorro do que o ajudou a caminhar. Na parede, no centro, em cima da cama, a pequenina pintura oval mostra uma mulher de joelhos agarrada aos pés de uma cruz fincada em meio a um mar revolto. No céu, a palavra Fé.
Não há glúteo. A coluna está enfiada diretamente na cama. Ligado como que saído debaixo das vértebras, é visível uma parte do ilíaco, o osso da bacia, onde vai se encostar o fêmur. A pele muito clara deixa transparecer na coxa marmórea, magra e descarnada, algumas veias azuladas e violáceas. O membro, que não conheceu outro caminho que não fosse o da sua Maria e a ela levou seus dez filhos, é um pedaço de carne sem vida, assentado sobre bagos relaxados e gelatinosos. Não sabe mais existir. O que está lá, e protegeu-lhe o púbis ao longo da longa vida, já não são cabelos, são compridos fiapos brancos sem espessura e vigor. Não cumprem sua função.
No dedo anular da mão direita não está o anel, motivo de alegria e modesta vaidade, um cabochon de ouro e rubi. Os pés, tornozelos bastante inchados, se apóiam em pequeno tapete surrado, estampado em tonalidade vermelha. A cor só faz acentuar a sua miséria, forçando o contraste com a alvura da pele. As unhas encardidas, amarelecidas, não estão aparadas. Quem as cortaria, agora? E ele? Permitiria?
Pode-se ver o cabideiro. Algumas gravatas surradas. Em uma, com o laço ainda feito, espetada como alfinete, reluz a paleta de ouro com pedrinhas incrustadas imitando as cores das tintas. Um suspensório, uns panos e trapos não identificados. Pendurado no gancho de cima, o chapéu cinza de feltro, para o inverno. No armário, junto à umidade e ao mofo, deve o de panamá, para o verão, adormecer e criar bolor. Na cidade, sem chapéu e gravata, nunca. Uma calça, pendurada pelo cós, mostra trazido para fora, o forro de um bolso vazio.As notas do dinheiro não serão mais esticadas, alisadas e caprichosamente arrumadas do valor da menor para a maior. De quem agora os genros tomarão? A velha ladainha: até o fim do mês sem falta etc. etc?
Folgados, dois números maior, os sapatos — marrons, nunca usou algo preto — não o levarão mais às lutas diárias e aos passeios frequentes. Onde andarão? Devem estar embaixo da cama. Há uma semana não os calça. Não sentirão mais as ruas... Os museus, os casebres, os palacetes, as casas modestas, os palácios e as tantas igrejas não mais os receberão.
Já rejeitou a colher de xarope e os comprimidos. Não aceita o termômetro. Ontem deixou que o barbeiro entrasse, mas não permitiu que lhe fizesse a barba e nem lhe cortasse o cabelo. Pediu que se sentasse à sua frente. Quis apenas olhar para ele, um pouco.
Não se vê pela porta entreaberta, mas é possível imaginar algumas névoas em seus pensamentos. Elas podem conduzir a uma fatia de mamão com as pevides; a uma certa caixa com bisnagas e pincéis com os quais e pelos quais viveu todo o seu tempo; a um pôr-do-sol , um crepúsculo, um pregão ao longe; ao crayon ou fusain, seguro entre o polegar e o indicador, braço esticado, um olho fechado, o outro aberto, a servir de escala para roubar à natureza a mancha do esboço... a uma colher de mel de abelhas, uma blague e à oração antes de ir dormir. A doce e inofensiva marmelada a ser protegida dos avanços dos netos escondida lá em cima no étagère... a uma furtiva lágrima que sempre rolou ao lembrar da mãe...
Não quer mais falar, nem abrir os olhos. Está se preparando para o Céu que a vida inteira e ainda agora imagina existir. Sabe que lá vai se ter ao lado do maior amigo, o Mestre, o Cristo. Vai rever velhos pintores, músicos, sapateiros, cantores, alfaiates, escultores, jardineiros, filhos, os mortos e os vivos, pais, amigos, peixeiros, poetas, doutores, barbeiros, juízes, padeiros...
Vai, convicto, encetar nova viagem, agora no rumo da vida eterna na qual sempre acreditou.
Seja.
Publicado em "Café e Bar Ponto Chic", Editora Bertrand Brasil, 2003.
25.6.11
Quando os fãs ficam órfãos
Há dois anos, quando noticiaram a morte de Michael Jackson, que ensaiava para uma gigantesca turnê, muita gente prestou homenagens ao astro. Então, resolvemos homenagear os órfãos do rei do pop. Ou seja, os seus fãs. A história deste post é verdadeira e a republicamos porque a blogosfera se renova constantemente e muitos de nossos atuais leitores não a conhecem.Michael Jackson - 1958/?
Logo que soube da morte de Michael Jackson, me lembrei de um faxineiro que trabalhava na galeria onde eu tinha uma loja de discos.Ele dizia ter 20 anos, mas parecia menos, pois era franzino, muito magro e baixinho. Assim que abri a loja, ele apareceu e perguntou se tinha lá algum disco de Michael Jackson. "Tem alguns", eu disse. "Qual você procura?" "Na verdade, nenhum, pois tenho todos. Só quero saber, pois, na hora do almoço, posso vir aqui e ouvir um pouquinho?"
"Claro, pode vir", eu disse.
E ele sempre aparecia lá, escolhia uma faixa e começava a dançar, daquele jeito que seu ídolo tinha imortalizado. Sorria, dizia que era o máximo e depois voltava ao trabalho de limpar a galeria.
Durante quatro anos, ele cumpriu esse ritual de aparecer e pedir pra ouvir Michael Jackson.Depois, fechei a loja e nunca mais voltei lá. A notícia da morte de Jackson fez com que eu me lembrasse dele e de outras figuras que passavam por lá. Tinha um que andava com uma foto do Bono no bolso. Ele parava qualquer pessoa, na galeria ou dentro das lojas, tirava a foto do bolso e perguntava: "Não sou parecido com ele?" E, se a pessoa demonstrava alguma dúvida, ele ficava de perfil e perguntava novamente: "Assim, nessa posição, não parece?"
Também passavam por lá o Elvis jovem e o Elvis quarentão. Explico: um imitava o rei do rock nos anos 50, com topete, enquanto o outro era gordo e usava um cavanhaque enorme, além de tentar imitar o modo de andar de Elvis, tudo muito bem estudado.
Os clientes, em geral, eram fãs que imitavam seus ídolos. Um imitava John Lennon, outro o Jim Morrison, tinha também Jimi Hendrix, James Brown...
Um dia, percebi uma grande aglomeração no corredor e fui ver o que era. Tomei o maior susto, pois podia jurar que era o próprio Michael Jackson! O sujeito era alto, tinha uma daquelas roupas que Jackson vestia nos shows, igual a um uniforme militar, um tom de pele muito parecido com o astro que deixava de ser negro, também usava maquiagem, inclusive nos olhos, o cabelo com uma ponta escorrendo pela testa, um chapéu... Impressionante a semelhança!
O faxineiro estava lá, no meio da multidão. Pequenino, com seu uniforme cinza, sorria e observava o sósia. Quando tudo acabou, ele entrou na minha loja e disse:
"É bom a gente ter um ídolo, né?"
Por isso, dei como incerta a morte de Michael Jackson no título deste post. Quem tem um ídolo, vivo ou morto, sabe do que falo. Aquele pobre faxineiro, que morava longe e levava horas de ônibus pra chegar na galeria e voltar pra casa, tinha em Michael Jackson um forte motivo pra viver e ser feliz. Hoje, ele deve estar triste, mas logo voltará a ouvir as músicas de seu ídolo e dançar como se estivesse em um palco.
Quando me lembrei dele, depois que soube da morte de Jackson, uma música invadiu meus pensamentos. Foi "Gente Humilde", de Garoto, Vinícius de Moraes e Chico Buarque de Hollanda:
"Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a como
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar
São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar"
13.6.11
Poema em Linha Reta
FERNANDO PESSOA (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935)Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar
banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo
ainda;
e tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes
- na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta
terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
8.5.11
Ensinamentos maternos

Minha mãe me ensinou a RETIDÃO...
"EU TE AJEITO NEM QUE SEJA NA PANCADA!"
Minha mãe me ensinou a DAR VALOR AO TRABALHO DOS OUTROS...
"SE VOCÊ E SEU IRMÃO QUEREM SE MATAR, VÃO PRA FORA. ACABEI DE LIMPAR A CASA!"
Minha mãe me ensinou LÓGICA E HIERARQUIA...
"PORQUE EU DIGO QUE É ASSIM! PONTO FINAL! QUEM É QUE MANDA AQUI?"
Minha mãe me ensinou o que é MOTIVAÇÃO...
"CONTINUA CHORANDO QUE EU VOU TE DAR UMA RAZÃO VERDADEIRA PRA VOCÊ CHORAR!"
Minha mãe me ensinou a CONTRADIÇÃO...
" FECHA A BOCA E COME!"
Minha mãe me ensinou sobre ANTECIPAÇÃO...
"ESPERA SÓ ATÉ SEU PAI CHEGAR EM CASA!"
Minha mãe me ensinou sobre PACIÊNCIA...
"CALMA!... QUANDO CHEGARMOS EM CASA, VOCÊ VAI VER SÓ..."
Minha mãe me ensinou a ENFRENTAR OS DESAFIOS...
"OLHE PRA MIM! ME RESPONDA QUANDO EU TE FIZER UMA PERGUNTA!"
Minha mãe me ensinou sobre RACIOCÍNIO LÓGICO...
"SE VOCÊ CAIR DESSA ÁRVORE, VAI QUEBRAR O PESCOÇO E EU VOU TE DAR UMA SURRA!"
Minha mãe me ensinou sobre o REINO ANIMAL...
"SE VOCÊ NÃO COMER ESSAS VERDURAS, OS BICHOS DA SUA BARRIGA VÃO COMER VOCÊ!"
Minha mãe me ensinou sobre GENÉTICA...
"VOCÊ É IGUALZINHO AO SEU PAI!"
Minha mãe me ensinou sobre minhas RAÍZES...
"TÁ PENSANDO QUE NASCEU DE FAMÍLIA RICA, É?"
Minha mãe me ensinou sobre JUSTIÇA...
"UM DIA VOCÊ TERÁ SEUS FILHOS, E EU ESPERO QUE ELES FAÇAM PRA VOCÊ O MESMO QUE VOCÊ FAZ PRA MIM! AÍ VOCÊ VAI VER O QUE É BOM!"
Minha mãe me ensinou RELIGIÃO...
"MELHOR REZAR PRA ESSA MANCHA SAIR DO TAPETE!"
Minha mãe me ensinou o BEIJO DE ESQUIMÓ...
"SE RABISCAR DE NOVO, EU ESFREGO SEU NARIZ NA PAREDE!"
Minha mãe me ensinou CONTORCIONISMO...
"OLHA SÓ ESSA ORELHA! QUE NOJO!"
Minha mãe me ensinou DETERMINAÇÃO...
"VAI FICAR AÍ SENTADO ATÉ COMER TUDO!"
Minha mãe me ensinou habilidades como VENTRÍLOQUO...
"NÃO RESMUNGUE! CALA ESSA BOCA E ME DIGA POR QUE É QUE VOCÊ FEZ ISSO?"
Minha mãe me ensinou a SER OBJETIVO...
"EU TE AJEITO NUMA PANCADA SÓ!"
Minha mãe me ensinou a ESCUTAR ...
"SE VOCÊ NÃO ABAIXAR O VOLUME, EU VOU AÍ E QUEBRO ESSE RÁDIO!"
Minha mãe me ensinou a TER GOSTO PELOS ESTUDOS...
"SE EU FOR AÍ E VOCÊ NÃO TIVER TERMINADO ESSA LIÇÃO, VOCÊ JÁ SABE!..."
Minha mãe me ajudou na COORDENAÇÃO MOTORA...
"JUNTA AGORA ESSES BRINQUEDOS!! PEGA UM POR UM!!"
Minha mãe me ensinou os NÚMEROS...
"VOU CONTAR ATÉ DEZ. SE ESSE VASO NÃO APARECER, VOCÊ LEVA UMA SURRA!"
1.4.11
Quatro anos
Primeiro de abril, dia da mentira. Há quatro anos, escolhemos este dia como o ideal para dar início a este blog. Seria um jornal virtual para divulgar, principalmente, notícias mentirosas, coisas inexistentes. Nada de difamação, apenas brincadeiras com certas coisas que acontecem em nossas vidas. Já que não podemos mudar o mundo, como a gente pensava anos atrás, vamos nos divertir um pouco, pelo menos.1.3.11
A importância da receita médica
Numa pequena cidade do interior, uma mulher entrou em uma farmácia e disse ao balconista:23.1.11
Cidadão Kane
Um clássico inesquecível! Sigam este link:
http://lematinee.wordpress.com/2011/01/19/cidadao-kane-1941/
7.1.11
Receita de frango com batatas
Pegue um frango de mais ou menos 2 kg500 ml de azeite extra virgem
Cheiro verde e pimenta a gosto
MODO DE PREPARAR
Gratine as batatas
Beba uma dose de whisky
Tempere o frango com cheiro verde, pimenta e azeite
Tome mais duas doses de whisky
Junte as baatatass no frango e leve ao forno
Toma oooooutra dose de uissski
Acompanhe visualmente o pato, quer dizer o vrango, pra num queimá
Mais uma dose de uviske
Deixa ele no vorno umas 04 horas bra ele zi vudê de calor e bebe oviske na gaaaarraaaava memo
Tira o bicho daquela pooorrra de vorno
Pega o vrango que caiu no jão e limpa ca gamisa memo
Bebe mais uma
Desliga a bóóóósta do vogão, garaio!
Zi voda que queimô, cê nem gossta muito desssta porrra de bato
Pega o que zobrô do viski, liga a tevesisão, deita no zofá e dórmi!
26.12.10
Então, é Natal?!

Rúbia Gondim
10.12.10
O pedreiro que tricotava
Ivani CunhaJORNALISTA CONVIDADO
(Para meu pai)
É pouco provável que o pai do leitor ou da leitora saiba tricotar.
Trabalho, passatempo, vício, tricô é coisa de... mulher.
Meu pai, com suas mãos ásperas de operário da construção civil, ignorou esse estigma e aprendeu a dominar as agulhas de tricô. O fio de lã, passando de uma agulha a outra, permite a execução de dois tipos de ponto que servem de base a grande variedade de padrões, define o “Aurélio”. Mas a leitura do dicionário é insuficiente para alguém aprender a fazer; é preciso prestar atenção em outra pessoa que já tricota, depois treinar e treinar.
O início, para ele, foi por acaso, numa das longas fases de afastamento do trabalho motivadas pela doença de Chagas, que o levaria desta vida antes dos 60 anos.Uma de minhas irmãs treinava com as agulhas, enquanto meu pai lia o seu jornal kardecista. Um olho nas páginas, outro nas mãos da filha, nas agulhas que iam e viam, depois voltavam ao início formando a teia.
Nos dias seguintes ele continuou a observação, sempre sentado na mesma cadeira diante da filha. Aprendeu todos os detalhes: a posição das mãos, a altura em que deveria manter a peça diante dos olhos, a trajetória das agulhas, seus volteios, quando fazer inserção única ou dupla nas carreiras, etc.
Uma tarde ele esperou a filha levantar-se da cadeira para ir à cozinha ou cuidar de outro afazer. Então pegou os novelos de lã, as agulhas e começou a atravessá-las na peça com movimentos sincronizados, comparando de tempo em tempo o resultado do trabalho com o já produzido pela titular do serviço.
Estava bem concentrado quando a dona do tricô retornou à sala. Entregou-lhe os apetrechos e, meio sem graça, reiniciou a leitura do jornal. A filha procurou algum estrago em seu tricô e não encontrou. Apenas desconfiou que não havia interrompido o trabalho naquele ponto. Se, naquele momento, tivesse prestado atenção no homem à sua frente, veria seu meio-sorriso de satisfação.Talvez até pudesse ler em seus olhos que ele achara muito mais fácil aprender a tricotar do que levantar paredes e fazer o acabamento das obras – e nisso ele era mestre.
Tricotar era bem mais fácil e deixava a cabeça leve, os problemas esquecidos horas e horas numa parte escura da memória.
Assim, ele aprendeu a produzir sapatinhos e fez um par, de lã azul-clarinha, para o primeiro neto. Depois tricotou uma blusinha de mangas compridas da mesma cor para o bebê.
Os filhos se surpreenderam só um pouco com a nova diversão do pai. Bem melhor que o vício do cigarro, cultivado desde a juventude e só abandonado poucos anos atrás, depois de muitas ameaças dos médicos.
Não durou muito o gosto pelo tricô, mas valeu como mais uma demonstração de versatilidade daquele homem que aprendeu a tocar violão de ouvido, tinha sempre um livro à mão e evitava ensinar o significado das palavras (“Meu filho, consulte o nosso dicionário e aproveite para aprender mais, lendo também o sinônimo da palavra que vem antes e o daquela que vem depois dessa que você procura”).
Desconhecia a barreira que naquela época impedia a maioria dos homens de assumir o fogão e preparava deliciosos bolos e broas de fubá no forno a lenha, e depois no fogão a gás. “Não comam quente porque terão dor de barriga”, dizia, depois de conferir o cozimento enfiando o cabo do garfo na massa, quase deixando ler em seus olhos o real objetivo da advertência, que era o de manter os apressados a distância do fogão.
Ficou também a lembrança dos escassos períodos em que meu pai, depois dos 40, tinha condições de trabalhar. Nesses dias, levantava mais cedo cantando modinhas antigas e preparava um feijão tropeiro legítimo, com todos os ingredientes proibidos pelo médico.
Nunca mais comi feijão tropeiro com aquele delicioso sabor de transgressão, e até hoje não sei de ninguém que use com a mesma competência a colher de pedreiro e a agulha de tricô.
Ivani Cunha é jornalista em Belo Horizonte
28.11.10
10.11.10
Música

BLOGUEIRA CONVIDADA
26.10.10
4.10.10
Um amor de 40 anos

Pode um amor durar 40 anos? Ou mais? Sem ficar antigo, sem envelhecer? Pode alguém esperar tanto tempo pela volta desse amor? Pode alguém acreditar que príncipes e princesas não vão virar sapos? O amor de um menino e uma menina pode continuar brilhando como uma pérola quando eles se reencontram muitos anos depois?
É possível sofrer por alguém na juventude e depois sorrir ao lado dessa mesma pessoa anos depois? É possível amar e ficar quietinho, sem que a pessoa amada saiba desse amor? Quantos tipos de amores você conhece?
Aquele amor que escrevia cartas e não entregava? Que te olhava de longe e você não percebia? Que fazia redações no colégio pra você, mas você nunca leu?
Janis Joplin, em sua curta carreira profissional (1967-1970), conseguiu cantar sobre quase todos os tipos de amores. Ou todos, quem sabe? O tempo foi pouco, mas ela se entregava de tal forma às canções que seu estilo marcou não apenas uma geração. Marcou a arte de cantar. De uma forma que só ela sabia.
Janis morreu aos 27 anos, no dia 4 de outubro de 1970, pouco depois da morte de outra lenda do rock, Jimi Hendrix, em 18 de setembro. Era o anúncio do fim da era Flower Power. O fim de um sonho.
Mas quem disse que não devíamos mais sonhar, John Lennon, no ano seguinte voltou pra dizer que era sim um sonhador e você devia imaginar um mundo melhor. Como nas canções de amor de Janis. Que cantava a solidão e a dor, mas também a esperança de que o amor perdido no tempo pudesse um dia ser encontrado. Ela tinha o apelido de Pearl, Pérola. E então não morre.
Brilha para sempre.
8.9.10
Ídolo

Eu era filho único e, quando era pequeno, ainda não sabia nem ler, já ajudava minha mãe a separar as muitas letrinhas daquelas massinhas de fazer sopa. Era demorado, vinha muito a-e-i-o-u, mas as letras dele eram mais difíceis, o J então! Tem poucas palavras com a letra jota, não é, doutor? Acho que é por isso que vinham poucas. Em cada meio quilo só umas trinta ou quarenta, já do V vinha mais...
É isso mesmo que eu estou dizendo ao senhor: minha mãe fazia sopa de letrinhas para o meu pai só usando o J e o V, que são as iniciais do nome dele. Não jogava o resto fora, com as que sobravam, em outra panela, ela fazia para nós. Na hora dele jantar eu ficava de antena ligada só para ouvir a conversa, mas não pegava quase nada. Só dava para perceber que eles eram felizes porque riam muito. Agora eu pergunto: isso é ou não é malandragem? Ter uma mulher que faz sopa de letrinhas só com as iniciais do seu nome!
O doutor precisava ver a alegria dele tomando aquela sopa, que a velha caprichava no tempero, com cebola, alho, tomate, e tinha sempre um pedacinho de paio. Isso nunca faltou. Hoje eu fico pensando naquele crioulão de quase dois metros, rindo e feliz, tomando sopa, só com as suas letrinhas J e V.
Papai era lustrador de profissão. Ele mesmo preparava o verniz com a goma-laca asa de barata, a cola de madeira e o breu. Fazia no fogão lá em casa mesmo. Minha mãe vivia brigando por causa do cheiro. Era horrível. Depois que inventaram esse negócio de envernizar com pistola ou verniz sintético, e qualquer um passou a ser lustrador, aí a coisa apertou. Não havia mais quase trabalho. Foi uma pena. O velho era brilhante. Gostou dessa, doutor?
Às vezes eles mandavam eu comprar qualquer coisa. Sabe como é, o barraco era pequeno: cozinha, sala, quarto, tudo junto. Naquele tempo a barra era pesada, não era essa moleza de tijolo e telha, era caixote e zinco mesmo. Outro dia vi em uma revista no barbeiro que os bacanas agora também têm apartamentos assim, quarto, mesa, cama, armário, latrina, tudo junto. É um tal de lófiti. Não sei por que os ricos têm essa mania de imitar a gente... A gente faz por necessidade.
Como eu estava dizendo, mandavam eu comprar vela, sabão e querosene. Quando tinha querosene, que era mais longe, eu desconfiava, me demorava mais ainda e aí eles tinham mais tempo, não é? O doutor está me entendendo...
Vou lhe dar mais uma do meu pai. Ele nunca soube a diferença entre um pé de alface e um de couve; entre uma dália e uma margarida. Não é que ainda assim conseguiu que arranjassem para ele um emprego de jardineiro no quartel de São Cristóvão? Lábia e lero é com ele mesmo. Ainda bem que lá não tinha flores nem horta. O trabalho era cortar a grama do campo de futebol, fazer as beiradas, os cantinhos e os arremates nos outros gramados. Isso, inteligente, ele aprendeu logo.
A grana não era a mesma de antes, mas sabe como é, não é, doutor, pouco com Deus é muito. E depois era garantido, tinha segurança. Como milico gosta de grama, doutor! Era tudo verdinho, às vezes ele me levava lá. Mas olha só, meu pai sempre foi vaidoso, ia para o trabalho todo embecado, que minha mãe fazia de tudo para ele ficar bonito. Terno branco só tinha um, mas sempre muito bem lavado e passado. A velha caprichava no tanque, na goma e no ferro de carvão, e lá ia ele todo elegante. Chegava no quartel, tirava o terno e o sapato bico fino, colocava o macacão e o tamanco, e já pra luta!
Ele tinha um armário com cadeado e deixava tudo lá, guardado. Trabalhava de sol a sol com aquela máquina manual de cortar grama, aquele tesourão e uma pequena enxada de mão, para fazer as beiradas e os cantinhos.
À tardinha, tomava seu banho, ia ao armário, abria o cadeado, e saía todo bem vestido novamente. Mas não é que tem sempre alguém invocando com a cara da gente! Um dia ele ouviu um papo de que um novo capitão, um branquelo de merda, teria comentado que esse tal de Jorge Veneno era muito metido a besta, que esse negócio de jardineiro andar de terno e gravata não era coisa que o Exército deveria permitir.
Disse também umas outras coisas que fizeram o velho sentir que iria dançar logo, logo. O quartel inteiro já comentava a antipatia do capitão pelo meu pai, quando um dia... Eu estou lhe enchendo o saco, doutor? Se quiser eu paro.
Não? Então, como eu ia lhe dizendo, um dia o capitão, ao chegar ao quartel, depois de responder à continência do sentinela, andou uns quatro ou cinco passos e caiu fulminado. Morto, mortinho da silva; colapso cardíaco, doutor. Bateu com as dez.
No dia seguinte ao acontecido, meu pai demorou a voltar e, ao chegar em casa, estava muito suado, pois vinha carregando um embrulho enorme. Quando abriu em cima da mesa, mamãe quase deu um ataque e gritou, Jorge, tira isso daqui! Sabe o que tinha dentro, doutor?
Imagens de Exu, de Nanan Buruquê, de Xangô, de Iemanjá e da sua mãe Olokum, de Ogum Xoroquê, o Seu Tranca-Ruas, de Omulu e do Zé Pelintra, por quem meu pai tinha uma especial simpatia, acho que mais pela elegância do que pela fé. Também lamparinas, folhas de papel crepom vermelhas e pretas, fogareiro de barro, tigelas, uns galhos de andiroba, umas velas grossas e outras finas, caixas de fósforos, charutos, uns ferros e uns saquinhos com uns pós estranhos.
Nós somos pobres e pretos, doutor, mas os velhos são tementes a Deus. Lá em casa não tem nada disso de macumba, não. Houve uma época em que mamãe tinha muita dor de cabeça. Minha tia disse que ela estava com “encosto”, que ela era médium e precisava se desenvolver. Pra quê!? Mamãe ficou um tempão sem falar com ela. Mamãe foi, bem dizer, criada por uns alemães que nunca quiseram saber dessas coisas. Depois que o velho explicou tudo a ela, foram dormir.
Dia seguinte, papai, bem cedinho, mais cedo que nos dias comuns, acordou, pegou tudo, embrulhou de novo e levou para o quartel. Aí, dentro do seu armário, fez um gongá caprichado. Arrumou os santos, as tigelas, as velas, as plantas, a lamparina, tudo de modo a parecer um canjerê. Feito o serviço, passou, daí em diante, a esquecer, de vez em quando, de trancar o cadeado...
Sabe como é, não é, doutor? Se hoje todo mundo já bisbilhota tudo, imagina antigamente, no tempo da revolução? E ainda por cima, dentro do quartel do exército! O velho nunca mais foi trabalhar de terno nem de sapato bico fino. O armário não era grande, e depois que virou gongá, não cabia mais sua roupa. Também por um pouco de receio. Acho que ele não queria misturar a roupa que usava com aquelas autoridades.
Resultado: os soldados, sargentos, capitães e o próprio comandante passaram a ter o maior respeito pelo meu pai. Agora eu lhe pergunto, isso é ou não é malandragem? O que é que o filho de Jorge Veneno, um cara como esse, foi fazer com aqueles merdas daqueles ladrõezinhos?
O filho da minha irmã, meu sobrinho. Ah, não lhe falei. Por conta daquelas compras que eu fazia, principalmente a do querosene, acabei ganhando uma irmã, que agora tem esse menino. Mas os tempos estão mudados, doutor, o garoto, com seus seis ou sete anos, logo enjoou de ajudar a avó a catar as letrinhas. Prefere ver filme de monstro na televisão, não sei qual é a graça. Eu não moro mais com eles, mas mamãe ainda está lá, velhinha, mas está.
Ainda este ano, no aniversário do velho, eu fui. Ele estava todo prosa, com uma camisa branca nova presenteada e engomada pela velha. O bolo do parabéns foi à tarde. Ela não faz tanto a sopa, como fazia antigamente, mas o aniversário não deixa passar
Nem minha mãe nem o velho percebem e, como o senhor sabe, o que os olhos não veem o coração não sente, não é, doutor? Hoje, papai está aposentado. Não usa mais terno branco nem sapato de bico fino. Vive de pijama e chinelo. Sai às vezes, toma sua cervejinha, joga sueca com os amigos e mais não faz. Dorme cedo.
De vez em quando, vai ao quartel abraçar os velhos amigos. Todo mês, lá pelo dia cinco, chega à casa dele um soldadinho. Leva, dentro de um envelope, com um bonito emblema verde e amarelo, escrito por fora, Ao Senhor Jorge Veneno, uma graninha. Deixa sempre lembranças em nome do comandante e de todos do quartel.
Meu cunhado agora é quem corta a grama.
O gongá ainda está lá.
Publicado em "Café e Bar Ponto Chic", Editora Bertrand Brasil.
1.9.10
Lennon e o verificador de palavras
14.8.10
Roube um lápis para mim

Yvonne Dimanche
CORRESPONDENTE
Vi na televisão um documentário chamado "Roube um lápis para mim". Trata-se da história verídica de um casal de judeus holandeses (Jacob e Inaka Polak) que se conheceu na Segunda Guerra Mundial. Ele, feio, careca, pobre, contador, dez anos mais velho do que ela e casado com uma mulher instável. Inaka era bonita, rica e namorava um rapaz que não chegou a viver muito tempo. Em que pese o grande drama vivido por essas pessoas e suas famílias, poderíamos dizer que eles tiveram alguma sorte, visto que ficaram em um campo que não era tão pavoroso como os demais e as mortes não foram muitas.
Um romance entre um homem casado e uma jovem solteira é assunto tabu até mesmo nos dias de hoje. Eles se conheceram em uma festa e ele se apaixonou perdidamente por ela. As famílias de ambos foram enviadas para esse tal campo em 1943 e todos ficaram no mesmo alojamento. Como ela conseguiu ter uma tarefa burocrática, não foi difícil ter acesso a papéis e lápis. Então os dois resolveram trocar cartas que são simplesmente magníficas e belas, principalmente as dele. Essas cartas ficaram com eles, só que as dela, justamente no dia de sua libertação, caíram na água e ficaram estragadas, só sobraram dez.
Bom, milhões de desgraças depois, ele foi transferido para Bergen Belsen e ela para outro campo cujo nome não me recordo. Acabaram-se as cartas e os dois comendo o pão que o diabo amassou. Até que a guerra acabou e ambos voltaram para Amsterdam. Em 1946, eles se casaram e realmente foram felizes para sempre. Tiveram filhos, netos e bisnetos e até 2007 ainda estavam vivos. Ela, uma senhora extremamente linda, e ele continuou mais feio do que a necessidade, porém charmosíssimo. O amor deles nunca acabou e me deixou sensibilizada demais.
O que eu achei uma maravilha nessa história é que o desejo de realizar esse amor, tão logo acabasse a guerra, foi o que motivou os dois a continuarem vivos. Tiveram alguma sorte no primeiro campo, se é que se pode chamar isso de sorte, mas posteriormente sofreram demais com doenças intermináveis e tudo mais que vocês já tiveram oportunidade de tomar conhecimento.
Esse romance representou para mim um hino ao amor e à superação humana. Enquanto algumas pessoas desistem de viver por conta de uma paixão que foi embora ou porque o seu time foi rebaixado para a segunda divisão, outros fazem opção pela vida e todo o seu esplendor. Foram humilhados e torturados pelos nazistas, mas sempre conservaram dentro de si a sua dignidade e vontade de viver. Eles derrotaram os bárbaros e não se permitiram serem coitados. Conseguiram ser felizes, sabe Deus como.
Quando tomo conhecimento de histórias do tipo, chego à conclusão que não adianta procurar Deus ou satisfação em religiões, ideologias, dinheiro, poder ou seja lá o que for. Tudo que existe de bom no mundo está dentro de nós mesmos e ninguém tem condições de nos tornar felizes, caso não tenhamos vontade de ser felizes. Obrigada, Jacob! Obrigada, Inaka!
Durante alguns anos, Yvonne publicou um dos melhores blogs que conhecemos, o BlogGente. Hoje, dedica-se a outras atividades e é correspondente do Jornal da Lua em Guarapari, Espírito Santo.
2.8.10
O casamento: antes e depois

ANTES do casamento:
Ele: - Finalmente! Custou tanto esperar por este momento.
Ela: - Você quer que eu vá embora?
Ele: - Não! Nem pensa nisso.
Ela: - Você me ama?
Ele: - Claro! Muito e muito!
Ela: - Alguma vez você já me traiu?
Ele: - NÃO! Porque ainda pergunta?
Ela: - Me beija?
Ele: - Evidente! Sempre que possível!
Ela: - Você seria capaz de me bater?
Ele: - Você está doida! Não sou desse tipo de homem!
Ela: - Posso confiar em ti?
Ele: - Sim.
Ela: - Querido!
DEPOIS do casamento: leia de baixo para cima.




