lobo e lua

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27.10.08

Coisas para NÃO fazer antes de morrer

Dave Freeman e Neil Teplica publicaram o livro Cem Coisas para Fazer Antes de Morrer, em 1999. Desde então, muita gente ficou com a sensação de que sempre falta fazer alguma coisa importante.

No entanto, três livros recentes listam o que NÃO fazer antes de morrer: 101 Coisas para Não Fazer Antes de Morrer, do americano Robert Harris, Não Ligo a Mínima, do inglês Richard Wilson, e Cai Fora! 103 Coisas para Não Fazer Antes de Morrer, do também inglês Sam Jordison. "Eu vi as listas do que fazer e tive a sensação de que nunca iria conseguir. Percebi que era ridículo e decidi livrar as pessoas desse tipo de opressão", disse Jordison, que é crítico literário do jornal The Guardian. Então, não se desespere se você NÃO:

Visitar o Taj Mahal — Conhecer o mausoléu transformado em declaração póstuma de amor é item obrigatório dos viajantes aventureiros. Atente-se para o fato de que o monumento é cercado de Índia por todos os lados: o rio cheira mal, o calor é insuportável, mendigos imploram por trocados e, acima de tudo, há turistas demais. Todos, sem exceção, tirando fotos que serão versões pioradas das imagens dos cartões-postais e guias de turismo. "Eu estive no Taj Mahal e acho que acontece o mesmo que com as pirâmides do Egito e com Machu Picchu: já vimos tanto na televisão e em fotos que, ao vivo, não são tão bonitos. Também dizem que é incrível mergulhar nas Maldivas, mas eu nem sei nadar. E aposto que muitas daquelas cenas eu vi em Procurando Nemo", disse Wilson.

Conhecer vinho – Se não tiver jeito para a coisa, faça como todo mundo e escolha o vinho pelo preço. Saiba que a lei da oferta e da procura funciona: os mais caros são os melhores e os menos caros são os não tão bons.

Ler Guerra e Paz – Ou Ulisses, ou a Ilíada. São obras-primas da Literatura, é verdade. Mas ninguém é obrigado a ler suas centenas de páginas se não aproveitar de verdade. Em resumo: não acabe um livro de que você não gosta. Leia outra coisa.

Completar uma maratona – Não basta caminhar na esteira, correr no parque, gastar o calçadão? Para os obcecados por saúde, quem nunca correu 42 quilômetros, como o soldado grego Feidípedes (que morreu depois de completar o trajeto entre Maratona e Atenas), é um sedentário comedor de pipoca na frente da televisão. Se der muita vontade, deite e espere passar.

Praticar o Kama Sutra – Ou fazer sexo na praia. Ou no avião. Sexo é prazer, não competição. "Desde quando contorção corporal é coisa erótica?", pergunta Jordison em seu livro. Sem o peso da obrigatoriedade, quem sabe surjam umas idéias?

Assistir a Boca Juniors e River Plate no La Bombonera, em Buenos Aires – Ou ao Fla-Flu no Maracanã, a Corinthians e Palmeiras no Pacaembu. Quem não torce ficará impressionado por não mais que 15 minutos. E ainda restarão 75 – de péssima comida e banheiros muito, muito sujos.

Pular de pára-quedas – Ou fazer "bungee jumping". Ou, radicalismo dos radicalismos, praticar o "zorbing", assustadora modalidade em que o praticante é colocado em uma bola gigante, muitas vezes cheia de água, que rola morro abaixo. "Nunca tinha ouvido falar nisso até ler as listas do que fazer. Se você é viciado em adrenalina, faz sentido. Eu sofri um acidente de carro e posso dizer que a sensação é a mesma. Taquicardia, frio e tremedeira. É muito desagradável", descreve Jordison.

Ir a uma praia de nudismo – Além de correr o risco de sofrer queimaduras em áreas nunca dantes bronzeadas, você se sentirá inferior diante de corpos mais bonitos ou constrangido por outros nem tanto. E passará o dia sendo examinado por estranhos.

Tocar em um tigre - "Eu sigo três regras: se uma coisa demanda muito tempo, muito dinheiro ou é perigosa demais, eu evito", disse o produtor de televisão inglês Richard Wilson, autor de Não ligo a mínima.

Ficar rico – Se não ficou até agora...

18.10.08

A lua-de-mel de "Sêo" Nô

Regina Lewinsky
CORRESPONDENTE

Nosso jornal ganha a contribuição de mais uma grande blogueira. Trata-se de Regina Lewinsky, ou Rê, para os íntimos hehehe! Desde o início de nossas atividades, somos fãs desta grande autora, que, a partir de agora, é nossa correspondente em Recife, cidade de excelentes blogueiras. Basta consultar nossa lista de links pra se perceber que a capital pernambucana tá muito bem representada na blogosfera. Rê junta-se ao time que já conta com autoras do calibre de Yvonne, Maristela e Lana, que também é pernambucana, mas foi criada e mora no Rio de Janeiro. Apreciem o estilo refinado de nossa nova contratada.

Este “causo” me foi contado por um amigo, advogado lá da minha terra, com quem eu trabalhava à época. Por ser bizarro demais, haverá quem duvide da sua veracidade, mas quem conhece o comportamento do homem do campo, especialmente o nordestino lá das brenhas do interior, haverá de lhe dar crédito.

"Sêo" Nô era um ancião muito rico, dono de hectares e mais hectares de terras, mas uma pessoa muito simples e apegada ao seu torrão natal, de onde não havia ser humano que o fizesse sair.

Seu advogado e amigo pessoal, inconformado com aquele modo de vida tão restrito pra quem tinha tanta grana, às vezes lhe sugeria uma viagem de recreio pra conhecer o mundo, passear, descontrair, sair da mesmice do pequeno lugarejo onde morava, aconselhando: "Sêo Nô, o senhor é um homem rico, vá aproveitar o dinheiro que tem! O senhor tem muitas terras, muito gado, muitas propriedades, mas não conhece o mundo, plantado aqui nesse interiorzinho brabo! Como é que pode? Eu quisera ter a metade da sua riqueza, pra lhe mostrar como se vive! Vá ver a praia, vá almoçar em restaurantes caros. Como é que pode uma pessoa viver assim, podendo aproveitar ao máximo os prazeres da vida?"

Ao que o velhinho respondia: "Gosto não sinhô, dotô! Tenho medo de cidade grande, num seio nem trevessar uma rua cheia de carro! Nem no Recife eu nunca fui, querdita? Vô não! Deixe eu aqui, home! Se aperreie não, que eu gosto mermo é de tá no meu cantin."

Após ganhar a sua última causa judicial em defesa dos interesses do velhinho, o causídico, atarefado demais, passou a rarear as visitas que lhe fazia e passou alguns anos sem notícias dele, até que um dia, participando de um Congresso Jurídico num hotel 5 estrelas da região, aquele advogado, tendo se dirigido à piscina do hotel pra dar um mergulho e tomar sol antes da reunião vespertina, escutou alguém a lhe chamar pelo nome:

- "Dotô Fulano, ô dotô Fulano”!

Localizando de onde vinha aquela voz, qual não foi a sua surpresa ao deparar com ninguém menos que "Sêo" Nô! Ele não quis acreditar nos seus próprios olhos ... Não era possível que estivesse, mesmo, presenciando aquela cena: "Sêo" Nô, numa cidade diferente e, ainda por cima (surpresa das surpresas!) ... tomando banho de piscina!!! Refazendo-se do choque, aproximou-se do seu antigo cliente e fez a pergunta que não podia calar:

- "Sêo" Nô! O senhor por aqui? Que novidade é essa???

- Pois é, dotô ... Eu fiquei viúvo, me casei-me de novo e tô aqui em lua-de-mé!

Ainda atordoado com todas aquelas novidades, mas curioso por saber mais, pergunta o doutor:

- O quê? D. Maria morreu? E o senhor casou com quem?

- Me casei-me com Mocinha, dotô, o senhor sabe quem é ela ... É aquela que trabaiava lá em casa, como empregada da minha patroa ... Tá lembrado?

Diz o doutor:

- Ah! Sim! Eu me lembro de Mocinha ... Mas cadê ela, pr'eu cumprimentar, dar os parabéns?

- Ah, dotô, Mocinha é muito matuta ... Num quis vir não ... Dixe qui tinha veigonha, espie! Aí eu vim foi sozinho mermo ... Pruquê me dixéro qui a pessoa, hoje em dia, quando se casa, tem que viajar de lua-de-mé, né? Aí eu criei corage e vim. O sinhô num vivia dizendo pr'eu viajar? Tô achando é bom, aqui!

Pois é, gente! Vocês podem até pensar que é piada, mas isso aconteceu, mesmo! E tem mais: eu conheci todos os personagens dessa hilária história.

Por hoje, é só.

Rê Lewinsky também pode ser encontrada aqui.

NOTA DA REDAÇÃO: sabemos que estamos atrasados nas visitas aos blogs amigos. Faremos o possível, mas tivemos que aceitar um serviço extra nos últimos dias, pra poder acertar a folha de pagamento do pessoal, senão ia ter greve!

12.10.08

Loucos e santos


Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.

Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.

Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!

Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

5.10.08

Carol Lira volta à blogosfera

Um dos melhores blogs que encontramos neste um ano e meio de Jornal da Lua foi o Menina Lunar. Na época, editado por uma talentosíssima menina que tinha acabado de completar 17 anos. A qualidade do texto era tão boa que gerava dúvidas aqui na redação:

- Não pode ter 17 anos!

Mas tinha! Um fenômeno da natureza! A cada texto, a jovem blogueira do Recife deixava todo mundo pasmo, com sua incrível mistura de prosa e poesia, mostrando um estilo inigualável, rico demais em metáforas e ritmos que certamente arrancariam sorrisos de aprovação de mestres como Neruda, Drummond, Vinícius, Cecília, Bandeira ou Pessoa.

Seu nome: Carol Lira.

Meses atrás, veio a notícia que nenhum de nós queria saber: com o dia todo ocupado por estudo e trabalho, Carol entendeu que era hora de fechar o Menina Lunar. Para manter aquela qualidade, ela precisava de algo que lhe faltava no momento: tempo.

Essa foi a má notícia. Agora, vem a boa: ela voltou! Não mais como Menina Lunar, mas com um blog onde a qualidade dos textos continua de primeira linha, nem precisavam ser assinados. Ali encontramos a primeira e única Carol Lira, com suas mágicas palavras, tecendo seus posts personalíssimos, recheados de cores e sonhos.

A blogueira agora tem 18 anos. Mudou tudo e sua página tem outro nome: Letra Vermelha.

Eu disse "mudou tudo"? Desculpem, engano meu. A beleza de sua prosa poética não muda, é imune à ação do tempo. Tempo que, agora, esperamos que seja mais generoso com ela. E conosco, não nos privando de suas encantadas palavras! Letra Vermelha é leitura obrigatória. Daquelas obrigações que cumprimos com o maior prazer do mundo.

30.9.08

Escolha (ou não!) o seu candidato


Jânio OB
ENVIADO ESPECIAL AO T.R.E.

Guilherme Bouças, com o slogan:
“Chega de malas, vote em Bouças.”

Grito de guerra do candidato Lingüiça:
“Lingüiça neles!”

O slogan da candidata Dinha:
“Tudo pela Dinha.”

Do candidato que tem o apelido de Preto:
“Não vote em branco. Vote em Preto.”

Um candidato chamado Gê:
“Não vote em A, nem em B, nem em C; na hora H, vote em Gê.”

E tem um candidato com o apelido de Pé:
“Não vote sentado, vote em Pé.”

Slogan do gay chamado de Lady Zu:
“Aquele que dá o que promete.”

Criação dos amigos do candidato Samuca:
“Não esquente a cuca. Vote no Samuca.”

Debora Soft, stripper e estrela de show de sexo explícito:
“Vote com prazer!”

Este aqui acredita mesmo que vai ganhar:
“Com a minha fé e as fezes de vocês, vou ganhar a eleição.”

E tem um candidato com o apelido de Defunto:
“Vote em Defunto, porque político bom é político morto!”

26.9.08

Lana Esthevlana renova contrato


Sim, Lana recusou as propostas em dólares e euros e renovou contrato com o Jornal da Lua.

Vamos matar a curiosidade de nossos leitores, informando sobre o que aconteceu em nossa sacrificante viagem ao Rio de Janeiro, na tentativa de impedir que a colunista anti-social aceitasse as propostas da imprensa capitalista estrangeira.

Marcamos um encontro com a exigente Lana no Centro Cultural Banco do Brasil, onde acontecia uma exposição sobre Clarice Lispector. Foi, modéstia à parte, uma grande jogada. Quando chegamos, a colunista parecia levitar em pleno Centro da Cidade Maravilhosa, depois de ver de perto cartas, vídeos, citações e objetos da consagrada escritora.

Apulcro bebia seu uisque, escondido numa pequena garrafa de bolso, e dizia para Gudesteu:

- Sou um homem triste! Depois de três doses, fico normal!

Chico PF tirou o contrato da pasta e entregou ao dr. Bruegel:

- Diga a ela que é o livro de presença.

Bruegel entregou o contrato a Lana, com uma caneta:

- Veja os olhos de Clarice! Observe bem! Seus olhos estão pesados! Você não sente sono?

- Sim...

- Então, assine aqui o livro de presença, um registro para a História.

Lana assinou, enquanto dizia:

- Por alguns longos minutos fiquei pensando no quanto eu gostaria de sair pra tomar um café com ela. E fumar um cigarro. Só um.

Bruegel prosseguiu:

- Vou contar até três. Você vai despertar e não se lembrará de nada.

Contrato assinado, Lana se despediu e saiu. Nós voltamos para Copacabana. Missão cumprida!

- Já me sinto uma pessoa normal - dizia Apulcro.

A garrafa estava vazia. Nossos corações, cheios de esperança. No dia seguinte, podia dar praia. Em setembro, sempre chove no Rio. Mas o sol aparece, de vez em quando. Viva Clarice! Viva Lana Esthevlana!

14.9.08

Sacrifícios que fazemos pelos leitores

Nos próximos 10 ou 15 dias, nossa equipe será obrigada a ficar no Rio de Janeiro, pois temos uma difícil missão pela frente: nossa colunista anti-social, Lana Esthevlana, recebeu propostas milionárias dos mais famosos jornais do mundo, como Le Figaro, The Guardian, The New York Times, Daily Mirror, The Sun, El Clarín, Washington Post, Le Monde e ainda outros do Japão e China. Sim, ela escreve em chinês também! "E isso é sério!", ela nos disse, em nossa última ligação, quando suplicamos que nos recebesse para uma possível renegociação de contrato.

Bom, e assim lá vamos nós! Sabemos que será uma negociação longa e difícil. Por isso, entre um contato e outro com a exigente colunista, programamos algumas atividades, como ir à Praia de Copacabana, tomar água de coco, dar uns mergulhos e ver garotas de biquini.

É um sacrifício que fazemos por vocês, fiéis leitores. Afinal, Lana é parte importante de nossa equipe. Se a negociação demorar muito, eu, o editor, farei o sacrifício de ficar mais uns dias na praia, enquanto tento convencer a exigente colunista anti-social a renovar seu contrato conosco, em vez de se aventurar com euros e dólares. O restante da cambada vai ter que voltar pra redação mesmo, que eu não tô aqui pra ficar sustentando vagabundo, tão sabendo?

Rezem, acendam velas, façam despachos e torçam por um final feliz! Também podem pressionar (de leve) a colunista aqui. E se alguém perguntar por mim, digam que fui por aí, com um violão e um contrato milionário (bancado por Google e Microsoft, nós somos duros!) debaixo do braço! Se a praia estiver boa, fico mais um pouco, beleza?

À noite, a praia de Copacabana fica assim:

31.8.08

Chico PF faz 70 anos

Conheci Chico PF (Francisco Paula Freitas) quando eu morava no Rio de Janeiro, tinha 17 anos e ele ia a caminho dos 40. No ano anterior, fui procurar meu irmão mais velho, Celso Japiassu, e pedi que ele me tirasse de uma enrascada: eu já tinha tomado duas bombas no ginásio, porque não conseguia aprender Matemática, sempre passava colando, na segunda época, e morria de medo do que me esperava à frente: Física e Química!!

Ou seja, eu deveria ter terminado o ginásio com 14 anos, e não com 16! Tudo por causa de minha absoluta incapacidade de aprender Matemática. Eu disse: “Me arruma um emprego, porque não agüento mais estudar e não posso ficar à toa em casa. Você conhece a velha. Ela não vai me deixar em paz!”

Felizmente, Celso entendeu o meu drama e me colocou em contato com um colega publicitário que ia abrir uma empresa própria, chamada Espaço Tempo. Aquela atitude de meu irmão mudou minha vida radicalmente. A partir dali, três pessoas traçaram o meu destino: Chico Paula Freitas, Ademir Ferreira e Arlindo Coutinho.

Chico era o colega publicitário do Celso, com quem consegui meu primeiro emprego, de auxiliar de escritório. No escritório do Chico, conheci o jornalista Ademir Ferreira, que acompanhei em diversas entrevistas, aprendendo na prática como se faz uma reportagem. Também com Ademir, dei meus primeiros passos no Jornalismo, trabalhando com ele na coluna de Carlos Imperial, no extinto jornal Última Hora.

Arlindo Coutinho foi a pessoa que me fez ficar nos trilhos, quando Imperial encerrou seu contrato com a Última Hora e eu não tinha um caminho a seguir. Ele era divulgador da antiga CBS (hoje Sony Music) e me passava diariamente um bom noticiário que eu publicava na coluna do Imperial. Tudo por telefone. No dia em que Imperial anunciou o fim da coluna, liguei pro Coutinho, pra me despedir.

- E o que você vai fazer agora?
- Não tenho a mínima idéia!
- Então, passa aqui amanhã, que vou te levar na Editora Vecchi. Sei que lá tem uma vaga de repórter.

Eu fui, e vi Arlindo Coutinho pela primeira vez. Se alguém duvida que exista alguém generoso, alguém altruísta no mundo, precisa conhecer Arlindo Coutinho, que hoje faz palestras pelo Brasil, falando sobre sua maior paixão (depois da Ferrari e do Fluminense hehehe!): o jazz! É uma figura que mora para sempre em minhas lembranças e em meu coração.

Mas, tudo começou com Celso me dando o endereço do escritório do Chico. Lembro que, na nossa entrevista inicial, falamos de cinema. Ele me falou de uma cena de “A Doce Vida”, de Fellini, em que um personagem, aparentemente bem de vida e tranqüilo, de repente dava um tiro na cabeça. E ficamos filosofando sobre a espécie humana.

O escritório era na Avenida Rio Branco, no Edifício Marquês de Herval. Eu saia de Ipanema, descia na Praça XV, pegava a Avenida Almirante Barroso, passava pela Rua México e chegava ao prédio, bem na esquina. Um dia, Chico me chamou. Tinha uns poemas e queria me mostrar. Eu gostei tanto que copiei alguns pra mim. Tenho até hoje. Foi naquele dia que percebi o amor que ele tinha pela poesia, pelos livros, pela arte, desde que esta arte servisse não para distrair, mas para refletir os problemas humanos, para ajudar na criação de um novo homem, um novo mundo.

Chico era um revolucionário, disfarçado de publicitário de terno e gravata, em plena ditadura militar no Brasil. Nunca pegou em armas, nem nunca o vi pregando qualquer tipo de violência. Mas, quando eu aparecia pra almoçar na casa dele, numa simpática rua no bairro do Méier, sempre saia de lá com livros dos ídolos dele, discursos de Fidel, de Mao, poesias de Neruda... Chico era um esquerdista convicto, tendo que trabalhar para capitalistas, tendo que vender produtos desses capitalistas que ele tanto detestava!

Um dia, vi no jornal que ia passar no Museu de Arte Moderna um filme de um cineasta japonês consagrado, mas que eu não conhecia: era “Dodeskaden”, de Akira Kurosawa. Fui até a sala do Chico e perguntei se ele me recomendava o filme. “Não só recomendo, como vou com você ver este filme hoje. É um gênio!”

Muita gente sabia que Kurosawa era um gênio. A sala tava lotada, tivemos que ficar em pé. Eu, de calça jeans e camiseta, acabei sentando no chão. Chico, de paletó e gravata, preferiu ficar em pé, mas, de vez em quando, comentava algo, como: “A música, ouça a música ao fundo!”

Com o tempo, mesmo depois que não trabalhava mais com ele, mas a amizade prosseguia, observei que aquele publicitário bem sucedido, que andava de Mercedes Benz, só se sentia bem ao lado de pessoas comuns, representantes legítimos da grande maioria do povo brasileiro. Para ele, a Zona Sul era “o Rio dos turistas, o verdadeiro Rio é onde morou Lima Barreto.”

Um dia, me levou pra conhecer Vila Isabel, “a terra de Noel Rosa”. De repente, passou pela rua um sujeito barrigudo, de camiseta e bermuda, levando uma sacola de feira na mão. Chico me mostrou a figura e disse: “Sabe quem é aquele? É o Dunga, que fez a letra de ‘Conceição’, o maior sucesso de Cauby Peixoto.” Chico conhecia todos os artistas daquela região, os famosos e os sem fama.

Por tudo que eu conhecia do Chico, não foi surpresa pra mim quando vi os temas de seus dois livros lançados até agora, “Os suicidas se atiram de pés descalços” (poesias) e “Café e Bar Ponto Chic” (contos), este em catálogo pela Editora Bertrand Brasil. Seus personagens são as pessoas que ele admira, aquelas que Dostoievski chamava de “Humilhados e Ofendidos”.

São mecânicos, garçons, pintores de parede, pedreiros, sapateiros, manicures, motoristas, enfermeiros, costureiras, faxineiras, jardineiros, ajudantes de cozinha, cozinheiras, gente do subúrbio do Rio de Janeiro, que mora em casas pequenas, sem ajuda de ninguém. Gente pobre, honesta e trabalhadora, que se reúne nos raros momentos de folga pra cantar samba, pra dançar nos morros, como se a vida fosse um paraíso eterno.

Esses são os heróis de Chico Paula Freitas. Ele me fez ver que esses eram os heróis. Por essa lição simples, mas fundamental, foi primeiramente nele que pensei na hora de criar os personagens do Jornal da Lua. Porque, se hoje eu sei quem são os heróis, sei que Chico Paula Freitas também é meu herói, que sobe o morro e dança junto com essa gente humilde, me dando mais uma impressionante lição de vida: precisamos rir de nossos problemas!

No dia 8 de setembro de 2008, Chico Paula Freitas faz 70 anos. Deveria ser reverenciado como um grande contista, um grande artista, um grande humanista! Mas, provavelmente, vai apenas pra um boteco no subúrbio carioca, cumprimentar o povo que ele tanto admira e perguntar pra cozinheira qual é o grande prato do dia.

24.8.08

Ditados do século XXI

Flávia Menezes
ESPECIAL PARA O JORNAL DA LUA

01. A pressa é inimiga da conexão.

02. Amigos, amigos, senhas à parte.

03. Antes só que em chats aborrecidos.

04. A arquivo dado não se olha o formato.

05. Diga-me que chat freqüentas e te direi quem és.

06. Para bom provedor, uma senha basta.

07. Não adianta chorar sobre arquivo deletado.

08. Em briga de namorados virtuais não se mete o mouse.

09. Em terra off-line, quem tem discada é rei.

10. Hacker que ladra não morde.

11. Mais vale um arquivo no HD do que dois baixando.

12. Mouse sujo se limpa em casa.

13. Melhor prevenir do que formatar.

14. Quando a esmola é demais, tem vírus anexado.

15. Quando um não quer, dois não teclam.

16. Quem ama um 486, Core Duo lhe parece.

17. Quem clica, seus males multiplica.

18. Quem com vírus infecta, com vírus será infectado.

19. Quem envia o que quer, recebe o que não quer.

20. Quem não tem banda larga, caça com discada.

21. Quem nunca errou, que aperte a primeira tecla.

22. Quem semeia e-mails, colhe spams.

23. Quem tem dedo vai a Roma.com.

24. Um é pouco, dois é bom, três é chat.

25. Vão-se os arquivos, ficam os back-ups.

26. Barato sai caro e lento.

Flávia Menezes edita o blog Do Sétimo Andar

17.8.08

Vem aí a Rephorma Ortográphica

Kamilla Barcelos
BLOGUEIRA CONVIDADA

Quem é antenado com as notícias já está sabendo que vem aí uma reforma ortográfica na língua portuguesa, com o intuito de unificar o idioma de todos os países que falam português.

Quem leu essa minha última frase e imaginou "que bom, agora finalmente aprenderei ortografia, pois tudo ficará mais fácil!", enganou-se redondamente. Além disso, quem vive em um mundo capitalista já imagina que o vil metal é que comanda essa reforma.

Se já não bastasse eu ter nascido no século passado, agora terei realmente uma escrita arcaica, digna de pessoa passada. Eu me lembro que várias vezes eu procurava livros de História aqui em casa para fazer algum trabalho e discriminava aqueles com linguagem antiga, do tipo que escrevia "agôsto" no lugar de "agosto". Até hoje o meu avô escreve dessa forma e eu vivo achando estranho. A partir do ano que vem, entrarei para o clube dele: "ARCAICOS S.A.".

Sempre gostei de Português, mas acontecia várias vezes que eu errava alguns detalhes, como hífen e o trema, este que para mim só existiu até a minha quarta série, porque minha professora obrigava. Agora me pergunto: "Será que posso processar as minhas professoras que viviam me corrigindo quando eu os errava?"

A única reforma que eu apoio é retirar o trema, mesmo porque, para mim e para a grande maioria dos estudantes brasileiros, já estava extinto faz tempo. Já vai tarde! No entanto, ficará uma salada aprender a colocar hífen, pois, o que agora é "anti-religioso", com a reforma será "antirreligioso". O tão utilizado "microondas" será "micro-ondas".

"Idéia" não terá mais acento agudo. Do jeito que gosto de escrever essa palavra, acho que não a escreverei mais. Redigirei somente a palavra "pensamento" no seu lugar, ou não terei "ideia" alguma. Revoltei totalmente com a parte de tirar alguns acentos diferenciais. Que pensamento mais sem sentido! Se o acento é para diferenciar, não há motivo para tirá-lo. Por exemplo: na frase anterior, eu utilizei a palavra "para", que atualmente nós sabemos com clareza que é uma preposição, e não do verbo parar, porque não tem o acento. Com a reforma, não existirá esse acento. O que vai ter de ambiguidade por causa disso não está (ainda!) escrito!

Eu era revoltada com o meu nome e, com a bela reforma ortográfica que acontecerá, não terei mais argumentos para mudar no cartório. Pois, finalmente, as letras "k", "w" e "y" entrarão para o nosso alfabeto.

Ainda bem, porque até do meu próprio alfabeto eu era excluída.

Kamilla Barcelos tem 17 anos e é a criativa editora do blog Mundo Efêmero, um dos nossos grandes favoritos