lobo e lua

lobo e lua

11.4.10

As grandes questões existenciais

Lana Esthevlana
COLUNISTA ANTI-SOCIAL


Vida - Com uma boa pitada de hedonismo e uma dose do bom e velho rock and roll, por favor.

Morte - Só se for pra morrer de amor, baby.

Vida após a morte - Se existir, vai ser danada de boa. Afinal, se cada um vai mesmo receber aquilo que merece, eu vou me dar bem. Adoro ajudar os outros (sem hipocrisia) e só faço maldade quando extremamente necessário (tenho uma teoria fodida sobre isso [vida após a morte, pessoinha lerda], se alguém quiser saber, me manda um e-mail). Até porque, se desfrutar da vida eterna lá no céu é sinônimo de ser otário aqui na Terra, prefiro ir pro quinto dos infernos. Ouvi dizer que lá é open bar. Opa, tô bêbada!

Reencarnação - Passar pelo colégio outra vez? Ah, não! Quero não. Quebra essa aí pra mim, tiô.

A nossa insignificância diante do universo infinito - Desanimador. Principalmente quando, enquanto você se mata de estudar, um cara que mal terminou o 2º grau ganha milhões pra bater uma bolinha.

Ser ou não ser - Eis a questão (duh, que original eu sou). Depende do ponto de vista: eu quero ser rica, mas quero não ser investigada pela Receita Federal.

A angústia existencial diante da transitoriedade de tudo - Primeiro a gente quase enlouquece de tanto pensar a respeito. Depois, acredite, isso passa.

O cérebro humano está capacitado a responder a todos os enigmas da existência? - Pode repetir? Me distraí com um emoticon que tava pulando na janelinha do msn.

Um sistema econômico voltado para as necessidades sociais e não dominado pela cupidez humana - Contanto que eu seja bem-sucedida e viva no luxo, apóio o que vier.

O que é mais importante, a genética ou o meio? - A genética. Porque se você for bonito, vai ser bonito em qualquer meio. E isso já facilita muita coisa nesse mundo. Tá me olhando assim por quê? É a dura realidade da vida, ora.

Existe um ser superior que dirige as nossas vidas? - Se existe, ele definitivamente não fez por merecer a carteira de habilitação.

Pra onde caminha a humanidade? - Pro fundo do poço e descendo. Acho que vou comprar um balão.

A incrível, fantástica, extraordinária Lana Esthevlana também pode ser encontrada aqui

1.4.10

Três anos na blogosfera

Redação do Jornal da Lua. Entram Gudesteu e Apulcro.

Gudesteu: - Os balões ficaram bem, aqui no meio da sala?

Apulcro: - Eu gostei. Acredito que o pessoal também vai gostar.

- E os convites? Mandou pra todo mundo?

- Mandei. Só não tá na lista aquele que dizia pra gente ler o blog dele no ...

- ... Ótimo! Esquece esse cara mesmo! Mas, e os nossos amigos de verdade?

- Peguei os nomes de todos os blogueiros e blogueiras que publicaram os e-mails em seus blogs. Pode ser que ainda falte algum nome, a blogosfera se renova constantemente, preciso conferir as últimas visitas que tivemos.

- Lembrou também das pessoas que nos acompanharam durante um bom tempo, desde o início, mas depois fecharam seus blogs?

- Creio que estão todas na lista. Fecharam os blogs, mas amizades foram feitas ao longo desses três anos e não devem terminar por isso.

- Tá certo! Hoje mesmo eu tava comentando com uns chegados aí que devemos ter mais amigos na blogosfera do que no chamado mundo real, né?

- É mesmo! E dizer que tudo começou há exatamente três anos, depois que o Cadinho fez o blog dele e insistiu que o nosso estimado chefinho também fizesse um.

- E ele nos chamou pra essa tal de blogosfera. Temos sido felizes aqui, né?

- Sim, porque nossa opção foi fazer com que nossos visitantes pudessem rir e pensar sobre a chamada realidade.

- Não apenas rir, mas também pensar.

- Então, nem todo post é engraçado, mas, se o leitor não rir, pode encontrar algo pra pensar.

- Essa é a ideia. Como sugeriu de cara o nosso chefinho, antigo fã daquele jornal que fez muito sucesso nos anos 70, "O Pasquim".

- Sem esquecer a revista "Mad", editada no Brasil pelo Ota, que trabalhou com o Bill na extinta Editora Vecchi.

- Ah, sim, essa mistura foi que gerou o Jornal da Lua.

- Não podemos esquecer dos colaboradores da blogosfera, que logo surgiram, e ainda surgem, pra dar um novo tempero às nossas publicações.

- Esses não podem faltar! Nem no blog, nem em nossa festa de três anos!

Entra Lana Esthevlana.

Lana: - E aí, moçada? Tudo pronto?

Apulcro: - Ainda tenho uns convites pra mandar...

Gudesteu: - Mas deixa a porta aberta! Quem for chegando, vai entrando. Chama o pessoal todo e vamos comemorar o terceiro ano do Jornal da Lua.

Apulcro: - Que foi fundado no dia primeiro de abril, mas não apenas pra contar mentiras. De vez em quando, contamos verdades também.

Lana: - É mesmo? Pensei que era tudo mentira!

Gudesteu e Apulcro: Hein?!?!

Lana: - Calma, gente!! Brincadeirinha!!! Socorro!! Socorro!!!

19.3.10

Pergunte ao Bigô

Ivani Cunha
JORNALISTA CONVIDADO


Já escrevi sobre o Aristides (Tide) da Margarida, um dos personagens inesquecíveis da minha infância na Vila Nova Esperança dos anos 50. Naquela crônica, concentrei-me nas travessuras do homem com alma de moleque, que não dispensava uma boa birita, amava a música e o ofício de treinar cães de caça. Mas, ao contar aqueles casos, veio-me também à memória o filho dele, Luiz “Bigô”.

Imagino que o menino tenha desenvolvido, desde muito novo, uma rara capacidade de abstração, pois conseguia dormir nas madrugadas de festa em sua casa. Não era uma casa de muitos cômodos; portanto, onde estivesse, a música e as risadas estariam sempre bem perto. É certo que Bigô sempre conseguia adormecer antes daquele momento terrível em que começava uma briga qualquer, talvez por causa de algum sujeito atrevido que resolvera dançar um pouco mais agarrado com a mulher... do outro. Talvez por outro motivo, do qual ninguém se lembraria algumas horas depois.

Nunca soube por que a briga sempre envolvia o Aristides. Acho que, na tentativa de apartar os brigões, ele acabava ofendendo um deles, ou quem sabe exagerava ao exigir respeito. Mas, ora bolas, ele era o dono da casa. Depois, como eu já contei, a história se repetia: aparecia o Tide gritando da cerca, ou diante da porta da cozinha de nossa casa, que havia alguém no seu calcanhar com uma faca.

Bigô dormia.

Acordávamos bem cedo no domingo, e também nos outros dias, como se tivéssemos de atender a alguma obrigação. Mas a nossa agenda era sempre a mesma: conversar fiado lá no fundo do quintal, apoiados na cerca de arame farpado. Do lado da minha casa havia uma pequena horta, um galinheiro e, mais abaixo, um espaço para o lixo. Eu disse lixo, mas para o Bigô e para mim, às vezes, aquele espaço era uma espécie de despensa ao ar livre. Um dia pegamos ali uma garrafa de Biotônico Fontoura que se encontrava pela metade e a entornamos goela abaixo de uma só vez. Em outra oportunidade, saboreamos uma lata de doce de leite quase cheia – depois, é claro, de afastar centenas de formiguinhas que se deliciavam com a guloseima. Estava um pouco azedo, mas desceu bem.

Não sentimos sequer uma discreta dor de barriga depois dessas e de outras estripulias gastronômicas no fundo do quintal. Benditos sejam os mecanismos de defesa que Deus coloca no organismo das crianças.

Bendita seja também a camaradagem e, mais do que isso, a cumplicidade existente entre as crianças. Minha relação com Bigô foi marcada por muitos atos de cumplicidade, mas eu destaco um, na poeira dessas histórias que se passaram há meio século.

Um dia, eu brincava com o meu estilingue no alto da escada que ligava a cozinha ao quintal. Bigô estava lá no fundo do lote deles. O amigo me desafiava a acertar uma lata no meio do lixo e eu já havia feito várias tentativas, todas em vão. De repente, uma galinha – a mais bonita, a melhor poedeira do quintal – atravessou distraída na linha de tiro. A pedra acertou-lhe em cheio o papo. A ave não conseguiu dar nem mais um passo. Caiu morta.

Bigô pôs a mão direita na cabeça, a esquerda na boca, e com o olhar admitiu que já estava com pena de mim, pois certamente eu levaria a maior surra de vara de marmelo da minha vida.

Fiz, com o dedo indicador sobre os lábios, o clássico sinal de pedir segredo sobre aquele desastre.

Algumas horas depois, minha mãe descobriu o corpo da gorda galinha no quintal: “Quem diria que essa galinha fosse adoecer e morrer assim de uma hora para outra, não é?” Em seguida, ordenou que eu jogasse a ave num buracão no fim da rua, pois havia o risco de contaminação de todo o galinheiro.

A verdade sobre a morte daquela galinha seria revelada uns 40 anos depois do incidente. Eu mesmo já não tinha nenhum filho com a idade em que cometera a travessura, e minha mãe, então uma criaturinha frágil, incapaz de empunhar uma vara de marmelo, disse que eu estava inventando história...

– Pois então pergunte ao Luiz Bigô... – respondi.

Ivani Cunha é jornalista em Belo Horizonte

8.3.10

Antes de pedir dinheiro emprestado...


Antes de pedir dinheiro emprestado a um amigo, decida de qual dos dois você precisa mais.

Mostre-me uma mulher que quer ser magra apenas por razões de saúde e eu lhe mostro um homem que lê Playboy apenas pelas entrevistas.

Quando um homem e uma mulher se casam, tornam-se um só. A primeira dificuldade é decidir qual deles.

Sabe por que a Psicanálise é mais rápida pros homens do que para as mulheres? Porque, quando dizem para eles voltarem à infância, eles já estão lá.

Terceira idade é aquela em que a gente bota os óculos para ouvir o rádio. (Simão)

Os políticos são como fraldas. Devem ser trocados constantemente. E pela mesma razão.

Não faça na vida pública aquilo que você faz na privada.

Há duas espécies de patifes: os que admitem ser e nós. (Millôr)

É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota do que falar e acabar com a dúvida. (Lincoln)

Frases retiradas do livro “Ironia”, compiladas por José Francisco de Lara

28.2.10

Desculpas pra não estudar

Tamires B.
BLOGUEIRA CONVIDADA


Arrumei, o dia todo, desculpas pra não estudar...

Será que por causa disso serei a vergonha da família?
Serei apontada como um mau exemplo para as crianças do prédio, que jogarão bombinhas de São João em mim?

Talvez esse seja meu destino, por culpa dessas malditas desculpas! (O fato de que EU as inventei deve ser ignorado)

E quais desculpas seriam responsáveis pela perda de um dia preciosíssimo de estudo para mim, uma pessoa que teve, durante todo o ano, cada minuto como sendo o último em que poderia absorver um pouco de conhecimento inútil à existência, mas essencial a provas sem sentido?

Acuso essas desculpas aqui:

1. De manhã, meu QI é terrivelmente reduzido.

Como uma pessoa conhecedora do meu próprio metabolismo, percebo que 4 horas a mais no conforto de minha cama são essenciais para que eu possa obter um aproveitamento máximo das minhas capacidades, mais tarde, beeem mais tarde. Então, para que levantar às 6 se eu posso levantar às 11? Opa, na verdade 5 horas a mais, e não 4, são essenciais.

2. Olha, não vejo esse amigo há anos...Que mal faz conversar 10 minutos?

Tem quantos anos que não vejo você on? Provavelmente, apenas algumas semanas... Mas essa ausência insuportável de um colega, com quem o máximo de diálogo que mantive envolvia o empréstimo ou não de uma borracha, é suficiente para adiar em uma hora o maravilhoso encontro de dona T. com os livros.

3. Minha amiga terminou uma prova. Agora devo ligar para mostrar solidariedade.

Essa é minha preferida. Uma desculpa envolvida em paradoxos... Por um lado, você se sente uma pessoa melhor, porque está sacrificando seu tempo precioso de estudo com o bem-estar de outrem... Por outro, de 5 em 5 minutos você olha para o relógio e lembra que ela acabou de terminar uma prova e não tem que estudar mais nada, enquanto você... Bem, você tem uma pilha de cadernos fechados te esperando.

4. Eu tenho que cuidar de mim mesma.

Muitas pessoas dizem que, para evitar a loucura, devemos reservar, entre as horas de estudo, um momento para nós mesmos. Arrumar o cabelo, ir à praia, fazer as unhas. Mas isso não vale, NÃO vale, quando você não estudou absolutamente nada. Essa desculpa, além de me levar 50 minutos no salão, me rendeu a próxima desculpa da lista.

5. Vou esperar as unhas secarem antes de começar a estudar.

Mais genericamente falando, essa é a desculpa do tipo: vamos usar algo como marcador de tempo para dar início aos estudos. Algumas pessoas usam o final do telejornal ou o começo do Programa do Faustão como sinal verde para começar a labuta. Eu apostei na secagem das unhas, como se digitar fosse mais seguro para a integridade do esmalte que virar páginas. Vai entender!

Depois dessa última, que foi a que demorou mais, eu acabei desistindo, porque já era tarde... Agora estou me sentindo terrivelmente culpada... Mas não o suficiente pra usar o tempo que gastei escrevendo essa lista e ir decorar fórmulas de PA e PG.

Tomara que eu tome jeito, antes que seja tarde demais.

Tamires B. pode ser encontrada aqui

22.2.10

O niver de Kamilla Barcelos

Pouco depois que o Jornal da Lua chegou à blogosfera, encontramos um pequeno mas muito interessante grupo de blogueiros que logo convidamos para fazer parte de nossa redação. Lá estavam, por exemplo, Maristela Bairros, Patty Alves e Yvonne Dimanche, que, infelizmente, encerraram suas atividades.

Porém, novos blogueiros foram surgindo, como Regina Simões, Nathália Esthevlana (nossa colunista anti-social), Tamires B. (que fará sua estreia aqui no próximo post), Celso Japiassu, Dama de Cinzas, Dani Pedroza e Kamilla Barcelos.

Entre tantos blogueiros, o que nos fez optar pelos citados? E a resposta é simples: todos são grandes humoristas, sabem como poucos usar a ironia e o sarcasmo para refletir sobre uma realidade que raramente nos agrada.

Esta semana, homenageamos a pequena grande humorista Kamilla Barcelos. Que conhecemos desde os seus 16 anos, em 2007. No dia 26 de fevereiro, nossa colaboradora e amiga completa 19 anos. Descobrimos a data por acaso, através do Twitter, anteontem, quando ela deixou registrado que não queria festa de aniversário, mas a mãe insistia em fazer um bolo e convocar a galera.

Acompanhamos os posts de Kamilla desde 2007. E o que podemos dizer é que seu humor continua refinado. É sempre um prazer ir ao Mundo Efêmero e ler suas opiniões sobre os mais diversos assuntos. Porque a realidade é filtrada por uma mente inquieta, observadora, mas que não se abate diante das dificuldades.

Ao contrário, as dificuldades parecem servir de combustível para Kamilla. Que examina a situação e nos mostra o que pensa sobre tudo em posts recheados de um humor originalíssimo.

Por isso, mesmo que ela não queira soprar velinhas, fazemos aqui nossa festa particular para Kamilla, uma blogueira de primeira, que temos a sorte de contar em nosso grupo de colaboradores. Viva a Kamilla! Vivaaaaaaaaaaa!!!!!!!!

14.2.10

Evoé, Baco!

Celso Japiassu
BLOGUEIRO CONVIDADO


A cidade se agita em datas de festas. Natal e Carnaval são os picos desse entusiasmo coletivo que se mistura ao calor do verão para resultar no confuso tempo de compras e de alegria, ambas obrigatórias.

Compras obrigatórias no Natal, alegria obrigatória no Carnaval.

Num, o comércio festeja vendas recordes; no outro, a indústria de bebidas e de outras drogas menos santas superam suas próprias previsões. A indústria de preservativos também festeja o Carnaval.

O trânsito pesado reflete o estado de espírito da cidade. As pessoas saem à rua e se transformam em povo e o povo se transforma em blocos que exalam odor de suor e de cerveja. Cada bairro tem mais de um desses grandes aglomerados humanos inquietos que arrastam multidões em cortejos absurdos.

O ruído produzido por um desses blocos é superior em volume ao estrondo de um trovão sobre nossa cabeça, só que não é passageiro como um trovão.

Suvaco do Cristo, Vem ni mim que sou facinha, Xupa mas não baba, Imprensa que eu gamo, Mulheres de Chico, Se não quer me dar…me empresta, Cutucano atrás, Se me der eu como, Rola preguiçosa, Spanta neném, Berro da viúva, Eu sou eu e jacaré é bicho d’água, Nem muda nem sai de cima, Bafo da onça, Bloco dos cachaças, Bagunça meu coreto, Meu bem volto já, Concentra mas não sai, Empurra que pega, Barangal e Senta que eu empurro são alguns dos comportados e barulhentos blocos que desfilam pela cidade.

Evoé, Baco!

Celso Japiassu pode ser encontrado aqui

3.2.10

Flagrante cumplicidade

Dani Pedroza
BLOGUEIRA CONVIDADA

- E aí, doutora? Como está a minha situação?

- Você conhece o procedimento quase tão bem quanto eu. Quantas vezes já foi preso nas mesmas condições?

- Essa é a sétima vez.

- Pois então. Já sabe tudo o que vai acontecer, não?

- A senhora acha que demora muito a me soltar dessa vez?

- Eu vou primeiro conversar com o delegado, depois começo a fazer previsões.

- As coisas estão feias pro meu lado, né? Pode falar, doutora. A senhora sabe que sou macaco velho.

- Justamente por isso que não entendo você. Tantos anos nessa vida e ainda dá um mole desses?

- Doutora, a senhora pode ser advogada só escrevendo petições? Consegue ficar na segurança de seu escritório entre seus livros? Não tem que dar a cara a bater nas audiências? Se expor?

- E daí?

- E daí que cada profissão tem seus riscos. O risco da minha é a prisão. Faz parte.

- Desde quando estelionato é profissão?

- É a única coisa que sei fazer. É o que eu faço melhor do que os outros. Onde me sinto o melhor. E é o que paga meus desejos, meus vícios, meu sustento.

- Aptidão e satisfação.

- O que foi?

- Nada, só estava pensando alto. Continue.

- Pois é isso, doutora. A senhora usa seu talento e seu esforço pra conseguir sobreviver, eu faço o mesmo.

- Você só esqueceu de um detalhe. Todas as profissões têm uma função social. Elas servem de alguma forma pra contribuir com as outras pessoas, cada um se especializa em alguma coisa e oferece aos outros. Como se fosse um escambo de aptidões.

- Um o quê?

- Escambo, troca.

- Ah sim. Ouvi dizer que antigamente as pessoas trocavam o que plantavam com as outras. Um plantava milho, outro feijão, daí eles trocavam.

- Pois então. Hoje em dia, trocamos aptidões. Um sabe tratar de doentes, outro sabe construir casas, e cada um "vende" o que sabe fazer pra que todos vivam melhor.

- Entendi o raciocínio. Estelionatário não torna a vida de ninguém melhor.

- O que você faz é justamente prejudicar a vida em sociedade, à medida que você engana alguém pra ficar com o que é dele, além de causar um dano àquela pessoa, você gera uma sensação de insegurança e desconfiança nos outros, que começam a sentir que precisam se defender a qualquer custo porque podem ser as próximas vítimas. Isso cria toda uma desordem social, entende?

- A senhora tem razão. Eu não contribuo mesmo pra esse "meio social". Sabe por que, doutora? Porque ele também não me deu nada. Pra mim não existe mundo social, existe mundo cão, onde é cada um por si. Olha, doutora, não sou um cara ruim, sei reconhecer quando alguém me faz um favor. Mas eu não faço parte desse meio social, ele nunca fez nada por mim. E nem eu me sinto na obrigação de fazer alguma coisa por ele.

- Talvez seja principalmente por isso que anos de cadeia não conseguiram te ressocializar. Você nunca foi nem socializado. Mas eu ainda não entendo uma coisa. Como você se deixou pegar de novo?

- Doutora, o destino do estelionatário é a cana. Eu nunca quis juntar dinheiro. A senhora estuda, lê, fica cada vez mais instruída porque é essa a sua maneira de conquistar o seu lugar, de se fazer aceitar e respeitar pelos outros. Eu roubo pra comprar essas mesmas coisas.

- O seu discurso é muito bonito, mas há diversas formas menos prejudiciais a você mesmo e aos outros de conseguir o que quer.

- A sua, por exemplo?

- A minha, por exemplo.

- A senhora põe gente como eu na rua.

- Eu, não senhor. Eu ofereço a pessoas como você o direito de ter uma defesa competente. Há o Ministério Público pra tentar provar que você é culpado se assim entender. E, no fim das contas, quem decide é o juiz.

- O seu discurso é muito bonito, mas...

- rs... Você é muito bom na argumentação... Imagino que seja assim que você consegue enganar suas vítimas.

- Não somos tão diferentes quanto pode parecer à primeira vista, não é mesmo, doutora?

Dani Pedroza pode ser encontrada aqui.

14.1.10

Parabéns!

Chico PF
(Francisco Paula Freitas)


Amigo,

Quando foi, diga a verdade, que passou pela sua cabeça que chegar aos 70 fosse tão rápido?

Se basta uma rápida virada no pescoço, ou um breve fechar dos olhos para, na mesma hora, termos 10, 15 ou 25, isso que o tempo faz me cheira a traição e me deixa bobo. Como é que pode?...

Que o tempo iria passar, sabíamos. Mas não iria ser assim tão ligeiro. Mais: quando chegássemos lá, não era para ter o que se tem agora. Seria algo diferente, igual ao que víamos nos outros, nos velhos da vida que existem quando a gente é pequeno. Neles supúnhamos existir a paz, a calma, o descanso, a bonomia e uma certa felicidade. Dever cumprido, imaginávamos. De certa forma, desejamos isso também. Hoje sabemos, não é verdade.

Aos 70, afinal o que você vê em você? Você vê o que o menino, que insiste em não nos abandonar e que não conseguimos deixar de ser, vê. E lá está ele — o que a toda hora vem para nos salvar — a resolver os problemas e a ver, por trás da nossa cara um tanto vincada, da mesma forma que víamos quando a cara era lisa, era outra. Outra? Então nossa cara já foi outra? É possível, mas só concordamos quando a vemos nos retratos desbotados. E a atual, como é? Essa, a das fotografias recentes, não é, eu garanto. Talvez a do espelho, a da hora da barba a que, preocupados com a lâmina, quase não vemos. Não, também não é essa. Nossa verdadeira cara é uma espécie de sombra, de memória, de lembrança de algo que fica entre a matéria e a vontade.

Somos sempre os mesmos, cara, alma, entranhas, tudo. Mudamos para os outros. Mas os que saberiam enxergar as diferenças, já não podem. Não acompanharam nossa mudança nem qualquer outra coisa. Se foram, nos deixaram a despeito de nós, que não os abandonamos...

Pais, tios e avós. Nós que um dia fomos filhos, sobrinhos e netos, hoje órfãos, fazemos o papel daqueles. Representamos hoje os que se foram, mas temos dificuldade em decorar o papel.

Vemos o tanto realizado, achamos pouco e vem à lembrança uma ou outra pequenina coisa que poderíamos ter feito... Por que tem de ser assim?

Não vou como os simplórios dizer que 70 anos é só o começo, é mais. Bem mais. Mas, cá entre nós, é muito pouco, é quase nada. Feche os olhos e confirme.

Entre os que não ficaram pelo caminho — somos poucos! — cada um vence a seu modo.

Um comprimido para as mazelas e um drinque para brindar a vida, sigamos. Com ceticismo e esperança, ir é o que resta.

Publicado em "Café e Bar Ponto Chic" - Editora Bertrand Brasil

4.1.10

27.12.09

A Filosofia como remédio

Dr. Mijaro Nomuro
DESEMPREGADO

Comprei um livro sensacional, "A Filosofia como remédio para o desemprego", de Jean-Louis Cianni, Editora BestSeller, baratinho, 18 pratas, até um desempregado pode comprar.

O autor tinha um baita emprego numa firma francesa, mas foi demitido. Pra família pensar que arrumou outro emprego, acorda todos os dias às 6, toma café e às 7 já tá no escritório de sua casa, com o computador ligado, para despistar, mas, na verdade, fica lendo e redescobre os livros de Filosofia de sua juventude, associando os antigos ensinamentos à sua precária situação atual.

Eu passei a fazer coisa semelhante, de uns meses pra cá. Minha mulher passa, me vê no computador e pensa que eu tô trabalhando.

Uma vez por dia, digo que vou atender um cliente. Vou é pra padaria, que tem várias mesas e lá faço um lanche demorado, enquanto assisto à sessão da tarde.

Depois volto e levo meu cão Nick pra passear pela cidade, ao anoitecer.

Meu psiquiatra me perguntou se eu queria que ele aumentasse a dose do remédio, mas eu disse que não. Só fico deprimido quando penso nas minhas sempre adiadas férias na Itália, ou na Praia de Copacabana, mas essa sensação só se acentua às segundas. No resto da semana, sigo a programação normal, sem grandes transtornos.

Gostaria, sim, de conhecer a Itália, desde que vi meu primeiro filme com Claudia Cardinale. Deve ser uma beleza ver de perto aqueles monumentos, o Coliseu, a Fontana di Trevi, Veneza e seus canais, Florença e seus museus, Sophia Loren e Maria Grazia Cuccinotta.

Como sempre fui pão-duro, posso me dar ao luxo de viver uns tempos sem salário, mas visitar a Itália agora me parece uma insanidade.

A única coisa que cortei das despesas foi a renovação da assinatura de uma revista. Não vou cortar a TV a cabo, ainda mais agora que "Combate", minha série favorita na infância, voltou ao ar pelo TCM, com um episódio no sábado e outro no domingo. Não perco nenhum e ainda gravo tudo.

Fui tentar minha aposentadoria, mas a dona que me atendeu lá no INSS, enquanto espirrava laquê no cabelo, doida pra ir embora, foi logo avisando que eu ia receber uma merreca por mês, "culpa do Fernando Henrique":

- Quem se aposentou até 1998 tá numa boa, colega! Depois disso, sifu! Um mendigo de porta de botequim fatura mais que um aposentado. Quer um conselho? Vai lavar pratos, fazer alguma coisa até os 65 anos, ou então roube um banco.

Trouxe essa dúvida pra casa. O estranho é que, à noite, passou "Como roubar um milhão de dólares" na TV a cabo.

O que foi mais um motivo pra não cortar minha assinatura. Anotei umas dicas. Agora só falta saber o que vai dar no meu teste vocacional. Vou começar tudo de novo, já que não existe emprego na minha área, então vou tentar ver se sei fazer outra coisa. A mulher que me atendeu, olhando pra minha cara de quarentão ("que retardado!"), disse que deve conseguir marcar pros próximos 20 dias.

Eu espero. Não tenho nada pra fazer mesmo.

Bom, vou continuar lendo o livro. Que recomendo!

Dr. Mijaro Nomuro trabalhava com o dr. Fugiro Nakombi. Mas os dois foram demitidos.