lobo e lua

lobo e lua

12.12.09

Padre recebe homenagem de comunidade

Apulcro Mambojambo
ENVIADO ESPECIAL


O padre Manoel Pereira de Assis foi agraciado com um jantar em homenagem aos seus 35 anos de trabalho ininterrupto à frente da paróquia de São Bartolomeu do Reino de Deus.

Um renomado político, estimado membro da sociedade local, foi convidado para entregar um presente e fazer um breve discurso de agradecimento.

O político se atrasou e o sacerdote, então, decidiu proferir umas palavras:

“A primeira impressão que tive desta paróquia não foi boa. Pensei que o bispo tinha me enviado a um lugar terrível, pois a primeira pessoa que se confessou comigo me disse que tinha roubado um aparelho de TV, que tinha roubado dinheiro dos seus pais, também tinha roubado a firma onde trabalhava, além de ter aventuras amorosas com a esposa do chefe e se dedicar ao tráfico de drogas.

“Fiquei assustadíssimo… Mas, com o passar do tempo, entretanto, fui conhecendo mais gente que em nada se parecia com aquele homem… Inclusive vivi a realidade de uma paróquia cheia de gente responsável, com valores, comprometida com sua fé e, desta maneira, tenho vivido os anos mais maravilhosos do meu sacerdócio”.

Justo neste momento chegou o político, a quem foi passada a palavra para entregar o presente da comunidade.

Pediu desculpas pelo atraso e começou o discurso dizendo:

“Nunca vou esquecer o dia em que o padre chegou à nossa paróquia… Como poderia? Tive a honra de ser o primeiro a me confessar com ele…”

28.11.09

Conversa na Redação

Redação. Noite. Entram Gudesteu e Lana.

Gudesteu: - Descobri que minha mulher é uma grande mentirosa.

Lana: - É? E por que você acha isso?

Gudesteu: - Ela não apareceu em casa ontem à noite e, quando perguntei por onde andou, inventou que estava com a irmã dela.

Lana: - E não estava?

Gudesteu: - Claro que não! Quem passou a noite com a irmã dela fui eu!

14.11.09

As desventuras de Anselmo, o boêmio

Regina Lewinsky
CORRESPONDENTE

Anselmo era um sujeito casado, mas, também, boêmio e mulherengo de carteirinha. Sempre que tinha uma chance, "aprontava", entregando-se a homéricas farras, o que fazia a sua infeliz consorte(?) se descabelar e viver no seu encalço, sempre que possível.

Em uma de suas furtivas noites de orgia, depois de tomar todas com colegas de trabalho, num pouco recomendável barzinho da periferia, cada um arranjou uma parceira e saíram em caravana pra a beira-mar; dois casais em cada carro, com a "inocente" finalidade de assistir "corrida de submarino", num tempo em que essa prática não significava, ainda, um risco de vida.

E foi um tal de pernas, braços e cabeças a se engalfinharem naquele pequeno espaço, em frontal desafio à Lei de Newton ... uma verdadeira promiscuidade!

Ao raiar o dia, percebeu, horrorizado, que havia extrapolado o limite do horário de chegar em casa ainda com uma desculpa razoável e, desfazendo-se das sua parceira, rumou pro seu lar, "bolando" uma justificativa possível pra aquele execrável ato. Ao aproximar-se de casa, desde longe Anselmo vislumbrou o seu mais temível pesadelo: lá estavam, alinhadas que nem meio-fio, sua esposa e ninguém menos que a sua temível sogra, contumaz desafeta, que nunca entendeu o porquê da filha ter escolhido "semelhante cafajeste pra marido, quando havia tido tantos pretendentes tão mais aceitáveis antes dele".

O cara gelou, quando viu o que o aguardava: as duas, de "mãos nos quartos", balançando uma das pernas, numa ameaçadora coreografia sincronizada, com aquelas caras de quem está prestes a explodir (só faltava o fatídico rodo nas mãos), o fulminavam com olhares nada compreensivos.

Dentre todos os impropérios que ouviu, enquanto fechava o carro, só uma frase o fez estremecer: "Vamos chegar atrasadas no casamento!" ... Foi aí que ele lembrou: logo mais, às 9 horas, o casal estava escalado para apadrinhar o casamento de uma das irmãs da esposa e o evento iria se realizar numa cidadezinha a uns 200 km dali!

O miserável quis morrer! Com aquela ressaca, aquele gosto de brecha de tamborete e de cabo de guarda-chuva na boca, um sono de matar e a cabeça a ponto de estourar, ainda tinha que se por lindo e loiro, todo engravatado, em um recinto em que estaria presente toda a família dela (que, não por acaso, não o via com bons olhos). ERA A MORTE!

Aproveitando-se do pouco tempo que tinha pra se arrumar e tentar se recompor, passou pelas duas feito uma bala, sem dar a mínima satisfação, se fingindo preocupado com o adiantado da hora. Entrou embaixo do chuveiro, gargarejou um desinfetante bucal, pra disfarçar o bafo de onça, arrumou-se todo, perfumou-se e entrou no carro, onde as duas já haviam se aboletado, pensando na desagradável cantilena que iria escutar durante todo o percurso, o que, com efeito, aconteceu.

Tentando desenvolver a velocidade máxima, pra abafar as impiedosas vozes das duas, sentiu alguma coisa impedindo-o de acelerar. Foi aí que ele petrificou: ao dar uma espiada pra baixo, vislumbrou um sapato de mulher! Pronto. Estava perdido! Como defender-se do indefensável, agora que aquele inanimado objeto, silenciosamente, "entregava" sua abominável traquinagem?

Como todo bom malandro, logo teve uma idéia: inventou que o carro estava apresentando um problema, diminuiu a marcha, abriu a porta, fingindo olhar o pneu traseiro e arremeteu no acostamento a prova do crime. Oh! Que alívio! Agora podia seguir a viagem sem mais atropelos que não o blá-blá-blá daquelas duas! Chegou à igreja a tempo de ver que o carro que conduzia a noiva ainda adentrava o pátio. Apressado, dirigiu-se à entrada lateral, quando viu que as suas companheiras de viagem sequer haviam ainda saído do carro ...

"Ora, bolas!" - resmungou - "Essas duas com tanta pressa e ficam ali, só falando mal de mim". Voltou, já com ares de quem ia repreendê-las pela demora, mas parou e deu meia-volta, rindo cínicamente entredentes, quando ouviu o seguinte diálogo:

- Mamãe, é claro que a senhora esqueceu! Como é que o seu sapato poderia sumir daqui, se a senhora nem saiu do carro???

- Minha filha, eu num tô doida, não ... Me responda como é que eu iria me arrumar todinha e calçar um sapato só, sem notar a falta do outro pé? Isso é um fenômeno inexplicável! E agora, como é que eu vou entrar na igreja? Vou perder o casamento da minha filha pela falta de um sapato. Que absurdo!!!

Regina Lewinsky também pode ser encontrada aqui.

1.11.09

Baile na casa do Aristides

Ivani Cunha
JORNALISTA CONVIDADO

Deixo a memória viajar até os anos 50: Vila Nova Esperança, região Nordeste de Belo Horizonte. As crianças andavam descalças ou usavam tamanco de madeira e, de uma forma ou de outra, estavam expostas aos escorpiões de agosto, que na minha casa fizeram uma vítima.

A vida era calma e haveria tédio se não tivéssemos um vizinho chamado Aristides, ou Aristides da Margarida – era assim que as pessoas se referiam aos casais na Belo Horizonte da periferia, onde se reproduziam os costumes do interior mineiro. Podia ser também a Margarida do Aristides, mas é dele, o “Tide”, que estou falando, sem desmerecer nem um pouco a mulher.

Éramos vizinhos divididos por uma cerca de arame farpado, que em certas épocas se cobria de ora-pro-nóbis e, em outras, de incontroláveis trepadeiras selvagens. Muros eram dispensáveis naquele tempo. Mas eu acho que às vezes o Aristides preferia que houvesse um bom muro, fácil de escalar, em vez de uma cerca entre os dois lotes. Ele devia pensar assim nas madrugadas em que era obrigado a fugir da própria casa, sob a ameaça de um convidado pé-de-valsa sob efeito do álcool.

Alguns bailes na casa do Aristides por pouco não se transformavam em tragédia. Nosso vizinho promovia pelo menos um arrasta-pé por mês. À noitinha começavam a chegar os casais: as mulheres com os cabelos armados, saias rodadas e boleros bem justos, algumas com uma pinta na face ou no queixo, que era moda; seus acompanhantes, de paletó e gravata, alguns caprichando no linho, podiam pentear os cabelos mirando-se nos bem lustrados sapatos de bico fino.

Essa parte da vila ainda não desfrutava o conforto da energia elétrica, mas sempre havia um grupo de músicos para animar os bailes do Tide, que também dominava o seu instrumento, um reluzente trombone de vara. À luz de lampiões e lamparinas, e irrigados por boa cana e outras bebidas fortes, os casais deslizavam sobre o piso de tijolo areado ao som de boleros, tangos, foxtrotes, rumbas, sambas-canções e outros ritmos.

Ficávamos lá em casa à espera do grito do Aristides:

“Padrinho, me acode que vão me matar.” Meu pai, padrinho de casamento dele, ia até à porta da cozinha para esperá-lo ou corria ao quintal para ajudá-lo a pular a cerca. Depois escondia o afilhado e lhe passava o sermão de sempre:
“Aristides, tenha juízo, um dia você não vai conseguir fugir para cá. Pense nisso. Você tem mulher e filho. Olhe que a bebida só traz complicação...”

Antes do amanhecer, os convidados se despediam, e durante algum tempo ainda se ouviam, bem longe, as notas de uma flauta, quem sabe de um dos músicos que passaram a madrugada tocando. Aristides prometia que no próximo baile seria diferente, com bebida sob controle e nada de briga. Ninguém acreditava.

Algumas horas depois o homem estava bem disposto outra vez, ensaiando alguns acordes no trombone ou treinando em frente da casa uns perdigueiros para ajudá-lo nas caçadas ou render-lhe alguns trocados. À tardinha, o canto das cigarras era quebrado pelo tropel de um cavalo. A poeira vermelha escondia o cavaleiro, mas era sempre ele, o Tide, montado no animal em pelo.

Estava novamente alterado pelo álcool que fora servido de má vontade no bar do Benedito Antão ou no armazém do Antônio Melgaço, que conheciam bem o freguês. O cavalo percorre num galope a rua esburacada, o cavaleiro grita, bate os calcanhares na barriga do animal, balança, escorrega até quase o pescoço do bicho, mas não cai. As mães recolhem os filhos, e a minha diz para a amiga que a visita: “Ele é boa pessoa, não devia beber. Tenho pena da Margarida...”

Aristides era um bom sujeito de verdade, apenas cometia suas pequenas loucuras. Com seus bailes, perdigueiros e exibições de cavaleiro pela esburacada rua Dália, atual Rua Margarida Prachedes, divertia as pessoas e ajudava a empurrar o tempo naquela época em que o mundo era pouco maior do que os nossos quintais.

Mas eu pretendia escrever mesmo era uma crônica sobre um garimpeiro que me pagou apenas a metade do combinado pela revisão de suas histórias.

Que o diabo o carregue!

Ivani Cunha é jornalista em Belo Horizonte

24.10.09

Famosas últimas palavras

“Atira, se for homem!”

“Deixa comigo”

“Atravessa correndo que dá”

“Ah, não se preocupe: o que não mata, engorda”

“Fica tranqüilo, este alicate é isolado”

“Sabe qual a chance disso acontecer? Uma em um milhão”

“Essa camisa do Cruzeiro não é minha não….Eu sou atleticano como vocês”

“Adoro essas ruas, são super tranquilas”

“Tem certeza que não tem perigo?”

“Meu sonho sempre foi saltar de paraquedas. E neste instante vou realizá-lo. E eu mesmo o dobrei!”

“Confie em mim”

“Aqui é o piloto. Vamos passar por uma leve turbulência”

“Capacete? Imagina, tá calor”

“Eu sempre mudei a temperatura do chuveiro com ele ligado. Não ia ser hoje que alguma coisa iria acontecer”

“Desce desse ônibus e me encara de frente, sua bicha!”

”Eu sei nadar, não se preocupe”

“Kung-Fu nada. Eu vou acabar com você”

“Vamos lá que não tem erro”

“Pode mexer. É pitbull, mas é mansinho”

“Posso ver uma luz no fim do túnel”

“BÚÚÚÚÚÚÚÚÚ! Vovó, te assustei? Vovóóóóóóóóó!!!!!!”

11.10.09

Chat adolescente

Vagabundo Social
BLOGUEIRO CONVIDADO


Zahovic_10 – oi

]TixaWinda[ - oi

Zahovic_10 – td bem?

]TixaWinda[ - sim e ctg?

Zahovic_10 – tb

Zahovic_10 – ddtc?

]TixaWinda[ - avr

]TixaWinda[ - e tu?

Zahovic_10 – lx

Zahovic_10 – idd?

]TixaWinda[ - 14

]TixaWinda[ - tu?

Zahovic_10 – 16

Zahovic_10 – nome?

]TixaWinda[ - Patrícia

]TixaWinda[ - e tu?

Zahovic_10 – rui

Zahovic_10 – tens foto?

]TixaWinda[ - xim e tu?

Zahovic_10 – s

Zahovic_10 – podes enviar?

]TixaWinda[ - enviah tu primeiruh

Zahovic_10 – pk?

]TixaWinda[ - n te conhexo…

Zahovic_10 – como é keu sei k depois envias?

]TixaWinda[ - eu enviuh

Zahovic_10 – mas eu pedi primeiro :(

]TixaWinda[ - alturah e peso?

Zahovic_10 – lol

Zahovic_10 – 1,68 de altura

Zahovic_10 – 62 kg

Zahovic_10 – e tu?

]TixaWinda[ - sou baixinhah…

]TixaWinda[ - 1,54m

]TixaWinda[ - nao gordah

Zahovic_10 – kor dos olhos e do kabelo?

]TixaWinda[ - cabelo caxtanho claruh e olhox caxtanhox esverdeadox

]TixaWinda[ - e tu?

Zahovic_10 – tenho kabelo meio loiro

Zahovic_10 – olhos azuis

]TixaWinda[ - goxto de olhox azuix

Zahovic_10 – dizes me o numero do sutiã?

]TixaWinda[ - 38

Zahovic_10 – tanto?

]TixaWinda[ - xim

Zahovic_10 – mandas me a foto?

]TixaWinda[ - ok

/Ficheiro recebido em C:\Documents and Settings\rui\Os meus documentos\As minhas imagens\Gajas\Euzinha4.jpeg

]TixaWinda[ - exa fotoh jah tem algum tempuh..

Zahovic_10 – es gira

]TixaWinda[ - ja n tenho o cabeluh axim

Zahovic_10 – mas fika-te bem como ta na foto

]TixaWinda[ - ;)

Zahovic_10 – que koisas gostas de fazer?

]TixaWinda[ - danxar, ouvir musicah, xair à noite, paxear à beira mar, ver telenovelax… :p

]TixaWinda[ - muita coisah e tu

Zahovic_10 – jogar futebol, ir kurtir kom o pessoal, fazer bodyboard, ouvir musika, tar na net e assim

Zahovic_10 – k musika ouves?

]TixaWinda[ - britney spears, shakirah, sandy e junior, henrique iglesias, eminem e maix algunx

Zahovic_10 – eu kurto limp bizkit, algumas de linkin park e de papa roach, eminem, tupac, marilyn manson, korn…

]TixaWinda[ - ok

]TixaWinda[ - manda-me a tuah fotoh

Zahovic_10 – ta bem vou procurar

]TixaWinda[ - falah

Zahovic_10 – keres falar de ke?

]TixaWinda[ - sexo tah bom pra ti?

Zahovic_10 – pode ser

Zahovic_10 – ainda és virgem?

]TixaWinda[ - querex fazer sexo virtual?

Zahovic_10 – ok komo é k se faz?

]TixaWinda[ - n sabex??

Zahovic_10 – virtual nao

]TixaWinda[ - tipuh: eu digo linguado

]TixaWinda[ - e tu a xeguir dizes outra coisah

Zahovic_10 – ok entao começa tu

]TixaWinda[ - max pera, ainda n me mandaxte a fotoh

Zahovic_10 – ainda n enkontrei, deve tar aki numa pasta klk

]TixaWinda[ - procurah

Zahovic_10 – mas vamos começando

]TixaWinda[ - nao

]TixaWinda[ - procurah

Zahovic_10 – oh tenho aki muitas imagens ja n sei onde a pus

*]TixaWinda[ saiu de #BaCanal

*]TixaWinda[ está offline

Zahovic_10 – puta

*não é possível enviar a mensagem porque ]TixaWinda[ está offline

Vagabundo Social pode ser encontrado aqui.

3.10.09

Pesquisa Millôr/Jornal da Lua

A questão foi levantada pelo Millôr, e o Jornal da Lua dá prosseguimento. Numa época em que se fala em legalização de tanta coisa, como maconha, casamento gay etc e etc, devemos também levar em conta um dos mais importantes tópicos da atualidade:

Você é a favor ou contra a legalização da corrupção?

26.9.09

Dr. Bruegel atende

Prezado dr. Bruegel: você não vale nada, mas eu gosto de você! Você não vale nada, mas eu gosto de você! Tudo que eu queria era saber por quê?!? Tudo que eu queria era saber por quê?!?

Você brincou comigo, bagunçou a minha vida. E esse sofrimento não tem explicação. Seu sangue é de barata, a boca é de vampiro. Um dia eu lhe tiro de vez do meu coração.
Eu quero ver você sofrer, só pra deixar de ser ruim. Eu vou fazer você chorar, se humilhar, ficar correndo atrás de mim. Você não vale nada, mas eu gosto de você! Você não vale nada, mas eu gosto de você! Tudo que eu queria era saber por quê?!? Tudo que eu queria era saber por quê?!? (Anna Vitória – Uberaba)

Prezada Anna Vitória: eu devia estar contente, porque eu tenho um emprego, sou o dito cidadão respeitável e ganho mais de quatro mil reais por mês. Eu devia agradecer ao Senhor por ter tido sucesso na vida como artista, eu devia estar feliz porque consegui comprar um BMW 2006. Eu devia estar alegre e satisfeito por morar em Ipanema depois de ter passado fome por dois anos aqui na Cidade Maravilhosa. Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida, mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa. Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis, mas confesso abestalhado que eu estou decepcionado. Porque foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto "e daí?" Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e eu não posso ficar aí parado.

Eu devia estar feliz pelo Senhor ter me concedido o domingo pra ir com a família no Jardim Zoológico dar pipoca aos macacos. Ah! Mas que sujeito chato sou eu, que não acha nada engraçado, macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco.

É você olhar no espelho, se sentir um grandessíssimo idiota, saber que é humano, ridículo, limitado, que só usa dez por cento de sua cabeça animal. E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial, que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social. Eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. Porque, longe das cercas embandeiradas que separam quintais, no cume calmo do meu olho que vê, assenta a sombra sonora de um disco voador.

21.9.09

O poder da burrice

“Duas coisas são infinitas: o Universo e a burrice humana. Mas, a respeito do Universo ainda tenho dúvidas", disse Albert Einstein. Componente inalienável da natureza humana, a burrice é, provavelmente, a força mais perigosa do Cosmos.

O que significa burrice? O conceito não tem uma definição teórica indiscutível. Não é o oposto de inteligência: há pessoas inteligentes que, vez por outra, fazem o papel de burras. Uma definição convincente foi dada pelo historiador e economista italiano Carlo Cipolla: “Uma pessoa burra é aquela que causa algum dano a outra pessoa ou a um grupo de pessoas sem obter nenhuma vantagem para si mesmo – ou até mesmo se prejudicando.”

A burrice tem a peculiar vocação de se traduzir em ações, e por isso mesmo se torna perigosa. Segundo Cipolla, que identificou cinco “leis fundamentais da burrice”, até mesmo os mais inteligentes tendem a desvalorizar os riscos inerentes à burrice. E ela é mais perigosa que a crueldade: esta, tendo uma lógica compreensível, pode pelo menos ser prevista e enfrentada. Para começar, pensemos naqueles que, em tempos de Aids, mantêm relações sexuais sem proteção ou nos que não usam um antivírus no próprio computador, expondo a si mesmos e aos outros ao contágio de vírus reais ou virtuais.

A burrice sempre ofereceu cenas e personagens cômicos, como no conto de Andersen, “A roupa nova do imperador”, no qual dois alfaiates mal-intencionados convencem o rei a vestir uma roupa maravilhosa, invisível para as pessoas burras. Era uma armadilha: ninguém queria admitir a própria burrice nem contradizer o soberano, afirmando não ver a roupa (que de fato não existia). Só um menino teve a coragem de dizer que o rei estava nu, revelando a trapaça. Mas, atenção: rir da burrice pode deixá-la “simpática” e, portanto, desvalorizada. Se na ficção o estúpido é facilmente reconhecido, na vida real as coisas são diferentes.

A burrice tem três características fundamentais:

1) Ela é inconsciente e recidiva: o burro não sabe que é burro e tende a repetir várias vezes o mesmo erro. Tais características contribuem para dar mais força e eficácia à ação devastadora da burrice. A pessoa estúpida não reconhece os próprios limites, fica fossilizada em suas convicções particulares e não sabe mudar. Por isso, como diz o psicólogo italiano Luigi Anolli, “no âmbito clínico, a burrice é a pior doença, por ser incurável”. O estúpido é levado a repetir os mesmos comportamentos porque não é capaz de entender o estrago que faz e, portanto, não consegue se corrigir.

2) A burrice é contagiosa. As multidões são muito mais estúpidas que as pessoas que as compõem. Isso explica porque populações inteiras (como aconteceu na Alemanha nazista ou na Itália fascista) podem ser facilmente condicionadas a perseguir objetivos insanos, um fenômeno bastante conhecido na psicologia. “O contágio emotivo próprio do grupo diminui a capacidade crítica”, explica Anolli. “Percebe-se a polarização da tomada de decisão: escolhe-se a solução mais simples, que na maioria das vezes é a menos inteligente.”

3) Além da coletividade, há um outro fator que amplifica a burrice: estar numa posição de comando. “O poder emburrece”, afirmava o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Por quê? Quando estão no poder, as pessoas muitas vezes são induzidas a pensar que, justamente por ocuparem aquele posto, são melhores, mais capazes, mais inteligentes e mais sábias que o resto da humanidade. Além disso, estão cercadas de aduladores, seguidores e aproveitadores que reforçam o tempo todo essa ilusão. Dessa forma, quem está no governo chega a cometer as mais graves faltas com a aprovação geral.

Há pessoas que chegam incrivelmente perto da verdade sobre si mesmas e a respeito do mundo. Elas têm uma percepção equilibrada, são imparciais quando se trata de atribuir responsabilidades de sucessos e fracassos e fazem previsões realistas para o futuro. Testemunhas vivas do quanto é arriscado conhecer a si mesmas, elas são, para muitos psicólogos, pessoas clinicamente depressivas. Martin Seligman, docente de psicologia na Universidade da Pensilvânia (EUA), demonstrou que o chamado “estilo explicativo” pessimista é comum entre os deprimidos: quando fracassam, assumem toda a culpa, consideram-se burros, péssimos em tudo e se convencem de que essa situação vai durar para sempre.

E quais são os resultados de tanta (às vezes excessiva) honestidade intelectual? Deborah Danner, pesquisadora da Universidade de Kentucky (EUA), examinou os efeitos da longevidade em 180 noviças norte-americanas, otimistas e pessimistas. Quanto mais otimistas se mostravam as religiosas, mais tempo viviam. As mais joviais viveram em média uma década além das pessimistas.

É claro que ser realistas e ao mesmo tempo serenos e otimistas seria o ideal; mas não há dúvida de que às vezes um pouco de burrice faz bem.

Colaboração de Fernanda Magalhães, do blog Comportamento Real

6.9.09

Autobiografia de Bertrand Russell


Prólogo

Três paixões, simples, mas irresistivelmente fortes, governaram-me a vida: o anseio de amor, a busca do conhecimento e a dolorosa piedade pelo sofrimento da humanidade. Tais paixões, como grandes vendavais, impeliram-me para aqui e acolá, em curso instável, por sobre profundo oceano de angústia, chegando às raias do desespero.

Busquei, primeiro, o amor, porque ele produz êxtase - um êxtase tão grande que, não raro, eu sacrificava todo o resto da minha vida por umas poucas horas dessa alegria. Ambicionava-o, ainda, porque o amor nos liberta da solidão - essa solidão terrível através da qual a nossa trêmule percepção observa, além dos limites do mundo, esse abismo frio e exânime. Busquei-o, finalmente, porque vi na união do amor, numa miniatura mística, algo que prefigurava a visão que os santos e os poetas imaginavam. Eis o que busquei e, embora isso possa parecer demasiado bom para a vida humana, foi isso que - afinal - encontrei.

Com paixão igual, busquei o conhecimento. Eu queria compreender o coração dos homens. Gostaria de saber porque cintilam as estrelas. E procurei apreender a força pitagórica pela qual o número permanece acima do fluxo dos acontecimentos. Um pouco disto, mas não muito, eu o consegui.

Amor e conhecimento, até ao ponto em que são possíveis, conduzem para o alto, rumo ao céu. Mas a piedade sempre me trazia de volta à terra. Ecos de gritos de dor ecoavam em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, velhos desvalidos a constituir um fardo para seus filhos, e todo o mundo de solidão, pobreza e sofrimentos, convertem numa irrisão o que deveria ser a vida humana. Anseio por aliviar o mal, mas não posso, e também sofro.

Eis o que tem sido a minha vida. Tenho-a considerado digna de ser vivida e, de bom grado, tornaria a vivê-la, se me fosse dada tal oportunidade.

Bertrand Russell (1872-1970)

1.9.09

O motivo do meu divórcio

Domingo, como sempre fiz, acordei muito cedo, coloquei meu agasalho, tomei café e fui até a garagem preparar meu barco de pesca.

De repente, começou a chover torrencialmente. Havia até neve misturada com a chuva, ventos a mais de 80 km. Liguei o rádio e ouvi que o tempo seria chuvoso durante todo o dia.

Resolvi não ir e voltei pra casa. Silenciosamente, tirei minha roupa e entrei novamente debaixo do cobertor.

Afaguei as costas da minha mulher suavemente e disse bem baixinho:

- O tempo lá fora está terrível.

Ela, ainda sonolenta, respondeu:

- E você acredita que o idiota do meu marido foi pescar com esse tempo?