lobo e lua

lobo e lua

11.7.09

Reflexões mais ou menos filosóficas

O amor é como capim: você planta e ele cresce. Aí vem uma vaca e acaba com tudo.

Como é difícil se livrar de uma mulher fácil.

Li que fumar fazia mal, então parei de fumar... Li que beber fazia mal, então parei de beber... Li que comer gordura fazia mal, então parei de comer... Li que sexo fazia mal, então parei de LER!

O casamento é uma carga tão pesada que para carregá-la são necessárias duas pessoas, e, às vezes, três.

No Brasil, se o feriado é religioso, até ateu comemora.

A mata é virgem porque o vento é fresco!

Toda ideia revolucionária provoca três estágios:
1º: É impossível, não vou perder meu tempo
2º: É possível, mas não vale o nosso esforço
3º: Eu sempre disse que era uma boa ideia

Fases de certos projetos:

Entusiasmo - Desilusão - Pânico - Busca e punição dos culpados - Glória aos não participantes

Seja qual for o defeito do seu computador, vai desaparecer na frente de um técnico, retornando assim que ele se retirar.

Se ela te dá bola, é feia. Se é bonita, tá acompanhada. Se tá sozinha, você tá acompanhado.

Quase todo o exame final que você prestou foi baseado na única aula que você perdeu, baseada no único livro que você não leu.

A luz no fim do túnel é um trem vindo na sua direção.

A fila do lado sempre anda mais rápida.

Se você está se sentindo bem, espere um pouco: isso passa.

Uma pessoa saudável é aquela que não foi suficientemente examinada.

As nuvens são como os chefes: quando desaparecem, o dia fica lindo.

Tamanho não é documento e dinheiro não traz felicidade. (Autor desconhecido, pobre e de pinto pequeno)

O novo e-mail do governo é: planalto@lheira.gov.br

A vida é uma droga. E você ainda reencarna.

4.7.09

Inimigo Público


Jorge Fernando dos Santos
BLOGUEIRO CONVIDADO

Ele nunca tinha matado ninguém. Pior que isso, nunca tinha roubado, estuprado ou traficado seja lá o que fosse. Por isso mesmo foi condenado à pena máxima: 150 anos de trabalhos forçados ou redução da pena mediante morte súbita. Somente assim a sociedade pôde respirar aliviada. Tratava-se do inimigo público número um. Aquele que, desde a infância, recusava-se a cometer qualquer tipo de delito, por menor que fosse.

Tudo começou aos sete anos de idade, quando ele cedeu seu lugar no ônibus a uma velhinha. Todo mundo ficou surpreso e os vizinhos que se encontravam a bordo chegaram a comentar o fato. Mas ninguém levou aquilo muito a sério. Ele é só uma criança, alguém comentou. Alguns dias depois, o que parecia ter sido uma simples travessura da infância aconteceu novamente. A mãe, que estava com ele, não teve outra alternativa senão repreendê-lo na frente dos demais passageiros, que já se mostravam injuriados com o menino.

Já aos 13 anos, ele se recusou a consumir uma droga oferecida pelo primo, que era seu colega no primeiro grau. A notícia logo se espalhou e tanto a família quanto a diretora do estabelecimento de ensino se horrorizaram. O ópio custa tão caro e esse menino simplesmente não aceita a oferta do primo que tanto o admira? Quem ele pensa que é? - muitos comentaram. E ele continuou ignorando esse tipo de pressão. Aliás, acostumou-se com aquela forma de tratamento.

Consciente de sua própria rebeldia e - por que não? - orgulhoso de ser um adolescente do tipo rebelde e contestador, foi várias vezes suspenso da escola e quase tomou bomba por questionar os ensinamentos antiéticos de seus professores.

Os pais já não sabiam mais o que fazer. O padrinho, que além de ser seu tio era também um deputado federal várias vezes investigado por corrupção - e por isso mesmo reeleito duas vezes para o cargo - simplesmente rompeu os laços afetivos com a família. Não quero ser lembrado como parente de um caso perdido como esse, justificou. Seu irmão, pai do garoto problema, lamentou o fato. Como sempre fazia, castigou o filho passando-lhe uma descompostura e repetindo as desvantagens de ser uma pessoa que não se mostra enquadrada no sistema.

Aos 17 anos, ele cometeu um legítimo ato de atentado ao pudor. Em plena fila de alistamento militar, socorreu um recruta que, estando de sentinela há várias horas, desmaiou sob o intenso sol do verão. Se você fosse um militar, seria levado à corte marcial, disse um sargento, furioso diante do fato inusitado jamais ocorrido em seu pelotão. Dispensado do serviço obrigatório, conseguiu arranjar emprego numa agência bancária da cidade. Mas não durou muito no emprego. Acabou sendo demitido por justa causa depois de se recusar a tomar parte num desfalque planejado pelo gerente.

Jamais pensei criar um filho pra isso, desabafou o pai numa discussão em família. Trabalhar honestamente como caixa de banco, isso é um absurdo! Calma, pediu-lhe a mulher, sempre paciente. Ele é ainda muito jovem, há de aprender com a própria vida.

Não aprendeu. E por isso mesmo, aos 30 anos de idade, tendo já uma enorme ficha criminal - que incluía multas de trânsito por respeitar o sinal vermelho e por jamais estacionar em fila dupla - acabou sendo preso em flagrante ao tentar salvar uma jovem de ser estuprada por um padre dentro de uma igreja do seu bairro.

Apesar de nunca ter aprovado suas atitudes, o pai contratou os serviços do melhor advogado da cidade, um eminente professor de Direito que já havia tirado da cadeia vários chefões do crime organizado. Tudo em vão. A promotoria agiu com incrível competência, apresentando várias testemunhas e comprovando todos os crimes praticados pelo réu.

No final do demorado julgamento, que catalisou a atenção da imprensa e mobilizou a opinião pública do país, o veredito foi unânime. Um elemento de tamanha periculosidade, verdadeira ameaça aos interesses do sistema vigente, não poderia continuar às soltas, incomodando as pessoas normais que obedecem cegamente aos mandamentos da lei. Hoje, ele está confinado numa cela escura em alguma das penitenciárias privadas do país, cuja especialidade é justamente punir aqueles que se recusam a levar vantagem na vida.

Jorge Fernando pode ser encontrado aqui.

28.6.09

Michael Jackson (1958/?)

Logo que soube da morte de Michael Jackson, me lembrei de um faxineiro que trabalhava na galeria onde eu tinha uma loja de discos.

Ele dizia ter 20 anos, mas parecia menos, pois era franzino, muito magro e baixinho. Assim que abri a loja, ele apareceu e perguntou se tinha lá algum disco de Michael Jackson. "Tem alguns", eu disse. "Qual você procura?"

"Na verdade, nenhum, pois tenho todos. Só quero saber, pois, na hora do almoço, posso vir aqui e ouvir um pouquinho?"

"Claro, pode vir", eu disse.

E ele sempre aparecia lá, escolhia uma faixa e começava a dançar, daquele jeito que seu ídolo tinha imortalizado. Sorria, dizia que era o máximo e depois voltava ao trabalho de limpar a galeria.

Durante quatro anos, ele cumpriu esse ritual de aparecer e pedir pra ouvir Michael Jackson. Depois, fechei a loja e nunca mais voltei lá. A notícia da morte de Jackson fez com que eu me lembrasse dele e de outras figuras que passavam por lá. Tinha um que andava com uma foto do Bono no bolso. Ele parava qualquer pessoa, na galeria ou dentro das lojas, tirava a foto do bolso e perguntava: "Não sou parecido com ele?" E, se a pessoa demonstrava alguma dúvida, ele ficava de perfil e perguntava novamente: "Assim, nessa posição, não parece?"

Também passavam por lá o Elvis jovem e o Elvis quarentão. Explico: um imitava o rei do rock nos anos 50, com topete, enquanto o outro era gordo e usava um cavanhaque enorme, além de tentar imitar o modo de andar de Elvis, tudo muito bem estudado.

Os clientes, em geral, eram fãs que imitavam seus ídolos. Um imitava John Lennon, outro o Jim Morrison, tinha também Jimi Hendrix, James Brown...

Um dia, percebi uma grande aglomeração no corredor e fui ver o que era. Tomei o maior susto, pois podia jurar que era o próprio Michael Jackson! O sujeito era alto, tinha uma daquelas roupas que Jackson vestia nos shows, parecendo um uniforme militar, um tom de pele muito parecido com o astro que deixava de ser negro, também usava maquiagem, inclusive nos olhos, o cabelo com uma ponta escorrendo pela testa, um chapéu... Impressionante a semelhança!

O faxineiro estava lá, no meio da multidão. Pequenino, com seu uniforme cinza, sorria e observava o sósia. Quando tudo acabou, ele entrou na minha loja e disse:

"É bom a gente ter um ídolo, né?"

Por isso, dei como incerta a morte de Michael Jackson no título deste post. Quem tem um ídolo, vivo ou morto, sabe do que falo. Aquele pobre faxineiro, que morava longe e levava horas de ônibus pra chegar na galeria e voltar pra casa, tinha em Michael Jackson um forte motivo pra viver e ser feliz. Hoje, ele deve estar triste, mas logo voltará a ouvir as músicas de seu ídolo e dançar como se estivesse em um palco.

Quando me lembrei dele, depois que soube da morte de Jackson, uma música invadiu meus pensamentos. Foi "Gente Humilde", de Garoto, Vinícius de Moraes e Chico Buarque de Hollanda.

"Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a como
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar

São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar"

21.6.09

Turista encontra gênio no deserto

Um turista visitava um deserto no Oriente Médio quando encontrou uma garrafa. Ao abrir a tampa, apareceu um gênio:

- Olá! Sou o gênio de um só desejo, às suas ordens.

O homem pensou por um tempo e disse:

- Então eu quero a paz no Oriente Médio. Veja este mapa: desejo que estes países vivam em paz.

O gênio olhou bem para o mapa e respondeu:

- Amigo, estes países guerreiam há 5 mil anos! Sou bom, mas não o suficiente para isso. Peça outra coisa!

O homem voltou a pensar e disse:

- Nunca encontrei a mulher ideal. Gostaria de uma bem humorada, que goste de futebol, cerveja, não seja ciumenta, bonita, culta, fiel, carinhosa e que não goste de cartões de crédito!

O gênio suspirou fundo e disse:

- Deixa eu ver esse mapa aí de novo!!

13.6.09

Um dia bonito como outro qualquer

A mãe o ouviu falando alto, enquanto fazia a barba:

- Finalmente, as coisas estão melhorando pro meu lado. Tava na hora, né? Tanto tempo deixado de lado, ninguém se lembrava de mim, pensei que não fosse mais trabalhar. E, sem trabalhar, como é que eu ia fazer a Dorinha virar sua nora, hein, mãe?

Depois, foi pro quarto trocar de roupa:

- Tudo indica que esse pessoal vai me valorizar. Eu já tô cansado de trabalhar e ninguém reconhecer meu esforço. Mas eu estive com o chefe ontem e fui muito bem recebido. No fim do ano, ainda vão nos dar uns dias de folga, mãe. Podemos todos ir pra Copacabana, ver a queima de fogos e saudar o Ano Novo. Não vou me queixar deste ano. Vou até agradecer. E saber que o próximo será ainda melhor. Cansei de ser um pessimista.

Abriu a porta, viu o sol, o dia claro, respirou fundo e disse pra mãe:

- Minha saúde melhorou, Dorinha parou de encher o saco com aquele ciúme doentio dela. Fala pro pai que, se ele quiser, podemos tomar umas logo mais à noite, aqui por perto mesmo. Tenho muitos motivos pra comemorar, né?

Foi nesse momento que a bala perdida acertou seu coração.

30.5.09

Combate volta ao ar na TV a cabo

Um dos melhores seriados de todos os tempos está de volta. A partir do próximo sábado, 6 de junho, às 13 horas, com reprise na madrugada de domingo, às 4h30, o TCM (canal 91, pela Net) exibe Combate, desde o seu primeiro episódio. A série foi produzida entre 1962 e 1967, e reprisada nas décadas seguintes, conseguindo uma legião de fãs em todo o mundo.

Combate retrata as aventuras de um pelotão do exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial, logo após o Dia D, quando os aliados invadiram a Normandia e começaram a expulsar os nazistas dos países ocupados na Europa.

O que transforma Combate num cult é o fato de não se restringir a mostrar trocas de tiros entre soldados. O tiroteio apenas faz parte de diversas histórias que acontecem naquele cenário de guerra. É ali, no front, numa situação limite, que dramas pessoais são mostrados e analisados de maneira empolgante.

O pelotão, comandado pelo tenente Hanley (Rick Jason), tem uma patrulha fixa, integrada pelo sargento Saunders, o excelente Vic Morrow (na foto acima, em escultura de Michael Keropian, e também na foto abaixo), pai da atriz Jennifer Jason Leigh, e os soldados Cage, Kirby e Baixinho, além de Doc (o médico).

Entre os atores convidados, temos mais um pelotão de astros, como Charles Bronson, James Franciscus, Claude Akins (Xerife Lobo), John Cassavetes, Lee Marvin, Telly Savalas (Kojak), Robert Duvall, Dennis Hopper (Sem Destino), Bill Bixby (O Incrível Hulk), Fritz Weaver, Nick Adams (O Rebelde) e Ricardo Montalban (Ilha da Fantasia), entre outros. Atrás das câmeras, a série contou com diretores que depois se consagraram no cinema, como Robert Altman (Dr. T e as Mulheres, Nashville etc). Mais informações no site combatfan.

Em Combate, não há nenhuma manifestação a favor da guerra. Em um dos episódios, um médico alemão se une ao médico americano para salvar a vida de uma criança francesa. Em outro, um soldado ajuda um colega, que lhe devia dinheiro de jogo, e é acusado de só ter feito aquilo por causa da dívida. “Não”, ele diz. “Eu o ajudei porque era o meu dever.”

Lições de dignidade, caráter e amor pelo semelhante tornam Combate uma série que pode ser vista a qualquer tempo, independente de sua ação transcorrer na Segunda Guerra Mundial. São lições das quais nunca devemos nos afastar, seja qual for a guerra, pessoal ou social, em que nós somos os personagens principais.

23.5.09

Inglesa vai ao supermercado no Brasil


A inglesa Mary Smith resolveu morar no Brasil.

Aqui chegando, ainda treinando falar português, fez a seguinte lista de compras, quando foi ao supermercado:


- Pay she

- MacCaron

- My on easy

- All face

- Car need boy (may you kill oh!)

- Spar get

- Her villas

- Key jo (parm soon)

- Cow view floor

- Pee men too

- Better hab

- Lee moon

- Bear in gel

Ao voltar pra casa, bateu com a mão na testa e disse:

- Is key see me do too much! Put a keep are you!

17.5.09

A difícil vida dos gordos

Celso Japiassu
BLOGUEIRO CONVIDADO


Numa época em que se cultivam os magros, os gordos sentem-se excluídos. Ao contrário dos séculos passados, quando homens e mulheres exibiam corpos redondos e pesados e os magros, suspeitos de tísica, eram olhados com desconfiança.

Hoje, é difícil para os gordos encontrar o tamanho certo de roupa porque são raros os três X nas gôndolas das lojas, enquanto proliferam os talhes médio e pequeno, como se o mundo fosse habitado por adolescentes desnutridos.

As cadeiras são geralmente muito pequenas e se transformam em aparelhos de tortura nas longas viagens de avião, quando os cintos de segurança mostram que também foram imaginados para passageiros abaixo de um peso decente. E as companhias aéreas, ao mesmo tempo em que diminuíram o espaço entre as filas, aumentaram o número de cadeiras.

As diminutas refeições atualmente servidas a bordo denunciam a conspiração destinada a manter os passageiros em condição de extrema magreza, de modo a que possam caber nas poltronas e nos banheiros das aeronaves.

Estas são injustiças menores, quando confrontadas com as que são cometidas pelos exames de sangue. As taxas indicadoras de perigo teimam em permanecer altas e os médicos, antes mesmo de examinar um gordo, dizem que ele precisa perder algum peso.

Todas estas são reflexões sombrias que povoam meus pensamentos enquanto me preparo emocionalmente para, mais uma vez, entrar numa dieta cruel e desumana.

Celso Japiassu pode ser encontrado aqui.

10.5.09

Diante da Lei

Franz Kafka

Diante da Lei está um guarda.
Vem um homem do campo e pede para entrar na Lei.
Mas o guarda diz-lhe que, por enquanto, não pode autorizar-lhe a entrada. O homem considera e pergunta depois se poderá entrar mais tarde.

- "É possível", diz o guarda. "Mas não agora!"

O guarda afasta-se então da porta da Lei, aberta como sempre, e o homem curva-se para olhar lá dentro. O guarda ri-se e diz: - "Se tanto te atrai, experimenta entrar, apesar da minha proibição. Contudo, repara: sou forte. E ainda assim sou o último dos guardas. De sala para sala estão guardas cada vez mais fortes, de tal modo que não posso sequer suportar o olhar do terceiro depois de mim."

O homem do campo não esperava tantas dificuldades. A Lei havia de ser acessível a toda a gente e sempre, pensa ele. Mas, ao olhar o guarda envolvido no seu casaco forrado de peles, o nariz agudo, a barba à tártaro, longa, delgada e negra, prefere esperar até que lhe seja concedida licença para entrar. O guarda dá-lhe uma banqueta e manda-o sentar ao pé da porta, um pouco desviado.

Ali fica, dias e anos. Faz diversas diligências para entrar e com as suas súplicas acaba por cansar o guarda. Este faz-lhe, de vez em quando, pequenos interrogatórios, perguntando-lhe pela pátria e por muitas outras coisas, mas são perguntas lançadas com indiferença, à semelhança dos grandes senhores. No fim, acaba sempre por dizer que não pode ainda deixá-lo entrar.

O homem, que se provera bem para a viagem, emprega todos os meios custosos para subornar o guarda. Esse aceita tudo, mas diz sempre: - "Aceito apenas para que te convenças que nada omitiste."

Durante anos seguidos, quase ininterruptamente, o homem observa o guarda. Esquece os outros e aquele afigura-se-lhe o único obstáculo à entrada na Lei. Nos primeiros anos, diz mal da sua sorte, em alto e bom som, e depois, ao envelhecer, limita-se a resmungar entre dentes. Torna-se infantil, e como ao fim de tanto examinar o guarda durante anos lhe conhece até as pulgas das peles que ele veste, pede também às pulgas que o ajudem a demover o guarda.

Por fim, enfraquece-lhe a vista e acaba por não saber se está escuro em seu redor ou se os olhos o enganam. Mas ainda apercebe, no meio da escuridão, um clarão que eternamente cintila por sobre a porta da Lei. Agora a morte está próxima.

Antes de morrer, acumulam-se na sua cabeça as experiências de tantos anos, que vão todas culminar numa pergunta que ainda não fez ao guarda. Faz-lhe um pequeno sinal, pois não pode mover o seu corpo já arrefecido. O guarda da porta tem de se inclinar até muito baixo, porque a diferença de alturas acentuou-se ainda mais em detrimento do homem do campo. - "Que queres tu saber ainda?", pergunta o guarda. "És insaciável."

- "Se todos aspiram a Lei", disse o homem, "como é que, durante todos esses anos, ninguém mais, senão eu, pediu para entrar?"

O guarda da porta, apercebendo-se de que o homem estava no fim, grita-lhe ao ouvido quase inerte:

- "Aqui ninguém mais, senão tu, podia entrar, porque só para ti era feita esta porta. Agora vou-me embora e fecho-a."

Franz Kafka (Praga, 3 de julho de 1883 - Klosterneuburg, 3 de junho de 1924) foi um dos maiores escritores do século XX. Suas obras, como A Metamorfose, Colônia Penal, O Processo e O Castelo, retratam indivíduos presos em situações absurdas num mundo impessoal e burocrático.

2.5.09

us grandi pobrema da amazonia

E vamos nós com mais alguns trechos retirados do último ENEM. Os bravos estudantes que os redigiram nos dão a esperança de que o país em que vivemos tem mesmo um futuro brilhante! São eles que vão dizer o que vocês poderão ou não fazer, brevemente. Não acreditam? Basta esperar. A única coisa que pode nos atrapalhar é esse negócio de mudança climática. Ou a tal gripe suína. A superpopulação. A ganância. O ser humano. No mais, tudo vai bem no melhor dos mundos. Inclusive o desmatamento, tema da prova do ENEM, que, como vocês todos sabem, tá sob controle. Como, aliás, tudo nesse mundo. Ou vocês pensam que existe algo errado no mundo? Crise? Que crise?

"A amazônia tem valor ambiental ilastimável."
(Ignorem, por favor)

"A floresta amazônica não pode ser destruída por pessoas não autorizadas."
(Onde está o guarda Belo nessas horas?)

"Retirada claudestina de árvores."
(Deve ser alguma Cláudia nordestina)

"Temos que criar leis legais contra isso."
(Sim, porque lei ilegal é inconstitucional!)

"A camada de ozonel..."
(Pode ser o ozônio do coronel)

"a amazônia está sendo devastada por pessoas que não tem senso de humor."
(Basta mandar o elenco do CQC cortar árvores!)

"A cada hora, muitas árvores são derrubadas por mãos poluídas, sem coração."
(Parece música sertaneja, não?)

"A amazônia está sofrendo um grande, enorme e profundíssimo desmatamento devastador, intenso e imperdoável."
(Este é imbatível na categoria "o maior enchedor de linguiça")

"Vamos gritar não à devastação e sim à reflorestação."
(NÃO!!! SIM!!!)

"Uma vez que se paga uma punição xis, se ganha depois vários xises."
(Quantos?!?!)

"A natureza está cobrando uma atitude mais energética dos governantes."
(- Red Bull neles - dizem as árvores)

"O povo amazônico está sendo usado como bote expiatório."
(Talvez seja o barquinho do 007)

"O aumento da temperatura na terra está cada vez mais aumentando."
(É porque não gritamos SIM à "reflorestação"!)

"Na floresta amazônica tem muitos animais: passarinhos, leões, ursos, etc."
(O urso é o polar, aquele branquinho, pra ficar bem claro! Já o leão é negro, porque é africano.)

"Convivemos com a merchendagem e a politicagem."
(É uma grande "burragem" o que fazemos!)

"Na cama dos deputados foram votadas muitas leis."
(Depois dizem que eles não fazem nada! Trabalham até na cama!)

"Os dismatamentos é a fonte de inlegalidade e distruição da froresta amazonia."
(Mas "qui pobrema"!!)

Pra finalizar, uma breve observação sobre o post anterior, aqui abaixo: muita gente não percebeu que um quadrinho tem ligação com o outro! São estudantes recebendo seus diplomas e, a seguir, caem num abismo, quando deveriam cair no mercado de trabalho, que, infelizmente, não existe! O que restou foi um patrão montando no lombo de um humilhado trabalhador, pra exibir a faixa "Feliz dia do trabalho". Que trabalho? E outra coisa: ADORO FERIADOS! Ou vocês pensam que eu gosto de trabalho? Trabalho apenas porque me obrigam a pagar contas. Se não fosse isso, eu estaria agora mesmo na Praia de Copacabana, tomando água de coco e vendo garotas de biquini!