
Há pouco mais de um ano, eu fazia minhas tradicionais navegadas quando fui cair num blog que logo mudou meu estado de espírito. Era o
Cólica Mental. Fiquei ali, lendo vários posts. Há tempos isso não me acontecia. Procurei saber quem escrevia daquela maneira, com tanto humor nas entrelinhas, juntando
Sartre e
Simone de Beauvoir com Zorra Total e CQC!
Era Nathália Esthevlana. E com apenas 18 anos!! Logo a convidei pra fazer parte do Jornal da Lua. Trocamos e-mails pra acertar os detalhes e conheci um pouco mais daquela autora tão diferente. Fizemos algumas experiências e dei a ela o cargo de colunista anti-social. Os jornais tradicionais têm colunistas sociais. Aqui Nathália é a colunista anti-social, usando o codinome de Lana Esthevlana. Tirei isso de sua própria definição de perfil que vi no Cólica Mental. E como ela se recusa a escrever o novíssimo “antissocial”, continuamos à moda antiga.
Um dia, ela me disse pra olhar um “blog de testes” que tinha em seu painel. Lá estava um novo template pro JL, com aquela Lua imensa! Claro que adorei! Continuamos trocando ideias e nos conhecemos pessoalmente em setembro do ano passado, numa exposição sobre
Clarice Lispector, no Rio.
Meses antes, fiz uma página na rádio
Last FM, mas acabei esquecendo de voltar lá. Em seu blog, Nathália criou um link, “Também estou na Last FM”. Fui lá, curioso pra saber o que uma representante do século 21 gostava de ouvir. Foi uma de minhas maiores surpresas. Quase tudo que ela ouvia era o que eu ouvia desde a minha adolescência! Ela conhecia tudo que eu conhecia e muito mais!
Numa noite, depois de entrar na página dela na Last (o que faço até hoje!) e ficar ouvindo suas faixas escolhidas, tive um sonho: eu estava em 1969, o que aconteceu a seguir indicava isso. Toca o telefone e vou atender:
- É Nathália! Vamos pra Woodstock?
No sonho, Nathália tinha 18 ou 19 anos. Na realidade, ela só iria nascer dali a 20 anos, em 1989. Mas, em sonhos, épocas, lugares e pessoas que não se conhecem se misturam, pelo menos comigo é assim. Então, neste sonho, nós éramos vizinhos.
- Wood... Como é?
-
Woodstock! Ouvi agora no programa do Big Boy, na Rádio Mundial. Vai ser em agosto, três dias de festival, imagina! Dias 15, 16 e 17 de agosto!
- Mas, onde é? É festival de música?
- Woodstock fica perto de Nova York! Quase todos os grandes vão pra lá, pensa bem! Não podemos perder!
- Nova York? E quais são esses grandes?
- Quais são? Anotei aqui: Jimi Hendrix, The Who, Santana, Ten Years After, Creedence, Joan Baez…Bob Dylan não vai, mas podemos procurar em Nova York, fiquei sabendo que ele tá lá! Não me pergunte pelos Beatles, que eu sei que você vai perguntar! Eles não vão. Nem os Stones. Mas parece que até Janis Joplin vai. Quer mais? Crosby, Stills, Nash and Young, Country Joe and The Fish, Joe Cocker...
- Você tá me gozando, Nat? Esse pessoal todo junto? Vai ser um festival tipo o que houve em
Monterey, dois anos atrás?
- Isso mesmo! Só que com muuuuitoo mais artistas! E nós perdemos Monterey! Esse nós não vamos perder! Vai logo arrumando a mochila e o
sleeping bag!
- Nooossaa! Vamos ver Hendrix de perto? Claro que eu topo! Vai ser ao ar livre?
- Passa aqui mais tarde que eu te conto tudo. Agora tenho que ir numa passeata contra a ditadura. Você não quer ir?
- Tô trabalhando. Contra a ditadura, mas acho que vão censurar meu artigo. Tem
Coquetel Molotov aí?
- Hahaha! Meu grau de violência e repulsa a esse povo não chega a tanto. Mas, se for preciso, treinei jogar pedras na tropa de choque. Vou seguir de braços dados com diversos artistas, como na
Passeata dos Cem Mil, ano passado. Cara, de repente eu conheço Chico Buarque, já imaginou?
- É mesmo, pena que eu não posso ir. E o lema de
Maio de 68 continua, né?
- Sim,
“É Proibido Proibir”. Ah, sábado estréia o filme do
Bergman! Não esquece, hein?
- Não esqueço, vamos juntos! E tô louco pra ver “
Sem Destino”, já te falei dele, não foi?
- Com Steppenwolf e Hendrix na trilha sonora? Claro! Compra logo o disco, vai sair aqui antes do filme!
Quando acordei, percebi como eu a via. É uma típica garota dos anos 60, mas que passou a infância nos anos 90 e entrou na adolescência junto com o século 21. Ela soube estudar o passado recente e entendeu tudo muito bem. Por isso, poderia tranquilamente passear com Janis Joplin em Copacabana ou jantar com Woody Allen em Nova York. Aliás, se Woody Allen fosse mulher, seria a Nathália!
Em um de seus posts, Nathália diz que não vê nada de mais no dia de seu nascimento, que muitas vezes nem se lembra, que a data não mudou em nada o rumo da humanidade. Típico pensamento de uma garota dos anos 60, adepta da
Contracultura.
Tá OK, Nat! Então, em vez de te dar os parabéns pelos seus 20 anos no dia 13 de abril, fica aqui esta pequena homenagem. E, claro, vamos pra Woodstock!