14.11.09

As desventuras de Anselmo, o boêmio

Regina Lewinsky
CORRESPONDENTE

Anselmo era um sujeito casado, mas, também, boêmio e mulherengo de carteirinha. Sempre que tinha uma chance, "aprontava", entregando-se a homéricas farras, o que fazia a sua infeliz consorte(?) se descabelar e viver no seu encalço, sempre que possível.

Em uma de suas furtivas noites de orgia, depois de tomar todas com colegas de trabalho, num pouco recomendável barzinho da periferia, cada um arranjou uma parceira e saíram em caravana pra a beira-mar; dois casais em cada carro, com a "inocente" finalidade de assistir "corrida de submarino", num tempo em que essa prática não significava, ainda, um risco de vida.

E foi um tal de pernas, braços e cabeças a se engalfinharem naquele pequeno espaço, em frontal desafio à Lei de Newton ... uma verdadeira promiscuidade!

Ao raiar o dia, percebeu, horrorizado, que havia extrapolado o limite do horário de chegar em casa ainda com uma desculpa razoável e, desfazendo-se das sua parceira, rumou pro seu lar, "bolando" uma justificativa possível pra aquele execrável ato. Ao aproximar-se de casa, desde longe Anselmo vislumbrou o seu mais temível pesadelo: lá estavam, alinhadas que nem meio-fio, sua esposa e ninguém menos que a sua temível sogra, contumaz desafeta, que nunca entendeu o porquê da filha ter escolhido "semelhante cafajeste pra marido, quando havia tido tantos pretendentes tão mais aceitáveis antes dele".

O cara gelou, quando viu o que o aguardava: as duas, de "mãos nos quartos", balançando uma das pernas, numa ameaçadora coreografia sincronizada, com aquelas caras de quem está prestes a explodir (só faltava o fatídico rodo nas mãos), o fulminavam com olhares nada compreensivos.

Dentre todos os impropérios que ouviu, enquanto fechava o carro, só uma frase o fez estremecer: "Vamos chegar atrasadas no casamento!" ... Foi aí que ele lembrou: logo mais, às 9 horas, o casal estava escalado para apadrinhar o casamento de uma das irmãs da esposa e o evento iria se realizar numa cidadezinha a uns 200 km dali!

O miserável quis morrer! Com aquela ressaca, aquele gosto de brecha de tamborete e de cabo de guarda-chuva na boca, um sono de matar e a cabeça a ponto de estourar, ainda tinha que se por lindo e loiro, todo engravatado, em um recinto em que estaria presente toda a família dela (que, não por acaso, não o via com bons olhos). ERA A MORTE!

Aproveitando-se do pouco tempo que tinha pra se arrumar e tentar se recompor, passou pelas duas feito uma bala, sem dar a mínima satisfação, se fingindo preocupado com o adiantado da hora. Entrou embaixo do chuveiro, gargarejou um desinfetante bucal, pra disfarçar o bafo de onça, arrumou-se todo, perfumou-se e entrou no carro, onde as duas já haviam se aboletado, pensando na desagradável cantilena que iria escutar durante todo o percurso, o que, com efeito, aconteceu.

Tentando desenvolver a velocidade máxima, pra abafar as impiedosas vozes das duas, sentiu alguma coisa impedindo-o de acelerar. Foi aí que ele petrificou: ao dar uma espiada pra baixo, vislumbrou um sapato de mulher! Pronto. Estava perdido! Como defender-se do indefensável, agora que aquele inanimado objeto, silenciosamente, "entregava" sua abominável traquinagem?

Como todo bom malandro, logo teve uma idéia: inventou que o carro estava apresentando um problema, diminuiu a marcha, abriu a porta, fingindo olhar o pneu traseiro e arremeteu no acostamento a prova do crime. Oh! Que alívio! Agora podia seguir a viagem sem mais atropelos que não o blá-blá-blá daquelas duas! Chegou à igreja a tempo de ver que o carro que conduzia a noiva ainda adentrava o pátio. Apressado, dirigiu-se à entrada lateral, quando viu que as suas companheiras de viagem sequer haviam ainda saído do carro ...

"Ora, bolas!" - resmungou - "Essas duas com tanta pressa e ficam ali, só falando mal de mim". Voltou, já com ares de quem ia repreendê-las pela demora, mas parou e deu meia-volta, rindo cínicamente entredentes, quando ouviu o seguinte diálogo:

- Mamãe, é claro que a senhora esqueceu! Como é que o seu sapato poderia sumir daqui, se a senhora nem saiu do carro???

- Minha filha, eu num tô doida, não ... Me responda como é que eu iria me arrumar todinha e calçar um sapato só, sem notar a falta do outro pé? Isso é um fenômeno inexplicável! E agora, como é que eu vou entrar na igreja? Vou perder o casamento da minha filha pela falta de um sapato. Que absurdo!!!

Regina Lewinsky também pode ser encontrada aqui.

41 fala que eu te escuto:

Dama de Cinzas disse...

Consciência pesada faz ver tudo distorcido... ehehehe...

Beijocas

Luciana P. disse...

Hahahahaha, muito boa essa história, veja vc o que faz a culpa no cartório, rsrsrs...
Tentou livrar-se do crime sem perceber que a prova nem pertencia ao crime dele.
Adorei, Bill, um lindo domingo pra ti.

JuJu disse...

Hahahahahahahahahahaha! Eita!
...
Passe lá no meu blog e deixe seu comentário!!!

Desabafando disse...

kkkkkkkkkkk......muito bom. Jogar o sapato da sogra no acostamento.

. inha ~ disse...

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
gostei.

Luana H. disse...

Hahahaha... oq a culpa não faz!?!
Ótimo texto!

Beeeijo, querido.

Simples Assim... disse...

É aquela velha história. Malandro é malandro e mané é mané. Aliás, vamos combinar que se a mulher encontrasse o sapato não ia passar muito da cantilena de sempre. Ou ela pensa que ele passou a noite contando estrelas? rs

Bjs, querido.

Luna Gandra # disse...

Acho uma graça esses homens. Que sempre se acham espertos, pensam que enganam, mas na verdade quem estão sendo enganados são eles mesmos.

Cinthia Bittencourt disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkk /adoreii..
posta mais..
ah..e faz uma visitinha pra mim também..

beijoo
(quando crescer quero ter ao menos um pouquinho do seu talento, rs')

Ricardo Chicuta. disse...

Anselmo é que é feliz gente...

Laís disse...

HAHA,esses homens se confundem nas próprias confusões,logo se entregam se escondendo.Até que ele teve sorte,os questionários sobre o que ele fez noite passada vão ser trocados pelo assunto do sumiço do sapato.
beeijão.

Memórias de Donha Baratinha disse...

Oi Bill, tudo bem?
Andei sumida, estava com saudades!O jornal da Lua continua ótimo! kkkkk
Bjuxxx

Sueli disse...

Fico imaginando a situação. Não do final, mas da hora em que ele viu o sapato .... kkkkkkkk!

tossan® disse...

Você reparou que sobra sempre pra sogra. Muito bom conto, meio Nelson Rodrigues. Gostei muito. Abraço

Prestigie a minha amiga você vai gostar:
http://contodavidareal.blogspot.com

Cadinho RoCo disse...

O maridão de tão prevenido acabou foi complicando a vida da sogrinha que sem sapato não teria como ir ao casamento da própria filha, cunhadinha querida do safado.
Cadinho RoCo

- Thaís . disse...

Eu me surpreendo com teus textos. Sempre mais! :)

Nerfethyty disse...

No fim no fim ele se deu bem aprontando uma com a sogra xD. Muito bom o texto ^-^
.
.
.
Bjocas

betty disse...

Bill, essa sua colaboradora é uma das melhores contadoras de "causos" que já conheci.
Já pensou poder sentar com ela num barzinho, tomando um chope gelado, e ficar ouvindo as histórias que tem pra contar? O tempo ia passar rapidinho, como acontece quando a coisa é boa demais.

Beijinhos pra você e pra minha amiga Regina.

Buba. disse...

Ai meu Deus! Coitada da mulher. Mas, ein, eu aceito sim tomar um café :) Que tal na Starbucks? Tem chantilly..

Allyne Alves disse...

Top como sempre!

Tava com saudades daqui...Beijo,querido!

Dora disse...

Pois então... meio "inconsciente" descontar na sogra... rs rs
Bom texto. Adorei, Bill!
Um cheiro grande e uma ótima semana, tá?!

Dayane disse...

Hauhauhauhauhauha!

Karen disse...

hahaha, adooorei.
meu medo é esse, meu medo é esse. homens e fanfarras. e as desculpas já não me colam, não me colam! ó vida cruel, vai ter que ser sempre assim?

"até que a gente também sacaneie"

adorei o blog. ;*

Barbara disse...

Homens brincam.
E brincam os homens.
Ah...isso é tão normal...afinal, meninos são.

.Txia. disse...

HSUAHSUASHAUSHUAHSUAHSUASHUAHSUAHSUA

para voce ver como ele estava preocupado em reparar no sapato da amante, hein?

carol sakurá disse...

Olá!
Primeira vez aqui no blog e adorei seu contos e linguagem!
Parabéns!
Malandro que malandro tem que ter prudência.rsrsrs

Beijos!

Carol Sakurá

Mayana Carvalho disse...

eu ameei a crônica.. que final mais surpreendenteee! UAHSUAHSUAHSUAHSUH. ameei ;*

Daniela Filipini disse...

AHIEOAHEIOAHEIO Gostei!

Cαmilα ♥ disse...

E então como pode?
Hahahahahahahaha

Coisas que só uma mulher é capaz.



BeijOs

Carolina disse...

Que final, hein? depois de tanta atrapalhada... muito bom!

bjão

Magui disse...

Kkkk. Esse final foi excelente.

Ciça Lize disse...

kakakakkak!! ÓTIMO...ADORO ESSE CANTINHO!
BEIJOSSSSS

Ciça Lize disse...

kakakakkak!! ÓTIMO...ADORO ESSE CANTINHO!
BEIJOSSSSS

Natália disse...

Deve ser horrivel casar com uma pessoa assim! Beijos

Anna disse...

hahahaha
adoreeeeeei!
Parece história de Luís Fernando Veríssimo.
beijos

Armando Maynard disse...

É mais uma versão de uma boa história com um fim hilário. Caro Bill, obrigado pela sugestão para que eu pesquise sobre os dois livros que documentam a história de "O Pasquim". Dos livros o que sei é o que saiu publicado em reportagem na revista "Imprensa" e uma crítica que saiu na "Carta Capital". Falar do Pasquim é difícil, pois já escreveram tudo sobre o mesmo. Um abraço, Armando.

Anônimo disse...

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E.Suruba disse...

eu ri com o título, alguma coisa nele me lembrou o diário de bridget jones

Ágatha Alves disse...

hahahahahaha ri de mais,
muito bom
pra vc ve né, quando a pessoa apronta de mais, nem é capaz de perceber que que aquilo pode n ser o que ele pensa....
eu ri

beijos

silxata disse...

Olá!

Agradeço a visita e seu comentário, seja bem vindo "as minhas palavras e blá-blá-blá"...rsrsrsrs


"...Com aquela ressaca, aquele gosto de brecha de tamborete e de cabo de guarda-chuva na boca..."

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Abraço!

Inté!

Lugirão disse...

Muito bom, desfecho inesperado, fiquei imaginando cada sequencia a medida que lia.